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Todo leitor de quadrinhos tem o seu “pecado”. Aquela HQ clássica, aclamada, indispensável, que por algum motivo você acabou nunca lendo. Eu tenho alguns desses pecados, mas talvez o maior deles seja nunca ter lido Lobo Solitário, um verdadeiro marco na história dos mangás, e considerado um dos melhores quadrinhos de todos os tempos, influenciador de lendas como Frank Miller, e responsável pela chegada da expansão dos mangás no ocidente.

Ok, talvez não seja um pecado tão grande assim, já que a história de publicação do mangá no Brasil não é das mais felizes. A primeira vez que o mangá chegou em terras brasileiras foi na década de 80 com a editora Cedibra, que publicou apenas 9 edições e acabou fechando suas portas sem que tivesse como dar continuidade à série. Alguns anos depois, no comecinho da década de 90, a editora Nova Sampa retomou a saga do samurai Itto Ogami, mas novamente isso não durou muito, com a revista sendo cancelada poucas edições depois.

Foi apenas em 2005, que após um longo processo de aprovação, a Panini conseguiu trazer Lobo Solitário de volta às bancas, dessa vez acabando com a maldição do mangá no país, e concluindo a publicação da obra, em 28 volumes. O problema é que desde então, Lobo Solitário não havia tido qualquer republicação, e o mangá esgotou rapidamente, tornando-se artigo de colecionador. Pelo menos até agora. Este ano, a Panini resolveu trazer de volta a série para as bancas e livrarias brasileiras, em acabamento de luxo, papel off-set e capa com orelhas. Uma nova chance para os colecionadores de quadrinhos. 

Primeiramente, é importante ter em mente que esse mangá foi originalmente publicado no Japão entre 1970 e 1976, retratando de maneira fidedigna a Era do Shogunato, quando os samurais existiam aos montes, e que correspondeu ao período de 1603 a 1868. Isto porque alguns podem estranhar a arte característica dos mangás da época, acostumados com publicações mais recentes que trazem o tema, como Blade: A Lâmina do Imortal, ou até mesmo o shonen Rurouni Kenshin. Ao contrário desses dois, Lobo Solitário é extremamente mais pautado no realismo, com uma beleza crua, dinâmica e que retrata com o máximo possível de verossimilhança o Período Edo ao qual a trama corresponde.

O roteiro de Kazuo Koike e a arte de Goseki Kojima trazem a história de Itto Ogami, um mercenário conhecido como Lobo Solitário, que viaja pelo Japão Feudal oferecendo seus serviços com sua espada, enquanto carrega seu filho – o pequeno Daigoro – em um carrinho de bebê. Esse conceito, por si só, já é um dos pontos altos do mangá. É impossível não enxergar toda a beleza das cenas onde Itto e Daigoro caminham em direção ao pôr do sol, pai e filho andando por um caminho sangrento chamado pelo próprio Itto de meifumadou, ou seja, “o caminho errante do mundo dos mortos.”

Durante boa parte do mangá somos introduzidos a esse caminho percorrido por Itto e Daigoro, enquanto o ronin executa suas missões e sempre nos deixa transparecer que mesmo sendo um mercenário que mata por dinheiro, ele é ainda mais honrado do que praticamente todos os outros samurais que atravessam o seu caminho no decorrer da trama. Essa narrativa, apesar de contar com capítulos que trazem pouca relação entre si, e tratam apenas de mostrar “missões” aleatórias de Itto, começam a fazer com que nos interessemos pelo passado desse personagem, e questionar o que teria feito alguém tão honrado viajar pelo mundo oferecendo sua espada em troca de dinheiro, enquanto supostamente coloca seu próprio filho ainda bebê em risco.

É somente no último capítulo do primeiro volume que somos levemente apresentados ao passado de Itto, e entendemos parte do que o fez tomar a decisão de se tornar um ronin errante. O interessante é que, mesmo trazendo o passado do personagem, o capítulo ainda deixa algumas questões em aberto, mantendo a curiosidade do leitor para os volumes que virão à frente. Ao mesmo tempo que entendemos o motivo da atual vida de Itto, ainda ficamos sem saber exatamente o que aconteceu para que chegasse no ponto em que o capítulo inicia. 

Para finalizar, o que posso dizer de Lobo Solitário é que ler esse mangá me deixou extremamente feliz. Não apenas por finalmente poder colocar as mãos naquela que é considera por muitos como a obra máxima dos mangás. Nem pelo fato de sempre ter tido curiosidade com esse mangá. Mas sim por algo bem mais simples: aquele sentimento indescritível de quando percebemos que estamos diante de uma leitura prazerosa, perfeita, que nos imerge nas páginas e nos transporta para um mundo completamente novo. E nada supera essa sensação.

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