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Quando Elden Ring foi revelado na E3 de 2019, toda a indústria de games parou para prestar atenção. Não apenas porque era a From Software – criadora do que ficou conhecido como o subgênero soulslike – se aventurando pela primeira vez em jogo de mundo aberto, mas porque o projeto era uma parceria entre Hidetaka Miyazaki, o presidente da From, com ninguém menos que George R. R. Martin, autor de “As Crônicas de Gelo e Fogo”, simplesmente a série literária que inspirou o sucesso Game of Thrones, da HBO.

Corta para 2022, e após um longo silêncio por parte da desenvolvedora japonesa (que só trouxe novidades sobre o game no ano passado) e um adiamento, Elden Ring finalmente está chegando. Nós tivemos a oportunidade de jogar o game em antecipado e hoje vamos falar sobre o que espera você nas Terras Intermédias – até mesmo comparando com o que foi visto na beta do jogo, que também chegamos a experimentar no ano passado.

A História

A From Software tem um estilo todo peculiar de contar a história em seus jogos. Geralmente, embora exista uma trama central estipulada, recebemos apenas fragmentos da história daquele mundo, lendo descrições de itens e conversando com NPC’s. É uma ideia que estimula a imaginação do jogador, que precisa preencher as lacunas à sua própria maneira, quase que criando sua própria lenda. Elden Ring, no entanto, vem com o peso do nome de George R. R. Martin, um dos maiores escritores de fantasia da atualidade. Sendo assim, dessa vez temos uma história muito mais clara e bem delineada, embora sem perder o charme e o clima de mistério da From.

Na trama, o Elden Ring, ou “Anel Prístino” na tradução, foi destruído. Os semideuses filhos da Rainha Marika, a governante das Terras Intermédias, reivindicaram os fragmentos do Elden Ring conhecidos como Grandes Runas, e essa incrível força recém-descoberta desencadeou uma guerra: a Ruptura. O personagem do jogador é um dos Maculados, pessoas que foram exiladas das Terras Intermédias, e sua missão é recuperar os fragmentos do Elden Ring e se tornar o Elden Lord.

As Terras Intermédias

Obviamente, o grande diferencial de Elden Ring em relação aos outros jogos da From Software, especialmente quando estamos falando de Dark Souls e Bloodborne, é o mundo aberto. Os jogos da desenvolvedora sempre foram muito elogiados por seu caprichado level design: locais que se conectavam, atalhos que evitavam de passar por todo um caminho sofrível novamente, dungeons recompensadoras e mapas extremamente criativos. Mas claro, isso exigia cenários fechados e uma certa linearidade. Portanto, a primeira dúvida de qualquer jogador de souls ou no mínimo um conhecedor do trabalho da From foi: “Ok, como eles vão transportar isso para a ideia de um mundo aberto?”

E a resposta foi simplesmente um dos melhores mapas de mundo aberto dos últimos anos, que sim, bebe da influência do que de melhor veio sendo realizado nesse quesito nos últimos anos, como o premiadíssimo Zelda: Breath of the Wild. E eu sei que nesse ponto já virou praticamente um meme comparar Elden Ring com o jogo da Nintendo, mas acontece que essa comparação se faz meio que impossível de não ser feita.

Isso porque, quando é apresentado às Terras Intermédias, o mundo de Elden Ring, o jogador tem total liberdade do que fazer. Viu uma torre ao longe? Vá até lá ver o que tem. E com certeza será algo que no mínimo vai fazer a viagem valer a pena. Estava cavalgando despretensiosamente por uma praia e encontrou uma caverna? Talvez os segredos que ela esconde te façam gastar algumas horas ali dentro. Porém, o grande diferencial de Elden Ring em relação ao título da Nintendo está em apresentar um mundo que, embora estimule a exploração, é também perigoso e extremamente hostil.

Mas calma, isso não quer dizer que você estará jogado no mapa simplesmente tentando descobrir o que fazer. Assim que é apresentado às Terras Intermédias, logo após um breve tutorial, um NPC explica de forma básica como o jogo vai funcionar.

Basicamente, o mapa é recheado de “Locais de Graça”, que são o equivalente de Elden Ring às fogueiras de Dark Souls – locais onde você descansa e sobe de nível, dentre outras coisas. Acontece que alguns desses locais de graça possuem um rastro de luz que guiará o jogador imediatamente para outro local de graça, rastro esse que inclusive também aparece no mapa – seguindo esse direcionamento, o jogador estará meio que sendo guiado para o que podemos chamar de “a história principal”. Ou seja, a exploração é livre, mas você sempre sabe para onde tem que seguir quando quiser avançar na trama. A propósito, um ponto muito positivo é que é possível se teleportar a qualquer momento de um local de graça para outro, apenas acessando o mapa.

E por falar em exploração, Elden Ring é o primeiro jogo da From Software a contar com um mapa, algo que obviamente se faz necessário quando estamos falando de um game de mundo aberto. Cada área do mapa é revelada conforme você encontra os “fragmentos de mapa” daquele local específico, que ficam sempre em grandes placas de pedra de fácil reconhecimento. O mapa ajuda muito na exploração, pois embora não marque absolutamente nada das coisas que você pode encontrar, como tesouros e dungeons, logo se torna extremamente útil quando você entende como ler. É simples: viu um desenho suspeito no mapa que parece uma cabana? Talvez seja interessante você ir até lá. Definindo alguns locais de interesse para investigar, a chance de você ainda acabar encontrando segredos pelo caminho é maior.

Com um mapa tão grande e com tantas possibilidades de exploração, é claro que não dá para ficar andando a pé por aí. Então Elden Ring conta com o Torrente, uma montaria espectral que pode ser invocada em qualquer ponto do mapa (desde que você não esteja em uma dungeon ou outro lugar fechado). Torrente pode ser morto se receber ataques, e precisa ser ressuscitado ao custo de um dos Frascos usados para recuperar os pontos de vida do jogador – dos quais falaremos mais à frente.

Mais acessível?

Em uma das entrevistas mais recentes de Hidetaka Miyazaki, o diretor disse que a própria natureza do mundo aberto fará com que “mais pessoas cheguem ao final do jogo”. Faz sentido, afinal, diferente dos outros jogos do estúdio, se você estiver travado em um chefe, basta sair pelo mundo explorando e se fortalecendo, para voltar mais tarde.

Porém, creio que isso funcione mais para aqueles já “batizados” nos jogos da From Software. Sendo, nas palavras do próprio Miyazaki, “a evolução natural de Dark Souls”, Elden Ring entende que o jogador tem conhecimento prévio de como tudo funciona, do combate ao gerenciamento de itens e inventário. Para um jogador novato, aquele tentando usar Elden Ring como porta de entrada, não há exploração no mapa e aumento de level que o faça enfrentar chefes como Margit, o Caído e Godrick, o Enxertado sem morrer uma enorme quantidade de vezes até finalmente entender o que fazer – isso se tiver perseverança e força de vontade para tanto.

Claro, existem novos elementos que podem “facilitar” alguns confrontos, como as adições das Cinzas da Guerra e as Invocações Espectrais. A primeira consiste de habilidades especiais encontradas durante a jornada – seja derrotando poderosos inimigos ou encontrando locais secretos – que podem ser adicionadas à sua arma, causando golpes especiais ao custo de PM. Já as Invocações Especiais, que também custam PM, são espíritos de guerreiros ou de feras que o jogador pode invocar em determinadas batalhas para ajudá-lo. Mas claro, isso vai depender muito da sua estratégia e estilo de jogo. Ao enfrentar o Margit, por exemplo, as invocações mais atrapalharam do que ajudaram, e acabei optando por encará-lo da forma mais clássica possível.

E por falar em melhorar seu personagem por meio da exploração, isso pode ser feito de pelo menos três formas. A primeira e mais óbvia é matando inimigos e acumulando runas para aumentar os diferentes status de seu personagem, subindo de level. A segunda, também já conhecida dos jogadores do gênero, é encontrar materiais para melhorar sua arma no ferreiro mais próximo. E a terceira, que exige um aspecto mais específico de Elden Ring, tem a ver com os frascos para recuperação de PF e PM.

Assim como em Dark Souls 3, existem dois tipos de frascos, um para restaurar pontos de vida e um para restaurar pontos de magia. Eles são chamados no jogo, respectivamente, de Frascos de Lágrimas Carmesins e Frascos de Lágrimas Cerúleas. E também como DS 3, você pode remanejar quantos frascos de cada pretende carregar. E é aqui que vem um aspecto interessante: ao longo de toda a extensão das Terras Intermédias, você vai encontrar as Térvores, que são pequenas árvores que emanam a luz da graça. Aos pés dessas térvores você encontrará sementes douradas, que podem ser usadas para aumentar o número de frascos carregados, facilitando a gameplay. Obviamente, locais de level mais elevados no mapa terão poderosos guardiões, tornando essa sua busca por fortalecimento cada vez mais difícil.

O Jogo mais ambicioso da From Software

Desde o seu anúncio, Elden Ring vem sendo descrito como “o jogo mais ambicioso da From Software”. E ele realmente é. É como se tudo que o estúdio fez até hoje tivesse servido como aprendizado para Elden Ring. Facilmente, é um jogo que já nasce destinado a ficar marcado como um dos melhores da geração, e assim como já vimos acontecer outras vezes na indústria dos games, vai abrir caminho para toda uma nova leva de projetos seguindo a tendência. O que se faz muito importante, especialmente em um momento onde tanto jogadores quanto desenvolvedores já começam a questionar a concepção do “mundo aberto” nos jogos – um conceito trabalhado de forma preguiçosa nos últimos anos. 

Assim como, anos atrás, a desenvolvedora japonesa criou uma novo subgênero, com um estilo de batalhas que passou a ser copiado por basicamente todos os grandes jogos de ação e RPG, Elden Ring pode significar não apenas uma revolução dentro dos produtos da From, mas da indústria dos games em geral. A combinação do que há de melhor na chamada “fórmula souls”, com um mundo aberto imersivo, interessante e cheio de possibilidades e segredos, que estimula a exploração e parece sempre pronto a oferecer algo novo, tornam Elden Ring um forte candidato ao título de Jogo do Ano.

Na verdade, um dos aspectos mais interessantes a respeito de Elden Ring, é que em muitas das suas (inúmeras) citações ao longo dos últimos meses nas redes, pouco ou nada é dito sobre o nome de George R. R. Martin. O que é curioso, afinal seria de se esperar que o nome do criador de Game of Thrones atrairia toda uma fanbase. Mas não, o que se vê é uma avidez quase desesperada em conferir o que Hidetaka Miyazaki aprontou dessa vez. O que ele conseguiu fazer ao aplicar tudo de melhor que a From Software construiu em seus games, em um projeto envolvendo mundo aberto. E uma coisa eu posso garantir: ele fez história. De novo.

Nota 10