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Desde sua estreia na programação da TV Globinho, Digimon cativou o público ao oferecer uma visão mais emocional, sombria e madura sobre o relacionamento entre crianças e monstros digitais. Ao som da voz de Angélica na abertura, vimos que Digimon se tratava muito mais do que simples criaturas colecionáveis, pois suas histórias também traziam elementos como traumas, esperanças e o crescimento interior dos digiescolhidos. No entanto, apesar do sucesso consolidado no anime, a franquia nos videogames levou décadas para encontrar seu verdadeiro tom, passando por diversas transformações e experimentos, mas que, finalmente, pode ter encontrado seu caminho definitivo.

Com Digimon Story: Time Stranger, a Bandai Namco entrega o que pode ser considerado o ápice da série nos consoles. Este é um jogo que respeita sua base de fãs, revisita suas raízes com carinho e oferece uma experiência moderna e profunda de RPG, sem abrir mão da essência emocional que define Digimon. A espera de anos foi longa, mas o resultado é uma obra que honra o legado da franquia e, mais importante, projeta um futuro promissor.

A narrativa de Time Stranger aposta em uma estrutura ambiciosa de viagem temporal, dividida entre dois períodos: o presente, devastado por um colapso digital, e o passado, onde o protagonista (um agente disfarçado) tenta entender e reverter os eventos que levaram ao desastre. O jogo começa de forma relativamente contida, mas não demora a mergulhar em temas complexos como perda, sacrifício e a fragilidade das relações humanas, sempre com o toque simbólico que só os Digimon conseguem carregar.

Reprodução/Bandai Namco

A escolha de colocar o jogador como parte de uma agência que monitora o equilíbrio entre o mundo real e o Digital é certeira, pois adiciona camadas de tensão e segredo ao desenvolvimento da trama. Ainda que a história demore cerca de 20 horas para realmente engrenar, quando o faz, entrega momentos genuinamente emocionantes, que provam que Time Stranger entende o que sempre diferenciou Digimon de outras franquias: a capacidade de nos fazer sentir diferentes e profundas emoções com seus arcos mais melancólicos.

Além disso, a presença de elementos nostálgicos é tratada com sensibilidade. Referências ao anime clássico, como a aparição de Kuwagamon como primeiro chefe, surgem de forma natural e sem depender do fanservice por fanservice. Para os fãs de longa data, esses detalhes são um presente. Para os novatos, são simplesmente parte de um universo coeso.

Se há um aspecto onde Time Stranger brilha intensamente é no seu intrincado e satisfatório sistema de Digivolução. Com mais de 450 Digimon disponíveis, o jogo propõe um ecossistema robusto onde cada evolução depende de múltiplos fatores: estatísticas, traços de personalidade, afinidade, habilidades desbloqueadas e até humor do Digimon.

Demo gratuita de Digimon Story Time Stranger
Reprodução/Bandai Namco

A liberdade concedida ao jogador é imensa. Você pode simplesmente evoluir um Digimon pela curiosidade do que virá, ou pode planejar meticulosamente uma árvore evolutiva que combine traços específicos e builds para enfrentar chefes. O sistema do Digifarm, onde Digimon treinam de forma passiva, complementa essa profundidade, recompensando jogadores pacientes e estrategistas.

Mais do que um recurso mecânico, a Digivolução em Time Stranger é um reflexo da relação entre treinador e Digimon. Alimentar, conversar e interagir com suas criaturas afeta diretamente sua personalidade e, portanto, seu potencial. Esse laço emocional, aliado à complexidade técnica, transforma cada evolução em uma conquista pessoal. Quando seu Digimon alcança uma forma poderosa após dezenas de horas de dedicação, a sensação é de orgulho legítimo, algo que só dá para entender durante o game.

O combate de Time Stranger é baseado em turnos e segue o tradicional triângulo de atributos (Vaccine, Data, Virus), aliado a resistências elementares e ao uso inteligente dos Cross Arts, habilidades especiais ligadas ao Agente. A novidade aqui é que trocar Digimon durante a luta não consome turno, o que convida o jogador a adaptar sua estratégia em tempo real.

Para os combates comuns, o jogo oferece autobattle e até velocidade 5x, uma escolha muito bem-vinda que torna o “grind” opcional e o gerenciamento de equipes mais fluido. Já os chefes são o oposto: brutais, exigentes e muitas vezes impiedosos. É aqui que o conhecimento de builds, fraquezas e buffs faz diferença, com cada vitória oferecendo não apenas XP, mas uma real sensação de superação.

Por outro lado, a exploração é onde o jogo tropeça um pouco. As dungeons são geralmente compactas, com designs repetitivos e poucos momentos marcantes. A repetição de mapas, mesmo que justificada pela viagem no tempo, compromete a progressão e entrega ao jogador uma incômoda sensação de déjà vu. Falta ousadia nos cenários, que acabam servindo mais como corredores funcionais do que como espaços vivos.

Visualmente, Time Stranger adota uma estética anime segura, sem grandes inovações. As animações são competentes, e os modelos dos Digimon são detalhados, mas os ambientes carecem de identidade. O que salva a experiência nesse quesito é a trilha sonora: temas regionais marcantes, efeitos sonoros únicos por ação e uma ambientação musical que reforça o tom emocional de cada momento da campanha. A dublagem japonesa é de alta qualidade, dando personalidade aos Digimon e coadjuvantes. A ausência de voz para o protagonista é uma escolha debatível, mas que casa com a ideia de projeção do jogador.

Imagem promocional de Digimon Story: Time Stranger
Reprodução/Bandai Namco

Digimon Story: Time Stranger é um marco para a franquia. Ele não apenas entrega a experiência mais completa e emocional já vista nos jogos da série, como também mostra que Digimon tem espaço de destaque no cenário dos JRPGs modernos. Sua complexidade não é gratuita, mas sim uma recompensa ao jogador que mergulha de cabeça em seu universo.

Mesmo com problemas pontuais, como dungeons repetitivas e ritmo lento no início, o que se destaca é o amor evidente colocado em cada mecânica, diálogo e decisão de design. É um título feito por fãs, para fãs, mas acessível o suficiente para conquistar uma nova geração. Se você ouviu o chamado do digimundo anos atrás, agora é a hora de atender novamente. Afinal, já dizia a música: Digimon são campeões.

Este review foi feito com uma chave antecipada fornecida pela publisher.

Digimon Story: Time Stranger
  • Desenvolvedora: Media.Vision
  • Publisher: Bandai Namco
  • Plataformas: PS5, Xbox, PC
  • Review feito no: PC
  • Também testado no: Steam Deck
Positivo
  • Sistema de Digivolução profundo, complexo e recompensador
  • Construção emocional entre jogador e Digimon que impacta a jogabilidade
  • Boss fights desafiadoras e marcantes
  • Liberdade total na construção de equipe e táticas de combate
  • Trilha sonora envolvente e fanservice respeitoso
Negativo
  • Ritmo lento nas primeiras 20 horas de jogo
  • Dungeons repetitivas e visualmente pouco inspiradas
Nota 9
Sou o Fundador do site Ovicio, Overplay e Muramasa. Fui idealizador e Game Designer do jogo Vencedor da DemoNight no BIG Festival 2014, o Jotunheim Project. Escolhido como Jurado do Anime Awards em 2024 e 2025. Amo games, sou fã de God of War, Dragon Quest, Fire Emblem, The Legend of Zelda e Pokémon. Coleciono livros, quadrinhos e guitarras.


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