Comentários

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

No início deste ano, o produtor Tetsuya Nomura, um dos grande responsáveis pelo remake de Final Fantasy VII, declarou em entrevista ao Game Informer que, quando a Square Enix decidiu refazer o jogo para uma nova geração, ele sabia que não podia deixar que qualquer equipe dentro do estúdio assumisse o trabalho. 

Nomura, que não apenas foi responsável pelo design de personagens do jogo original de 1997, mas também participou ativamente da criação da história em seus conceitos iniciais, reuniu então veteranos da franquia – especialmente aqueles envolvidos no Final Fantasy VII original – e assumiu a produção do game.

Pois bem, essa preocupação claramente se refletiu no trabalho primoroso realizado em Final Fantasy VII Remake, lançado em 2020, e se faz presente de uma forma ainda mais clara em sua sequência, Final Fantasy VII Rebirth, que chega apenas 4 anos após seu antecessor, um tempo recorde em se tratando de desenvolvimento de games na geração atual. A Square gentilmente nos deu a oportunidade de experimentar o game em sua totalidade, e finalmente podemos falar nossas impressões.

A Jornada ao Desconhecido 

Reprodução/Square Enix

Para começar, é interessante pensar em como a Square trabalhou o marketing desse jogo. Quem jogou o Remake sabe o que acontece no final daquele game, e entende por que a frase que definiu toda propaganda de Final Fantasy VII Rebirth é “a jornada ao desconhecido continua”. Os desenvolvedores conseguiram criar expectativa e uma série de teorias na cabeça dos fãs, alimentando isso ao longo de todo o processo de divulgação, em um jogo que – supostamente – deveríamos saber tudo, afinal estamos falando de um remake, certo? A forma como a Square desenha a narrativa em FFVII Rebirth, é algo digno de nota nesse sentido. 

Para aqueles que jogaram o original, sim, é Final Fantasy VII de novo, levando a sua nostalgia a níveis estratosféricos na visitação de locais icônicos como Junon, Nibelheim e Cosmo Canion, todos refeitos com gráficos de última geração. Mas ao mesmo tempo, paira ali o tempo todo a ideia de que estamos diante de algo potencialmente novo. E de que um dos momentos definidores de Final Fantasy VII (talvez O momento mais importante) pode não acontecer. Nesse caso, para onde a história nos levaria? Essa sensação de “pode ou não pode ser igual” mantém o jogador conectado na narrativa de uma forma que seria inimaginável para um remake.

A narrativa, aliás, é possivelmente o aspecto mais importante do game. Final Fantasy VII é conhecido por contar com um dos mundos mais ricos de toda a série, os personagens mais filosoficamente complexos e uma trama intrincada que toca em temas como imperialismo, sustentabilidade, transtorno pós-traumático, perda e depressão. Os produtores então aproveitaram as possibilidades da tecnologia atual para trabalhar os sentimentos dos personagens de uma forma que era impossível com os bonecos poligonais e seus diálogos em balões de fala do original.

Reprodução/Square Enix

Mas claro, isso não quer dizer que aspectos de gameplay tenham sido deixados de lado, como aconteceu no medíocre Final Fantasy XVI, lançado no ano passado. Em FFVII Rebirth, o gameplay trabalha em prol da narrativa – e vice-versa – e temos um dos games da série mais gostosos de jogar até hoje. A batalha (uma amálgama interessantíssima entre ação e turnos que torna tudo bastante estratégico) se mantém a mesma do Remake, mas foi claramente polida e aprimorada. 

Além disso, algumas novidades foram adicionadas nesse quesito, como as Habilidades de Sinergia, que são basicamente combos em dupla, que tornam as batalhas ainda mais dinâmicas e oferecem várias interações entre diferentes personagens. A interação entre os personagens, aliás, é sentida a todo momento no game. Assim como no Remake, só podemos levar três personagens em nossa party, mas o interessante aqui é que os que ficam de fora permanecem participando da batalha de alguma forma, servindo como retaguarda e lançando ataques meramente figurativos, mas que fazem toda a diferença na imersão do jogador. Uma escolha por parte da Square que faz total sentido, afinal seus amigos o seguem o tempo inteiro pelo mundo aberto, mesmo que você só possa utilizar três deles em combate. E por falar em mundo aberto…

O Mundo Aberto

Final Fantasy VII Remake, por seguir apenas o primeiro terço do jogo original, era bastante linear. Já em Rebirth, desde o início sabíamos que o grande diferencial seria levar a aventura para o mundo aberto, explorando todos os locais icônicos do original e usando os adoráveis chocobos como montaria. Mas afinal, como funciona esse mundo aberto?

Bem, a verdade é que não temos um mundo exatamente aberto. Embora tenhamos sim o mapa-mundi do jogo original em sua (quase) totalidade, as regiões são divididas. Assim, temos um pedaço para a Pradaria, Junon, Corel, Gongaga e assim por diante. Ou seja, embora cada uma dessas regiões seja sim aberta e cada uma apresente uma extensa área de exploração, elas são divididas e funcionam isoladamente. Não é possível por exemplo ir de uma para a outra atravessando o mapa a pé – mesmo naquelas que fazem fronteiras territoriais. 

Reprodução/Square Enix

Da mesma forma, a progressão das regiões segue a narrativa, o que torna a exploração um tanto quanto linear, mas isso não é exatamente ruim. Dessa forma guiada, o jogo faz com que a exploração não se torne cansativa para o jogador, que sente que está conhecendo tudo que importa de cada região, sem precisar ficar perdido. Mas quem gosta dessa sensação de “se perder” – bastante popular nos últimos anos por jogos como Zelda: Breath of the Wild e Elden Ring – é importante deixar claro aqui que, sim, Final Fantasy VII Rebirth segue uma fórmula de mundo aberto um pouco mais… padrão.

No entanto, mesmo que se utilize de alguns elementos considerados “batidos” dentro do gênero, o game se destaca na forma como progride com a exploração. A título de comparação, acho que o mais próximo aqui seria Death Stranding, de Hideo Kojima, com regiões montanhosas e bastante exploração vertical, onde o jogador nunca se cansa, pois sempre vai recebendo novos elementos que modificam totalmente a forma como se movimenta pelo mapa. 

Embora conte com as clássicas marcações de objetivos, cada mapa em FFVII Rebirth possui sua própria geografia e seus meios particulares de alcançar algumas regiões, o que torna tudo bem mais desafiador. Ok, você está vendo ali a marcação de onde precisa ir. Mas como chegar lá? Felizmente, cada região conta com um level design muito criativo, o que acaba tornando a exploração recompensadora.

Progressão (e repetição)

Essa estrutura de progressão – tanto em narrativa quanto em gameplay – embora pareça algo simples, é o que define o equilíbrio perfeito em que Final Fantasy VII Rebirth se encontra e que o faz funcionar enquanto videogame. Assim, a transição de um jogo linear para um de mundo aberto é feita sem estranhamento, já que ele é construído para possuir um senso de direção muito específico, ao mesmo tempo em que oferece um grau limitado de liberdade. O pacing é formulado de uma maneira que não cansa, e a constante necessidade dos heróis de seguir em frente conduz o jogador entre missões principais e secundárias.

Demo de Final Fantasy
Reprodução/Square Enix

Ao longo dos últimos meses, o diretor Naoki Hamaguchi não escondeu suas inspirações ocidentais para Final Fantasy VII Rebirth, citando especificamente The Witcher 3: Wild Hunt, da polonesa CD Projekt Red. Isso se reflete em minigames como o divertidíssimo Queen’s Blood (inspirado livremente no Gwent), mas principalmente na forma como traz missões secundárias que oferecem (ou pelo menos tentam) um pouco mais de substância e de importância para o mundo e seus personagens. Não à toa, essas missões sempre são conectadas a um companheiro da party de alguma forma, o que ajuda a aumentar seus vínculos com Cloud.

No entanto, quando saímos das missões secundárias e vamos para os objetivos do mapa, a coisa fica um pouco mais indigesta. Como disse anteriormente, vale pela exploração e por se desafiar conhecendo locais difíceis do mapa, mas os objetivos são extremamente repetitivos – basicamente resumindo-se a enfrentar monstros, encontrar fontes anímicas, enfraquecer summons que poderão ser enfrentadas em um simulador e, é claro, liberar torres que vão te indicar no mapa onde estão cada uma dessas atividades. 

O problema, além da repetição, é que concluir alguns desses objetivos envolve participar (e vencer) minigames que não apenas são chatos e pouco inspirados, mas que também (por algum motivo) envolvem um nível de dificuldade insano. Veja, é um minigame, para resolver outro minigame, sem relevância para a história, mas que por algum motivo é mais difícil do que qualquer batalha de nível alto do jogo. Obviamente, estamos falando de objetivos completamente secundários e opcionais, então não é nada que desabone a experiência principal.

Desempenho x Gráficos

Demo do Final Fantasy
Reprodução/Square Enix

Embora Final Fantasy VII Rebirth ofereça um experiência polida e livre de bugs (sério, não lembro de ter visto nenhum), é importante citar que uma reclamação dos jogadores que experimentaram a demo permanece no jogo final. Assim como a maioria dos jogos de nova geração, aqui temos duas opções para jogar: o modo gráfico, que prioriza a qualidade da imagem em detrimento da taxa de quadros (30fps), e o modo desempenho, que sacrifica um pouco da qualidade visual para manter uma taxa de 60fps – o que proporciona uma movimentação muito mais fluida. O problema é que, especialmente se a sua TV é 4K, se torna impraticável jogar desta última forma. A imagem fica estranhamente “embaçada”, o que acaba não compensando a escolha. 

Vale dizer que a Square lançou um patch de correção que supostamente resolveria o problema, mas testei após isso e a sensação de borrão permanece. A melhor escolha é realmente optar pelo modo gráfico a 30fps, e a boa notícia é que pelo menos esse modo está perfeitamente otimizado, com uma taxa de quadros constante.

Final Fantasy VII Rebirth é o que podemos chamar de “jogo do meio”. Afinal, estamos falando de uma história que será concluída em uma trilogia. Dentro do que se propõe, e fiel ao mote da “jornada ao desconhecido”, ele cumpre as expectativas e consegue agradar tanto jogadores veteranos quanto novatos, apresentando uma aventura que facilmente figurará entre os grandes lançamentos de 2024.

E aliás, é curioso pensar que, pela forma como foi idealizado, ele consegue se distanciar muito mais do conceito de um remake do qualquer outro jogo “refeito” nos últimos tempos. Obviamente, ainda é muito cedo para opinar sobre isso, mas considerando que existe um debate constante na indústria dos games a respeito se remakes merecem ou não concorrer (e vencer) como Jogo do Ano, ouso dizer que essa seria a escolha perfeita para quebrar esse paradigma.

Leia mais sobre Final Fantasy:

Final Fantasy VII Rebirth
  • Desenvolvedora: Square Enix
  • Publisher: Square Enix
  • Plataformas: PlayStation 5
  • Review feito no: PlayStation 5
Nota 9


Comentários