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A série Mortal Kombat nunca foi das mais politicamente corretas do mundo dos jogos. Desde sua primeira versão o jogo apresenta cenas de violência desmedida como fraturas e mutilações, tudo isso banhado a litros de sangue virtual. O jogo já foi alvo de represálias de pais desesperados ao verem os filhos vidrados nas sequencias de violência gratuita do game.

A grande verdade é que os exageros são o grande charme de Mortal Kombat, série nascida nos anos 90 que tomou conta da mente dos jovens adoradores dos jogos de luta, e rivalizou com o lendário Street Fighter.

Depois de um inicio discreto, a série se popularizou graças a sua terceira versão, Mortal Kombat 3, lançado em 1995. Os gráficos impressionavam por utilizarem modelos reais, tecnologia absurda para a época. Depois de um ano, Mortal Kombat chegou ao topo do gênero com Ultimate Mortal Kombat 3, versão melhorada da terceira edição, que trazia grande variedade de lutadores e modos adicionais. Os movimentos especiais chamados de Fatalities foram imortalizados de vez como a experiência mais brutal já vista em jogos eletrônicos. O game foi idolatrado desde o seu lançamento e tornou-se um dos maiores clássicos da história dos videogames.

Com a proximidade da próxima geração de consoles, era aguardada uma versão em 3D do jogo, que causava já euforia antes mesmo de anunciada. Assim, em 1997 foi lançado Mortal Kombat 4, o primeiro jogo em três dimensões da série, e introduzia algumas novas mecânicas na franquia, como a possibilidade de se mover em profundidade nos cenários, arremessar objetos e armas especiais para cada personagem. Não que o jogo fosse ruim, inclusive foi bem aceito entre os fãs sedentos por novidade, mas o clima já não era o mesmo. Os novos movimentos e visual dos personagens descaracterizaram um pouco a série, que perdeu um pouco da fluência dos rounds.

Assim se seguiram varias sequências de qualidade duvidosa, incluindo desde um modo hack n’ slash, no maior estilo God of War, a corridas de kart e jogos de xadrez. Era difícil acreditar que o jogo rápido e visceral dos anos 90 tinha se transformado em rounds burocráticos e sem graça. O jogo chegou a perder a sua característica principal, os Fatalities, no crossover com os personagens da DC Comics lançado em 2008, com a miserável desculpa de que ”Os fãs da DC não podem ver o Batman ser decapitado pelo Scorpion”. Mortal Kombat chegou ao fundo do poço ao emplacar meia dúzia de jogos genéricos em sequência. Os fãs pediam um Mortal Kombat como dos velhos tempos. Então a Nether Realms juntou-se a Warner para tentar atender ao desejo dos sanguinários fãs.

Mortal Kombat começa voltando as raízes da franquia desde o seu nome, sem nenhum número ou complemento, como se fosse o primeiro da série. O trabalho da Nether Realms foi todo trabalhado para reviver a experiência de jogar um Mortal Kombat clássico, como um remake.

A mecânica básica continua a mesma: batalhas divididas por rounds, assim como em todos os jogos da série. O game apresenta desde os modos de jogo clássicos, nos moldes arcade, até um novo e interessantíssimo modo história, que volta desde os primórdios da história do jogo. Esse modo força o jogador a usar personagens variados, conforme a história se desenrola. Também foram adicionados modos que permitem o uso de quatro personagens em uma luta, alternando entre os ativos. O sistema funciona bem, lembrando bastante o esquema visto na série Marvel vs Capcom. A versão do Playstation 3 ganhou um extra invejável, a presença de Kratos, de God of War. O personagem, claro, não participa da história do game, mas pode ser utilizado em lutas multiplayer, e incrivelmente se encaixou na mecânica do jogo com perfeição.

A jogabilidade foi totalmente remodelada justamente para remeter aos primeiros jogos. Liu Kang e Sub-Zero parecem ter subitamente se lembrado como lutar sem se arrastar nas arenas. Os combos voltaram a funcionar, diferente das ultimas versões em 3D, que tinham uma jogabilidade lenta e travada. Os comandos seguem a linha de todos os jogos da franquia, desde os golpes mais simples até as sequencias mais pesadas e os golpes especiais. Os velhos fãs vão realmente se sentir em casa com a resposta precisa dos comandos.

Ainda foi adicionada uma barra de especial na parte de baixo da tela, que vai se completando conforme o lutador aplica e recebe danos. Quando incompleta, pode ser usada para aumentar a potência de ataques especiais, como o congelamento de Sub-Zero, que também causará dano ao inimigo. Quando a barra fica cheia é que o bicho pega. Você pode aplicar os novos X-Ray Moves, que consistem em uma sequencia de golpes que mostram os ossos do oponente sendo estraçalhados com as pancadas. O movimento pode ser bloqueado, mas chega a ser exagerada a quantidade de vida tirada do oponente. O novo jogo também conta com um botão de ”agarrão”, que apesar de eficaz, parece não ter sido uma boa ideia, já que os golpes tiram uma quantia bastante considerável de vida, e são facílimos de se aplicar. Prepare-se para MUITA apelação.

O jogo roda usando o famoso Unreal Engine 3, e apresenta desempenho bastante parecido tanto no Xbox 360 quanto no Playstation 3, que rodam em framerate constante, sem nenhum tipo de travamento.

O que pode se dizer sobre os gráficos é que eles cumprem bem o seu papel de renovar um clássico. A equipe de desenvolvimento usou bem o UE3, usando uma série de efeitos durante as lutas. A grande parte dos cenários foi inspirada nos das versões anteriores, e vão fazer os jogadores lembrarem com nostalgia dos velhos tempos. Os modelos dos personagens não são o que existe de mais moderno nos jogos, ainda mais pelo fato do jogo rodar no UE3. Os lutadores, em especial as mulheres, ficaram com rostos bastante artificiais. A novidade fica por conta do sistema de danos, que mostra os personagens feridos e esfarrapados depois de alguns socos.

O jogo todo roda com o motor gráfico, inclusive as cutscenes do modo história. Um ótimo ponto é a quase ausência de loadings, que chega a ser impressionante. Depois de uma sequencia animada, a câmera simplesmente gira, e eles estão prontos para a luta. O game ainda traz legendas em português do Brasil, além de menus totalmente traduzidos.

Os fatalities voltaram com tudo, se aproveitando do poder gráfico atual para derramar mais e mais sangue. Uma boa variedade de novos movimentos foi adicionada, além das versões sarcásticas, como os Babalities. Ainda é possível testar os movimentos em um modo exclusivo, que ensina o jogador a executar as épicas finalizações.

O som não compromete em nada, e de quebra lembra muito Ultimate Mortal Kombat 3. Os entusiastas vão beirar as lágrimas quando aplicarem um gancho e verem o lendário Dan Forden gritando ”Toasty” no canto da tela.

Por fim, Mortal Kombat fez um grande trabalho ao trazer de volta toda a magia (e violência) do jogo que é tido por muitos como o melhor do gênero. Com uma jogabilidade sólida e precisa, bons gráficos e toda a nostalgia, Mortal Kombat já entra no hall da fama dos jogos de luta modernos, seguindo de perto o também fantástico Super Street Fighter IV. A Nether Realms provou aos jogadores que a série ainda tem muito a oferecer para os novos e velhos jogadores. Vale a pena conferir!



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