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Meu gênero preferido de games sempre foi os adventures, popularmente conhecidos nos anos 90 como point and clickAcho que eles permitem um foco maior na história, e diferente dos RPGs, uma coisa mais pessoal e isso sempre me deixou muito investido neles.

Na época eu pesquisava bastante e um dos jogos que eu vi falar várias vezes era The Longest Journey, de 1999. Apesar de não ser extremamente famoso, ele foi criticamente aclamando e criou uma fanbase dedicada. Ele teve uma continuação em 2006, Dreamfall: The Longest JourneyEu nunca tive a oportunidade de jogar esses dois jogos, mas mesmo assim, caiu pra mim fazer a análise do capítulo final da trilogia, Dreamfall Chapters, lançado em episódios e fundado através do Kickstarter.

E realmente, é uma pena que eu nunca tenha jogado os outros, porque é muito claro que o ponto mais forte desse jogo é a sua história. É uma coisa realmente impressionante:

A narrativa envolve dois universos paralelos, Arcadia, uma terra de fantasia medieval, e Stark, uma terra de ficção científica futurista. Uma de nossas protagonistas April Ryan começa o jogo em coma, após os eventos dos últimos jogos e sua consciência presa no mundo dos sonhos, um tipo de limbo entre os dois mundos. Nosso outro protagonista, Kian, está sendo acusado de traição em Arcadia e está prestes a ser executado. Esse é o básico, também temos mais uma montanha de personagens, intrigas políticas, conceitos espirituais e filosóficos e muito desenrolar daí. É uma história muito complexa e com certeza construida com muita paixão.

Eu me senti meio que caindo de cabeça no capítulo final de uma saga sem o preparo necessário. Eles até te dão uma retrospectiva no começo do jogo e você sempre pode acessar a biografia dos personagens pra te ajudar, mas ainda assim. Esse é um jogo razoavelmente longo, umas 20 horas pra zerar todos os capítulos e eu curti toda a experiência, mas eu sempre fiquei com aquela aflição complecionista de que eu queria ter jogado a trilogia toda desde o início.

Os gráficos são bons para o padrão de jogos episódicos nessa linha. Não chega nem perto dos jogos AAA das grandes desenvolvedoras, mas eles fazem o serviço, especialmente levando em conta que esse é um jogo fundado independentemente por Kickstarter, e conseguem ser bem bonitos nas cenas mais mágicas e transcendentais.

Os problemas estão na mecânica. A parte toda de pegar itens pro seu inventário e ir misturando com outros no seu pra criar um outro item e aí usar isso pra resolver algum puzzle e seguir com a história já é uma coisa clássica dos adventuresO problema é que ele você tem um controle do personagem em terceira pessoa em um formato que funciona bem para jogos de ação, mas pra jogos que você tem que caçar itens, é meio inapropriado. Seria muito melhor se ele seguisse uma composição mais clássica do gênero, usando um cursor para selecionar o que você quiser.

Eu também percebo um certo caos na distribuição dos diálogos. Os personagens monologam demais sobre tudo, o que não seria um problema se esses diálogos não demorassem e tanto e não se atropelassem uns com os outros, criando uma tremenda cacofonia no jogo. Por falar nos diálogos, se você tiver um bom entendimento de inglês, você talvez note eles sendo um pouco não-naturais às vezes, mas isso é compreensível se você lembrar que ele foi escrito por noruegueses que não tem inglês como primeira língua.

Outro problema que eu tenho, e é bem bobo, mas me atrapalhou muito, é que todos os textos e legendas vem numa fonte muito pequena. Isso não deve ser muito um problema pra quem joga num PC, mas eu joguei no PS4, então, naturalmente, eu ficava há uns dois metros da TV, a minha visão é ótima e mesmo assim eu tinha que ficar me levantando pra conseguir ler os muitos textos que os jogo te passa. Isso é uma coisa que poderia ser resolvido de forma muito muito fácil com uma opção de ajustar o tamanho da fonte e ia ter ajudado bastante

Ele também incorpora sistemas de decisão e caminhos diferentes como se popularizou em outros jogos episódicos, como Life is Strange e as séries da Telltale.

Eu não sou muito fã disso aqui, especialmente porque a maneira que esse sistema de moralidade funciona é bem confuso e eu demorei alguns capítulos pra realmente entender como funciona e, assim como a maioria desses jogos, essas escolhas são puramente cosméticas no fundo elas não afetam realmente o grande esquema da trama. Parece um elemento que só existe no jogo porque ficou popular  nessa retomada de adventures modernos.

Todas essas coisas dão uma certa impressão de falta de acabamento na mecânica e funcionalidades, mas essas coisas são desculpáveis, não só por ter sido um projeto independente, mas porque esse é o tipo de jogo que você aprecia muito mais pela história e experiência do que pelo mero jogar, como uma ferramenta de entretenimento.

Então se isso faz o seu perfil, eu certamente recomendo esse jogo (e, só para constar, esse é exatamente o meu perfil).

Dito isso, eu altamente recomendo você jogar os outros jogos antes de partir para esse. Todos eles estão disponíveis na Steam para Windows, então não tem dificuldade de acesso. Por mim, isso é o que eu vou fazer, vou voltar e jogar toda a saga, porque eu posso não recomendar Dreamfall Chapters direto para iniciantes, mas pode acreditar que me deixou investido o suficiente pra mergulhar na franquia de forma apropriada.



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