Criar novos heróis nos quadrinhos, hoje em dia, de forma a torná-los atrativos para o público leitor é uma tarefa árdua. Principalmente quando esse personagem precisa ser inserido dentro de um universo já permeado por centenas de aclamados e clássicos heróis há décadas. Não por acaso, é mais fácil ver os mesmos personagens sendo reinventados, descaracterizados, mortos e ressuscitados em um ciclo infinito, do que simplesmente presenciar o surgimento de algum novato que seja bem escrito, bem trabalhado, e caia nas graças do público. É por isso que o sucesso de Kamala Khan, a novíssima Miss Marvel é algo tão importante, e um feito a ser comemorado. “Mas pera aí, a Miss Marvel já existe”, você pode alegar. Ok, o título de Miss Marvel realmente existe, pertencendo durante anos à Carol Danvers. Mas estamos falando de algo bem diferente aqui.
Isso porque recentemente a Panini publicou em terras brasileiras a HQ Miss Marvel: Nada Normal, compilando as 5 primeiras edições do título escrito por G. Willow Wilson e desenhada por Adrian Alphona, em versões com capa dura ou cartonada, e apresentando aos leitores essa interessantíssima nova personagem que agora faz parte do universo Marvel. Abraçando a diversidade e ousando em trabalhar com temas até então arranhados apenas superficialmente nas histórias em quadrinhos mainstream – principalmente no nicho super-heroico – a Marvel nos traz a primeira super-heroína muçulmana da editora, uma jovem americana de ascendência paquistanesa que de repente se vê possuidora de grandes poderes, sendo obrigada a lidar com eles ao mesmo tempo em que passa por aquela conturbada fase dos 16 anos de idade onde você tem absoluta certeza de que os seus pais estão sempre errados. O mais interessante da adolescente, é que ela é retratada exatamente assim: como uma adolescente. Kamala, que nasceu em solo americano, convive diariamente com toda a futilidade da juventude americana, ao mesmo tempo em que em sua casa aprendeu a viver sob as regras de sua religião. Tal contraponto é extremamente bem executado por G. Willow Wilson, e aqui cabe um parênteses para comentar que a roteirista converteu-se ao Islamismo ainda na época da faculdade, além de ter sido uma colaborada assídua da Cairo Magazine, um veículo de oposição egípcio. Bagagem ela tem.

Quem leu a saga Infinito, viu que o líder dos Inumanos, Raio Negro, liberou no planeta a bomba da terrigênese, com sua névoa transformando alguns humanos com predisposição genética em Inumanos, com a mais variada sorte de poderes. Kamala é uma das afetadas, sendo essa a origem de seus poderes, porém o fato de ter lido ou não a saga é completamente irrelevante, dado o tom didático e auto-explicativo da HQ. O mais interessante de Kamala Khan, é que o fator que a torna uma personagem tão adorável não são os seus poderes – que englobam uma espécie de mudança física e reestruturação genética – mas sim a sua humanidade. Com suas dúvidas adolescentes, questionamentos a respeito do papel da mulher dentro de sua religião e a sempre conturbada vida escolar, Kamala acaba revelando-se gente como a gente, trazendo uma identificação imediata que lembra muito o que Peter Parker foi para toda uma geração (tanto na versão de Stan Lee quanto na versão Ultimate de Brian Michael Bendis). Seja escrevendo fanfics, ou sendo completamente fangirl dos super-heróis, Kamala poderia ser qualquer garota normal da nossa realidade.
O fato da leitura ser leve, bem humorada e descompromissada pode ser interpretado como um ponto negativo para alguns, mas particularmente acho que o seu tom é perfeito para o que o gibi se propõe, tornando-o uma daquelas situações onde optar pelo simples acaba sendo o ideal. Dessa forma, não espere dar de cara com um épico, mas sim com um quadrinho divertido, que cumpre seu papel de apresentar uma nova e interessantíssima super-heroina, com potencial para algo maior. Em tempos onde personagens femininas poderosas tem cada vez mais dominado a cultura pop, seja em séries, filmes ou nos quadrinhos, Kamala Khan chegou para deixar sua marca. E esperamos que ela vá longe.






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