
Nisso não há dúvidas. O lançamento de Civil War II se trata muito mais de marketing do que de storytelling. Contudo, independente dos motivos que levaram á criação da história, ela ainda precisava ser contada e, a despeito da conveniência em relação com o lançamento do filme do Capitão América – e também do desejo de formar leitores à partir do Universo Cinematográfico – podia acabar sendo uma boa obra. Com sorte, até mesmo superior à Guerra Civil original.
Apesar do pomposo algarismo romano que carrega em seu nome, esta encarnação da Guerra Civil não se trata de nenhuma espécie de continuação ou releitura do evento anterior. Não é mais uma questão de pró ou anti-registro. Escrita por Brian Michael Bendis – que só aceitou o título após ele ter sido recusado por Mark Millar, autor do evento em 2006 – e desenhada por David Marquez, Civil War II lida com os temas do determinismo e do livre arbítrio diante da possibilidade de se prever o futuro. Conflito moral bastante explorado na ficção científica, como no, bem conhecido, filme Minority Report, dirigido por Steven Spielberg e inspirado na obra homônima de Phillip K. Dick. Na atual HQ da Marvel, o livre arbítrio é incorporado ao lado dodo Homem de Ferro, que acredita que nada está escrito em pedra, enquanto o determinismo fica para a Capitã Marvel, que fica com a crença de que devem combater ameaças antes que elas se concretizem.
A questão toda gira em torno de um novo Inumano, conhecido como Ulysses. Descoberto pela Rainha Medusa e sua família real, o jovem tem a habilidade extraordinária de prever o futuro. Ele não parece saber exatamente este poder funciona, na verdade, ninguém parece saber. No entanto, foi devido a sua capacidade recém descoberta que os Inumanos foram capazes de alertar aos outros super-heróis sobre uma ameaça alienígena surgiria no dia seguinte para destruir a Terra como ela era conhecida. Conseguindo se planejar, não foi complicado deter a invasão dos Celestiais. O clima de comemoração entre heróis dura pouco, contudo. Na festa que Tony Stark sedia após o evento, os Inumanos apresentam o seu novo membro, explicando como foram capazes de prever o ataque dos Celestiais.
Essa é um dos melhores momentos da trama, pois mostra Tony Stark, do alto de sua racionalidade científica, fazendo algo que poucos personagens costumam fazer nas histórias em quadrinhos: questionar. O Homem de Ferro começa a discorrer sobre os problemas que previsões do futuro podem fazer e como, apesar do sucesso que tiveram, talvez não fosse uma boa ideia acreditar tão rapidamente nos supostos poderes de um desconhecido. Nesta cena, o clima de festividade se torna imediatamente pesado – algo que o roteiro e a arte conseguiram mostrar muito bem – e já é possível começar a ver o posicionamento que os personagens da Marvel acabarão por tomar.
Apesar da participação de outros heróis, com destaque para uma breve menção a o que poderia ser o início de uma discussão entre Stark e Steve Rogers, mas que os dois amigos preferiram deixar de lado, a sequência é sobre o Homem de Ferro e a Capitã Marvel. A posição dos dois é muito bem apresentada e fundamentada, com o primeiro acreditando que não podem acreditar cegamente em previsões para o futuro, já que, como foi provado, ele pode ser alterado, enquanto Carol se posiciona dentro da crença que precisam usar o poder de Ulysses para fazer o bem, como ocorreu na invasão dos Celestiais.
Esse debate acalorado, mas comedido, marca o início de toda a premissa de Civil War II. O argumento de Tony Stark fica um pouco fraco, já que, não fosse pela utilização dos poderes de Ulysses, não teriam conseguido organizar o time de usuários de magia que baniu os Celestiais, no entanto, ele explica muito bem sua posição. O que aconteceria se o rapaz afirmasse ter visto um deles, um dos heróis, causando a destruição do mundo? O que fariam?
Neste ponto a HQ acaba por falhar em sua narrativa. As bases são estabelecidas, as diferenças morais entre Carol e Tony lançadas. No entanto, o evento que realmente inicia a catástrofe, não é mostrado na revista. Um confronto de um time organizado pela Capitã Marvel para combater Thanos, acaba causando a morte de dois heróis. Civil War II #1 pula para depois do acontecido, que é apresentado na HQ Civil War II Free Comic Book Day. É verdade que as consequências do confronto são muito mais importantes para a história. No entanto, acaba que a história parece incompleta e mau apresentada, com partes relevantes tendo sido deixadas de lado.
A morte de personagens queridos da Marvel pode afetar os leitores. Mas dentro das páginas da revista, o efeito que elas causam em Tony Stark e Carol Danvers são notáveis. Bendis e Marquez conseguiram combinar muito bem o roteiro e a arte para criar um desenvolvimento muito bom do lado emocional dos protagonistas da edição e desenhos belíssimos representando expressões faciais carregadas de sentimento e emoção.
É exatamente isso o melhor de Civil War II. Caracterização. Sentimento. Diferente da Guerra Civil de 10 anos atrás, a questão não é apenas moral – embora tenha muito disso – e é nada política. Para os líderes dos dois lados que se formarão, a questão é muito mais pessoal. Eles já perderam muito com o incidente, e nenhum dos dois quer perder mais. Diferente de Tony Stark e Steve Rogers, desde o início, os Carol e o Homem de Ferro são inimigos. E para eles, talvez ainda mais para Stark, é uma questão pessoal.
Nessa premissa bastante emocional, é interessante ver o Homem de Ferro abandonar a pose racional e impessoal, se vendo completamente perturbado por seus sentimentos e tendo seu discernimento afetado. Pode até parecer pouco apropriado para o herói, mas a questão é muito bem desenvolvida. O maior problema desta abordagem é que Tony Stark fica parecendo bastante hipócrita, já que ele mesmo causou a morte de amigos devido a coisas que julgava certo, mas se valendo de planos muito mais duvidosos do que tentar impedir os planos do de Thanos, um dos maiores vilões do universo Marvel. Afinal de contas, soubessem de qualquer outra forma que o Titan Louco estava invadindo uma base militar, não teriam vários heróis corrido para detê-lo, se colocando em situações de ainda maior perigo?
A primeira edição de Civil War II não é tão boa nem traz situações tão impactantes quanto o inicio da série de Mark Millar. A morte de não um, mas dois heróis, certamente é um acontecimento de respeito, mas nem de longe tão poderoso quanto a explosão de uma escola primária devido a irresponsabilidade “super-heroica”. Mesmo assim, Bendis e Marquez conseguem representar a personalidade e emoções dos heróis com muita competência. Esta nova série, apesar de todos os apesares, pode acabar se mostrando uma obra interessante, quando completa, mas sua narrativa já surgiu com falhas e, como Alex Alonso – Editor Chefe da Marvel – comentou, diferente dos outros grandes eventos, que tiveram anos de planejamento, ele teve apenas três ou quatro meses para planejar Civil War II. O resultado final desta série, portanto, ainda está muito em aberto.
Para acompanhar mais resenhas e comentários sobre livros e HQs, é só seguir o instagram do autor