Crimson Desert é um caso curioso. Ele definitivamente não é um jogo para todo mundo. Mas o marketing fez parecer que sim, afinal ele desde o início fazia questão de deixar bem claro o quanto poderia abraçar fãs de… bom, de todos os jogos de mundo aberto que você puder imaginar. Tinha um pouco de The Witcher, Skyrim, Zelda, Read Dead Redemption, Assassin’s Creed e por aí vai. É por isso que é até meio irônico que, de certa forma, ele seja um jogo nichado. E muito provavelmente… aliás, com certeza, de forma não intencional.
Veja, a ideia de um jogo que “não é para todo mundo” não é estranha nessa indústria. Ano passado tivemos um ótimo exemplo com Kingdom Come Deliverance II, que inclusive concorreu ao Jogo do Ano. Só que esse é o tipo de jogo que, quem decide jogar, sabe muito bem o que vai encontrar ali – então, se arrisca quem quer. Dessa forma, sem expectativas criadas, não existe burburinho, não existe controvérsia. Zero polêmica. O mesmo ocorre com jogos que também são de nicho, mas que ao contrário de KCD II, furam a bolha. Tipo Baldur’s Gate 3 ou Expedition 33, que embora sejam sim jogos nichados, possuem um nível de excelência que faz com que pessoas completamente fora daquele nicho sintam-se compelidas a experimentar.
Percebem a diferença? Crimson Desert se apresentou, desde o começo, como um jogo para todos. E quando ele chega e, bem, definitivamente não é para todos, isso se reflete rapidamente (e de forma acalorada e passional) nas notas da crítica e também do público. E convenhamos, a pior coisa que tem para um jogo, é ele ser encarado com a motivação errada. Mas sabe o que é pior? Aqui nesse caso, a culpa foi do próprio Crimson Desert.

Veja, podemos usar o caso de Death Stranding como um outro exemplo aqui. Quando o jogo chegou ao PlayStation em 2019, já existia uma percepção muito clara do que é um jogo PlayStation – tanto pelo público, quanto pela crítica. E por mais que o próprio Hideo Kojima tenha deixado bem claro por diversas vezes que seu game era realmente algo extremamente experimental cujo gameplay se baseava 90% em fazer entregas, ainda assim houve uma recepção completamente equivocada do título da Kojima Productions. Mas nesse caso, não foi culpa do game. Foi só o jogador se frustrando (e se enfurecendo) por descobrir que existem jogos que simplesmente não são para ele, por mais que ele queira que seja.
Crimson Desert se encaixa nesse perfil, mas eu culpo a Pearl Abyss pela recepção controversa. Acontece que, embora realmente tenha tudo aquilo que foi mostrado no material promocional, a progressão do game é… lenta. Muito lenta. Acostumados a trabalhar com MMO (afinal são os criadores de Black Desert), faltou nos desenvolvedores uma expertise em criar jogos single player. A estrutura simplesmente não pode ser a mesma.
Dessa forma, o que temos em Crimson Desert é um single player que durante suas primeiras horas funciona exatamente como um MMO – e nem todo mundo vai ter paciência para isso. Aquela conhecida sensação de jogadores de MMO, a de jogar por dias a fio até finalmente sentirem que estão progredindo, simplesmente não funciona para a dinâmica à qual jogadores de single player estão acostumados. Dessa forma, o que temos em Crimson Desert é um “tutorial” com missões básicas e simplórias, que dura cerca de 15 horas. Pois é.

A questão é que, passadas essas horas (que são do tamanho de muitos jogos completos por aí), Crimson Desert realmente mostra a que veio. E ele é realmente um jogo muito bom. Só que mesmo nisso, ele esbarra em um outro problema: seguindo a sua filosofia de não pegar o jogador pela mão em momento algum e deixá-lo com liberdade para explorar desde os momentos iniciais, o Crimson Desert peca em fazer com que alguns jogadores demorem ainda mais tempo até descobrirem o real potencial do jogo. Isso porque, muita coisa se revela e se destrava após algumas missões principais, mas há uma grave falha de game design que não incentiva o jogador a seguir adiante na história. Faltou um equilíbrio da direção do jogo aí.
Falando em história, muito foi dito por aí sobre ela ser um dos aspectos mais fracos do game, mas sinceramente não enxergo dessa forma. Claro, não é nenhum primor, mas serve muito bem para manter o jogador engajado e oferece alguns momentos épicos em capítulos mais avançados da jornada. Já vi jogos com histórias muito piores (ou ausentes de história) sendo aclamados por aí, então entendo que esse foi só mais um detalhe que decidiram usar para pegar no pé do jogo.
Em Crimson Desert acompanhamos Kliff, uma espécie de líder dos Jubas Cinzentas, um clã de guerreiros que protege o povo de Pailune, uma região mais ao norte do continente de Pywel, onde o jogo se passa. Um dia, Jian, o governante de Pailune, é traído e morto em um complô orquestrado por um outro clã, o dos Ursos Negros. Com Jian morto, os Ursos Negros atacam os Jubas Cinzentas, expulsando-os de Pailune em uma batalha intensa e mortal. O próprio Kliff acaba sendo assassinado por Myurdin, líder dos Ursos Negros. E aí, o jogo começa.

Pois é, sem entender como e por que ainda está vivo, Kliff se vê envolvido em uma conspiração mágica e sobrenatural que ameaça toda Pywell, e que tem a ver com o Abismo, uma dimensão de outro plano que se apresenta nos céus de Pywell. Agora, além de reunir novamente os Jubas Cinzentas e se vingar dos Ursos Negros para retomar sua terra, Kliff se vê também envolvido em uma trama misteriosa à qual ele foi trazido à vida para ajudar a resolver – por algum motivo. Ao longo da história, personagens misteriosos como Alustin e Corvo Branco vão dando mais dicas do que realmente está acontecendo.
Mas claro, é difícil se concentrar na história quando há tanto para se fazer em Pywel. A Pearl Abyss não economizou na construção do mundo aberto de Crimson Desert, oferecendo aqui um playground que é facilmente um dos melhores mundos já criados em um videogame. E é exatamente aqui que o jogo brilha. Muito.
Existe muito a se descobrir no mundo de Crimson Desert, de segredos a poderosos inimigos opcionais. Curiosamente, aliás, alguns dos chefes mais interessantes do jogo se escondem em missões secundárias, especialmente as missões de facção, que envolvem as diferente famílias influentes que direcionam a política em Pywell. Aliás, embora os inimigos normais do jogo sejam bem fáceis de se derrotar (mesmo quando vem em bando), Crimson Desert consegue oferecer algumas batalhas memoráveis contra chefes, que na maioria das vezes possuem até mais de uma fase.
E quando digo que o mundo tem muito a oferecer, é muito mesmo. É simplesmente impossível cumprir alguma missão indo de um ponto A a um ponto B sem perder pelo menos umas 3 horas de jogatina pelo caminho, tamanha a quantidade de coisas que podem aparecer no seu caminho. E como o jogo não faz questão de explicar muito coisa, isso só aumenta a aura de mistério daquele mundo. Estava vagando por aí e encontrou uma relíquia futurista envolvendo um puzzle que você não faz a menor ideia de sequer começar a resolver? Bem vindo a Crimson Desert.

Essa filosofia da Pearl Abyss de não explicar muita coisa, claro, é uma faca de dois gumes. Embora intensifique o seu senso de descoberta, acaba por ser um dificultador em momentos onde… bem, não precisava dificultar. Como se não bastasse a escolha de game design de executar ações que poderiam ser realizadas com apenas um botão, usando toda uma sequência que faz um verdadeiro passeio por todos os botões do controle, ainda há um excesso de mecânicas. Claro, muitas delas você nem vai usar, mas o problema disso é que ali no meio terão algumas que vão te cobrar bem no meio de um missão principal – e que você já vai ter esquecido porque aprendeu isso 18 horas atrás. No entanto, é positivo o fato de que o game apresenta uma gama extremamente variada de “formas de se jogar”, especialmente no que se refere ao combate.
O fato é que, quem decidir por jogar Crimson Desert, precisa estar bem ciente de onde está entrando. Nas primeiras horas, confesso que achei que iria me decepcionar, mas logo o jogo começou a se revelar e me entregar aquilo que minhas expectativas queriam desde o começo.
A questão é que, no fim, Crimson Desert exige uma moeda de troca que nem todo jogador moderno está disposto a pagar: paciência. Seus tropeços de ritmo nas primeiras dezenas de horas e a teimosia em esconder suas melhores mecânicas são falhas reais que vão, com toda razão, afastar muita gente. Porém, para aqueles que aceitam as regras singulares desse universo e se permitem imergir sem pressa, a recompensa é gigantesca: uma jornada épica, densa e cheia de personalidade. Ele tem suas arestas, sim, mas a grandiosidade da experiência supera de longe os seus defeitos. Definitivamente não é um jogo para todo mundo. Mas, com toda certeza, foi um jogo para mim.
Leia mais sobre Crimson Desert:
- Siga o O Vício no Google e não perca nada sobre Cultura Pop!
- Crimson Desert | Como conseguir a armadura da capa do jogo e dos trailers
- Jogadores encontram artes geradas por IA em Crimson Desert
- Crimson Desert vende 2 milhões de cópias em 24 horas
- Desenvolvedora: Peal Abyss
- Publisher: Peal Abyss
- Plataformas: PlayStation 5, XBox Series X|S e PC
- Review feito no: PlayStation 5






Comentários