
“Daytripper” é uma história que enfatiza a importância de pequenos eventos na vida e como estes eventos podem impactar a vida de uma pessoa de forma bombástica. Os gêmeos roteiristas/artistas Fábio Moon and Gabriel Bá (além do colorista Dave Stewart) criaram uma obra que supera expectativas e utiliza grandes técnicas de narrativa para expressar a jornada do personagem Brás de Oliva Domingos, um escritor de obituários, que se depara com questões universais que todo humano deve enfrentar na vida. Existem muitos caminhos nas nossas vidas, isto é algo que “Daytripper” quer deixar bem claro. Moon e Bá levam o leitor a uma jornada que ficará marcada para sempre em sua mente. Brás é um homem comum, o que o faz a obra se tornar ainda mais poderosa. Família, relacionamentos, amizades, vida e a inevitável morte: todas essas experiências são bem exploradas através da roteiro inspirado e da bela arte.
Moon e Bá have construíram uma história que pode confundir alguns leitores. Esta não é uma leitura convencional, mas algo que pode mexer com o leitor. Emoções profundas são desnudadas de forma desenfreada através das palavras e da arte, algo que domina o leitor e o faz querer parar para descansar um pouco. Os autores querem despertar estes sentimentos puros com a obra, algo que eles conseguem, muito mais do que imaginam. Interessado em atravessar as páginas para descobrir o que acontece com Brás, o leitor viaja através da dor, do amor, luxúria e, simplesmente, a vida. Ao observar as expressões faciais dos personagens, linguagem corporal e experiências, a vida mostra seu vigor em cada página. Um dos personagens compara a vida a um livro e diz: “Nenhum livro é completo sem seu fim”. O fim da obra de Moon e Bá mostra que isto é verdade.
Em “Daytripper”, os olhos servem como uma janela para a psiquê humana. Cada emoção é sentida através do uso evocativo da expressão do olhar. Inocência, medo, amor, ódio… escolha uma emoção e você a encontrará bem detalhada na vida de algum dos personagens do livro. A obra foca na vida de Ana e Miguel (esposa e filho de Brás), detalhando seu cotidiano enquanto Brás está fora da cidade. O rosto de Ana, enquanto ouve Miguel, retrata bem o amor materno. Ela segura seu café e olha atentamente para Miguel, que gesticula com os olhos e boca bem abertos. Este é um dos diversos exemplos de que não é preciso ter palavras para explicar tudo na página, a emoção consegue transbordar através da arte. Já no trabalho, Ana está falando com Brás pelo telefone e, em três painéis, o leitor vê como um trabalho de arte para expressar um rosto pode ser complexo. No primeiro primeiro painel, ela tem um olhar envergonhado enquanto Brás confessa seu amor. No segundo painél é onde a mágica toma conta. Ela está em silêncio, ouvindo Brás e sua mão revela seu rosto. O olhos e a expressão facial traduzem tudo naquele momento. Bá e Moon provam que eles conseguem transformar momentos simples em algo mágico e monumental. É uma jornada cativante.
O amor de Miguel por seu pai brilha através de seus olhos inocentes. Enquanto valentões tentam provocar o jovem, Miguel segura seu pai como se não houvesse amanhã, sem permitir que as ofensas tomem sua mente. A família é importante para ele e ele encontra tudo que precisa em seu pai e sua mãe. Este é um ponto importante na narrativa de “Daytripper”, onde as relações familiares são testadas, fortalecidas, tensionadas e também perdidas, graças ao chamado inevitável da morte. A angustia de Ana, apresentada no fim do capítulo, não é estereotipada ou exagerada. Seu rosto se torna real, pois Bá e Moon conseguem dar vida a esses personagens, o leitor se identificará com cada página.
Dave Stewart, extraordinário colorista, mostra toda sua destreza neste livro. Sua contribuição é essencial para que Daytripper tenha um impacto tão grande sobre o leitor. Quando Miguel corre desesperado até sua mãe, as cores transformam a cena. Roxo escuro e azul mostram o medo antes de Miguel entrar na sala. Quando ele entra, Miguel é iluminado por um brilho azul e sua sombra enfatiza a força e a resistência de um garoto tão precoce. A sala se torna mais brilhante e os tons mais claros de azul e roxo transformam o desespero em vida. As cores de Stweart conseguem enriquecer a jornada e deixar o trabalho de Moon e Bá ainda mais expressivo.
Um dos temas centrais de “Daytripper” é que devemos reconhecer os inúmeros caminhos que a vida pode tomar antes de seu fim inevitável. Não importa quantos desvios existam pela frente, a vida é construída através da jornada. De acordo com os criadores da obra, para viver é preciso experimentar a vida. Cada evento e relacionamento está conectado e interligado ao longo da narrativa, tornando este conto uma entidade viva. As possibilidades são infinitas e o que as faz parecer reais ou irreais, não importa. Só importam os sentimentos e a emoção. Fábio Moon e Gabrial Bá levam os leitores a uma jornada que pode não ser compreendida de primeira. Mas, através do árduo trabalho em expressar no papel o que pode ser sentido, eles conseguem alcançar o sucesso em criar este trabalho que Brás, de forma tão acertada, chama de “pequeno milagre”. O título pode ser adquirido, clicando aqui.






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