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Muitos grandes escritores já tentaram e fizeram muito bem a sua passagem de revisitação das Eras dos Quadrinhos de super-heróis norte-americanos. Um dos últimos a tentar essa incursão foi o canadense Jeff Lemire, neste seu quadrinho Black Hammer, publicado originalmente pela Image Comics, casa das propriedades intelectuais de posse dos seus autores.

Este post não contém spoilers.

O primeiro volume segue a premissa tão famosa de Alan Moore “tudo que o personagem sabia sobre si mesmo era uma mentira”. Uma família disfuncional vive numa fazenda, cada membro lidando com as suas grandes limitações que torna a convivência uns com os outros praticamente insuportável. Mas a chegada de um martelo negro à bucólica fazendinha vai mudar tudo o que essas pessoas tinham certeza que eram. Não seria spoiler contar que, na verdade aqueles moradores da fazendinha numa cidade longe das barulhentas metrópoles, guarda um grupo de super-heróis que foi resguardado lá como última esperança de uma realidade destroçada por um entidade conhecida como AntiDeus.

Os volumes dois e três vão revelando mais nuances nas relações entre os personagens dessa esquisita família e como eles se comportavam quando tinham uma outra vida, em Spyral City, a cidade onde todos, em um determinado tempo, foram super-heróis. A homenagem de Jeff Lemire é mais do que clara: a heróis da DC Comics e da Marvel Comics que existiram antes da grandiosa e estrondosa Crise nas Infinitas Terras, megassaga que reordenou as realidades e dimensões da Editora das Lendas, a DC Comics. Dizer que o mundo, que era vasto e expressivo se reduziu à realidade de uma fazendinha sem muitos atrativos e aventuras é uma metáfora ao efeito da Crise na DC. Lá, todas as realidades converteram em uma única Terra, para facilitar a compreensão dos leitores que, na mente dos editores, tinham sua cronologia como algo de difícil acesso.

O AntiDeus, se por um lado é uma analogia ao grande vilão de Crise nas Infinitas Terras, ele também é uma forma de se referir às decisões editorias dos criadores, dos Deuses das terras dos comics, que são todos aqueles que participam de um staff das editoras. Por isso também o estranhamento deste último encadernado logo no começo: o desenhista muda. Não temos mais Dean Ormstrom, mas Rick Tommaso comandando os conceitos visuais. Nestas duas edições as homenagens correm soltas. A Wolverine e até para a Legião dos Super-Pets. Uma oportunidade para Jeff Lemire também apertar o botão do reboot do seu universo Black Hammer e começar a recontar, mais uma vez, a história que começou edições atrás.

Jeff Lemire é um quadrinista completo. Ele produz suas histórias do começo ao final, da concepção à produção gráfica. Ele vem da geração tardia de escritores de graphic novels com relatos si com algumas pitadas reais e outras pitadas inventadas. Muitos desses escritores dessa geração, canadenses também, foram cooptados pela DC Comics para escrever diversas histórias da editora durante o advento da iniciativa Os Novos 52, principalmente no selo de terror, Dark. A Lemire coube o Homem-Animal, por exemplo. Mesmo que já tenha emprestado seu traço em trabalhos autorais pelo selo Vertigo, como em Sweet Tooth e em Trillium, quando o assunto é super-heróis ele e seus editores preferem dispensar o seu traço.

Foi isso que aconteceu também aqui em Black Hammer, em que Dean Ormstrom, de posse de um vigor artístico que poderia ter se dado muito bem nas histórias dos anos 1950 nos Estados Unidos, em que heróis, cowboys, romance e monstros conviviam até que harmoniosamente nas bancas. Seu estilo lembra um passado vintage que estamos sempre dispostos a visitar, para reencontrar os amigos de outros tempos mais uma vez e nos divertirmos ao seu lado. Tommaso, em contraste, tem um estilo que lembra outra geração de canadenses independentes, como Seth e Chester Brown, que tem temas um pouco mais depressivos e desalentados do que a geração de Lemiere, que trouxe gente como Matt Kindt e Ray Fawkes.

Claro, Black Hammer é uma história sobre encontro de gerações, como a grande maioria das histórias de Lemire. É uma história sobre histórias e é um quadrinho sobre a história dos quadrinhos. Mais que isso é uma história sobre nós, leitores e como acolhemos e esquecemos personagens. A fazenda apresentada em Black Hammer é, ao mesmo tempo, aquecida e erma, próxima e distante, funcional e disfuncional, descontruída e construída, despertada e adormecia, e é nesses movimentos de opostos que Black Hammer e a grande maioria das histórias de Lemire, que brincam com a oposição interior/exterior, resultando num movimento na alma e no intelecto do leitor que se submete à essas ondas.

A última parte de Black Hammer, A Era das Destruição: Parte 2, é um quadrinho que vale a pena.

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Guilherme "Smee" Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, redator e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. Entre seus quadrinhos publicados estão Desastres Ambulantes, Sigrid, Bem na Fita e Só os Inteligentes Podem Ver.


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