Falar sobre Kick-Ass é absurdamente perigoso. Não, não tem nada a ver com o teor violento e polêmico da HQ. Mas é que o negócio tem tantas mortes de personagens importantes, tantas reviravoltas, que as vezes é quase impossível não acabar tocando em um spoiler em potencial. E isso se torna ainda pior quando o assunto é Kick-Ass 3, a conclusão da trilogia idealizada por Mark Millar e John Romita Jr nos idos de 2008. Portanto, durante o texto procurarei obviamente não revelar detalhes importantes da trama que podem vir a estragar a experiência de leitura. No entanto, é importante citar que como se trata do terceiro volume, é preciso uma contextualização da história até aqui, e dessa forma veremos spoilers das obras Kick-Ass 1 e Kick-Ass 2.
Lançado pela Panini nesse mês de maio, Kick-Ass 3 segue o padrão dos volumes anteriores, com capa dura e papel LWC. A obra começa imediatamente onde o segundo volume havia parado, com a prisão da Hit-Girl após os eventos da guerra de “super-heróis” em plena Times Square. Obviamente, como constatamos no começo da história, a little bitch já havia se preparado para essa possível situação, e deixa planos explícitos e detalhados para Dave e a galera do Justiça Eterna ajudarem em sua fuga da cadeia. E é claro que Kick-Ass e sua equipe se reúnem e salvam a garota, certo? Bem, na verdade não. Assustados com a possibilidade de irem parar atrás das grades também, os pretensos heróis acabam postergando o plano de salvamento enquanto Mindy apodrece na cadeia.
É muito interessante como Mark Millar consegue sempre segurar esse tom de realismo enquanto parodia incessantemente o gênero dos super-heróis. A todo momento o autor cria situações em que parece que vamos ver uma típica cena de quadrinhos heróicos, e de repente somos brutalmente puxados para a realidade e vemos como realmente um plano tão imbecil se sairia na vida real. É algo genial. É exatamente a mesma fórmula utilizada desde o primeiro volume, com o mesmo método de fazer piadas em cima de frases e acontecimentos dos quadrinhos da Marvel e da DC, mas ainda assim Millar consegue arrancar risadas com as situações. O autor faz aquilo que sempre fez de melhor: escrotizar os quadrinhos. Mas uma escrotização de qualidade, com o perdão da palavra.
É impossível não rir por exemplo da mórbida cena (ou pelo menos deveria ser mórbida, mas é bizarramente engraçada) em que Dave Lizewski visita o túmulo de seus pais usando um sobretudo enquanto faz poses clássicas como Bruce Wayne para seu amigo Todd tirar fotos. São essas sacadas de Millar que tornam a HQ algo único.

A HQ segue contando três histórias paralelas que irão se cruzar no final. De um lado vemos o protagonista Dave Lizewski, o nosso herói Kick-Ass, tentando liderar a equipe Justiça Eterna sem a Hit-Girl, e percebendo que isso é mais difícil do que pensava. De outro vemos a própria Hit-Girl sobrevivendo na cadeia, enquanto um psiquiatra tenta fazer um acompanhamento para entender como funciona a cabeça da garota. E ainda temos um terceiro plot, envolvendo Chris Genovese, o “vilão” Mother-Fucker, que está se recuperando no hospital após os acontecimentos da batalha na Times Square do segundo volume, e que tem a liberdade garantida graças a seu tio Rocco Genovese, um mafioso exilado há anos na Itália, mas que agora retorna a Nova York na intenção de dominar o crime na cidade obtendo poder sobre todas as famílias da máfia local.
Aqui Millar insere um conceito simples e bastante funcional para a narrativa, pois primeiro ele mostra Dave cada vez mais focado na “missão”, e logo em seguida colocar na história uma namorada para o Kick-Ass, modificando completamente o modo de enxergar a vida que o garoto tinha até ali. Se antes, vestir uma roupa de mergulho verde e amarela e sair para arriscar a vida era tudo de mais importante na vida de Dave, agora as coisas mudam de figura quando ele finalmente se vê feliz e apaixonado por uma garota normal e que – ora, vejam só – gosta muito dele. Obviamente essa mudança de panorama na vida do protagonista não vem em boa hora (ou sim, dependendo do ponto de vista) pois os fantasiados começam a ser perseguidos e brutalmente assassinados a mando de Rocco Genovese, e a Hit Girl começa a sofrer perigo real quando guardas de sua prisão são subornados para facilitarem o assassinato da garota.
Mas por incrível que pareça, não é só o Kick-Ass que começa a repensar sua vida e tudo que fez até ali. O grande “super-vilão” dos volumes anteriores, Chris Genovese (Red Mist,/Mother-Fucker) revela-se bem insatisfeito com o fato de sua mãe sofrer insultos na rua e não conseguir ter uma vida normal graças aos crimes cometidos por ele. E o que o garoto decide fazer em relação a isso é uma das grandes sacadas do gibi.
Assim como nos volumes anteriores, não há nada de revolucionário ou incrível na HQ. Seu grande mérito e atrativo reside justamente em ser uma grande paródia dos gibis de super-heróis, e as referências nerds sendo jogadas a torto e a direito em forma de piadas muito bem escritas com uma dose cavalar do humor negro característico da série. Com um final redondinho e satisfatório que deve agradar a todos os leitores que vieram durante esses anos acompanhando a trajetória de Dave Lizewski, Mindy McCready e companhia, Millar e Romita Jr concluem o épico Kick-Ass sem perder o tom característico desde o primeiro volume.
Ah, e antes que eu me esqueça… ainda somos brindados com a presença do próprio Heisenberg de Breaking Bad fazendo uma ponta como psiquiatra da Hit-Girl, além da descoberta de que essa pequena assassina sanguinária e letal possui o vício de… colecionar cards da Hello Kitty.

É, pois é. Todos tem os seus vícios, bitch.
Kick-Ass 3 pode ser encontrado na Amazon, e para comprar o encadernado em capa dura basta Clicar Aqui.





Comentários