As histórias de Hellboy, personagem criado por Mike Mignola, são curiosas. Ao mesmo tempo que parecem sempre despretensiosas, isoladas e de fácil acesso para qualquer leitor desavisado que queira entrar nesse universo, ainda possuem um interessante senso de cronologia. Mignola aproveita algumas das histórias do personagem para trabalhar diversos aspectos fundamentais de sua mitologia, tais como seu propósito, suas origens, seu destino, e por que não… a própria história do surgimento da humanidade. E dentre essas histórias com maior peso cronológico e maior dose de informações, Paragens Exóticas claramente figura no topo.
A Mythos Editora traz o encadernado de volta às prateleiras brasileiras este mês, agora como parte da coleção Hellboy Edição Histórica, que reúne em ordem cronológica as aventuras do garoto do inferno. E portanto, esse sétimo volume é continuação direta do sexto, onde Hellboy havia se demitido do Bureau de Pesquisas e Defesa Paranormal, decidido a desfrutar de alguns momentos de paz que nunca teve enquanto trabalhava para a organização. Ali, ele já havia avisado sua colega de equipe, Kate Corrigan, que seu possível primeiro destino seria a África, que é exatamente o que vemos aqui.
O encadernado é dividido em duas histórias principais, cujo propósito é ver Hellboy sobrevivendo a locais inóspitos e misteriosos, as tais paragens exóticas que o título evoca. Na primeira das histórias, “O Terceiro Desejo”, Mignola volta a fazer aquilo que faz de melhor, isto é, adaptar contos clássicos do folclore e da mitologia mundial para seu personagem. E aqui temos uma forte inspiração em “A Pequena Sereia” de Hans Christian Andersen, em uma aventura onde Hellboy é capturado por três sereias a mando de uma entidade marinha chamada Bog Roosh.
Mignola usa a história para novamente trabalhar o inevitável destino de Hellboy, que é trazer o fim do mundo na forma do dragão do juízo final Ogdru Jahad, cuja chave da prisão interdimensional reside em sua mão direita da perdição. Assustada com o que isso pode acarretar, Bog Roosh decide que precisa se livrar de Hellboy pelo bem maior, pela salvação de todo o planeta.

Mas é na segunda história, “A Ilha”, que temos um enorme acréscimo ao cânone do personagem. Desde “A Mão Direita da Perdição“, historia publicada em “Hellboy Edição Histórica Vol. 4” já sabíamos do destino de Hellboy envolvendo sua misteriosa mão de pedra, e o papel do personagem na destruição – e posterior renascimento – do planeta Terra. No entanto, como o próprio Mignola explica no prefácio da história em questão, muitos pontos importantes ainda estavam nublados e envoltos por mistérios, sempre dentro de uma aura de teorias e conjecturas.
Então, o que Mignola faz aqui é um presente para os leitores de Hellboy que acompanhavam o personagem por anos a fio até aquele momento. E o autor realmente se empolga. Além de dar informações cruciais a respeito das origens da mão direita de Hellboy (em um conto extremamente interessante), ele ainda vai mais além e nos revela as origens do próprio planeta, da humanidade, e é claro… do Ogdru Jahad, a serpente destinada a destruir o mundo. Inclusive, é desta história que data a primeira vez em que o monstro teve seu visual revelado nos quadrinhos.
A história começa de forma simples, funcionando como uma sequência direta da anterior. Hellboy vai parar em uma misteriosa ilha onde precisa dar continuidade às provações que lhe foram impostas por um xamã africano na primeira parte. É quase uma jornada de auto-descoberta, que traz uma dinâmica muito interessante para um personagem que comumente está pouco se lixando para o seu destino, suas origens, ou aquilo que esperam que ele faça. O interessante é que essa jornada, um tanto quanto solitária, também é sentida pelo leitor, que até então estava acostumado a ver Hellboy sempre lidando com algum personagem de apoio. Seguir o vermelho envolto nesse soturno clima de solidão traz uma certa relação de maior intimidade com o personagem, tornando-o ainda mais identificável e interessante.

De uma forma geral, assim como disse no início do texto, um dos pontos mais importantes a respeito de “Paragens Exóticas” é o seu peso e sua importância dentro da cronologia e da mitologia do personagem. No entanto, o quadrinho é muito mais do que isso. Ele marca um ponto de ruptura decisivo nas histórias de Hellboy e em sua forma de encarar o mundo a seu redor, desvinculando-o do Bureau de Pesquisas e Defesa Paranormal e tornando-o um personagem mais contemplativo. O que antes trazia um tom de histórias de detetives dentro de folclores bizarros e batalhas contra cientistas nazistas, torna-se algo maior, mais filosófico e mais mágico, que levará diretamente aos eventos de “A Morte do Hellboy” e Hellboy no Inferno”, ambos já publicados pela Mythos.
Ah, e é claro, além de todos esses aspectos, temos ainda o que realmente importa em relação a tudo isso: são histórias sensacionais!
Hellboy Edição Histórica Vol.7: Paragens Exóticas possui 160 páginas, capa dura, formato 26 x 17 cm, e preço sugerido de R$ 69,90. No entanto, você pode encontrá-lo com 30% de desconto clicando aqui.





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