Uma das últimas edições da coleção Marvel que vem sendo publicada pela Salvat trouxe um verdadeiro clássico em toda a concepção da palavra. Diretamente dos primórdios da Marvel, temos Doutor Estranho: Uma Terra Sem Nome, Um Tempo Sem Fim, arco de histórias que conta com verdadeiras lendas nos roteiros como Stan Lee, Roy Thomas e Dennis O’Neil, além do traço preciso de Steve Ditko, que com sua arte psicodélica ditou o tom do Doutor Estranho para sempre. Conhecida entre os fãs como “a Saga da Eternidade“, a HQ reúne as edições de 130 a 146 da revista Strange Tales, que trazia as histórias do bom doutor na década de 60, antes do personagem ganhar o seu título próprio.
Acho que nesse momento, onde adaptações de quadrinhos estão pipocando no cinema e na TV, é importante citar que muito do que é encontrado na HQ, é provavelmente o que veremos no filme do Doutor Estranho, que estrela Benedict Cumberbatch no papel principal e tem estreia marcada para novembro desse ano. Ainda que a trama não traga a origem do personagem, e sim uma história onde ele já está estipulado como Mago, todo seu background é utilizado, desde a relação mestre-discípulo com o Ancião, a rivalidade com o Barão Mordo, e os confrontos decisivos contra seu grande nêmesis, o demoníaco Dormammu. Além é claro de situações que o trailer já nos apresenta, como as comumente utilizadas projeções astrais, e as diferentes dimensões que os personagens atravessam.
O interessante aqui, é que diferente de outros quadrinhos da mesma época, Doutor Estranho possui uma narrativa mais fluída e menos datada, trazendo uma leitura prazerosa mesmo para os padrões de hoje. O texto excessivamente verborrágico, simplório e por vezes infantil ainda se faz presente, já que é característica dos quadrinhos da época, mas seu tom consegue se um pouco mais sério e trazer uma preocupação maior do leitor para com os personagens e a trama. Muito disso deve-se ao tema, que foge dos clássicos super-heróis para enveredar pelo obscuro mundo da magia, tão bem ilustrado pelas formas abstratas, surreais e psicodélicas que Steve Ditko utilizou-se para criar a concepção de todo o universo do personagem. Lendo a HQ e percebendo essa clara diferença de tom entre os próprios quadrinhos da época, entende-de um pouco melhor quando os cineastas insistem na tecla de que o filme trará uma abordagem completamente diferente do que foi realizado até agora pela Marvel Studios.

Na trama da HQ, acompanhamos Stephen Strange e seu mestre, o Ancião, sendo atacados por um fortificado Barão Mordo, que dessa vez recebe poderes extras advindos direto de Dormammu. O vilão, que não pode atacar Strange diretamente devido a um juramento de dívida feito pouco tempo atrás, utiliza Mordo como seu peão para que possa finalmente se livrar do Mago. O que se vê durante a primeira metade do volume é uma verdadeira caçada a Strange, que coloca seu mestre em segurança enquanto foge pelo mundo, sempre escapando de Mordo ao mesmo tempo que procura informações sobre como seu rival conseguiu aumentar tanto seus poderes. Tal busca o leva até a própria Eternidade, que é concebida no Universo Marvel como uma entidade onisciente e extremamente poderosa, e a única com poder suficiente para deter Dormammu. Apesar do arco como um todo ser conhecido como a Saga da Eternidade, e a entidade realmente ter um papel importante – ainda que anticlimático – na conclusão da história, sua participação serve apenas como uma forma de demonstrar o quão ilimitado é o poder entre as dimensões, além de introduzir o conceito das entidades abstratas, algo que seria muito mais aprofundado posteriormente.
Provavelmente, para alguns (principalmente leitores novatos) Doutor Estranho: Uma Terra Sem Nome, Um Tempo Sem Fim pode acabar sendo considerado chato ou datado demais, ainda mais se comparado com a narrativa dos quadrinhos na atualidade. No entanto, considerando a época em que foi escrito e os temas tratados, e interpretando-o como aquele que é considerado o maior clássico do personagem, a leitura torna-se extremamente prazerosa. Em especial para aqueles que querem saber mais a respeito de Stephen Strange antes da estreia de seu filme, não existe quadrinho mais indicado do que esse. É o cerne do personagem, são todos os conceitos que o tornaram o que é. E se visto dessa forma, torna-se uma obra atemporal.






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