Quando o estúdio Cold Symmetry surgiu com Mortal Shell em 2020, a premissa era muito boa, mas a execução não chamou atenção o suficiente para tirá-lo da prateleira de “mera curiosidade”. Com uma duração total de apenas cerca de 10 horas, o título parecia muito mais um teste, um embrião, de algo que poderia ser muito interessante se lapidado.
Bem, corta para 2026 e temos Mortal Shell II, o diamante que a Cold Symmetry sempre quis apresentar. Embora tenha o “2” no título, não é como se estivéssemos falando de uma sequência. O novo game retrabalha absolutamente todos os aspectos de seu antecessor, apresentando até mesmo uma nova lore para o cruel, sombrio e devastado mundo criado pelo estúdio.
Dessa vez, em uma história melhor elaborada, nós jogamos com uma criatura chamada de “Arauto”, cuja missão é recuperar os casulos, ou ovos, de uma entidade tratada como divina conhecida como Undermether. Esses casulos, chamados no jogos de “ovas”, foram roubados por inimigos corrompidos espalhados pelo mundo. O próprio Arauto saiu de um desses “ovas”, então sua missão é meio que reunir seus irmãos – por assim dizer.

Para realizar essa missão, o Arauto conta com a ajuda da principal mecânica da franquia, que é o que traz o maior senso de identidade de Mortal Shell: as carcaças. Acontece que o Arauto tem a habilidade de “possuir” os corpos de antigos guerreiros caídos, e assim se aproveitar de suas diferentes habilidades. Obviamente, isso implica diretamente na forma como você vai encarar os desafios de Mortal Shell II, em aspectos de gameplay.
Não é como se o sistema de carcaças fosse apenas uma forma mais enfeitada das diferentes armaduras que encontramos em jogos semelhantes, apresentando apenas uma variação de status. Na verdade, cada carcaça é absolutamente diferente da outra em aspectos de gameplay, o que muda completamente a forma como o jogador supera os desafios da jornada.
Claro, é absolutamente possível que o jogador vá se apegar a alguma carcaça, mas o jogo as torna tão diferentes que é inevitável sentir a vontade de experimentar outras e, por muitas vezes, se sentir motivado a trocá-las. Em um jogo que se sustenta em muito nessa mecânica, é gratificante ver como os desenvolvedores não caíram no erro de torná-las meramente skins. Cada carcaça vai se adequar ao estilo dos mais variados tipos de jogador.

Tiel, por exemplo, possui como principal habilidade o “golpe sombrio”, no qual fica invisível por alguns segundos e possibilita a execução de um golpe poderoso no inimigo. Já Gragu abre mão do sistema padrão de cura do jogo, pois conta com uma habilidade própria na qual consome o coração dos inimigos, enchendo um número de cargas de cura conforme mata oponentes. Smert é um guerreiro corporal que possui a habilidade de parar o tempo e, em troca de sua própria barra de vida, acrescenta dano no inimigo enquanto o jogador o golpeia sem parar dentro dessa bolha temporal. E existem ainda muitos outros.
Como já deu para entender, cada jogador vai encarar a aventura de uma forma única, a depender completamente do seu estilo pessoal. E claro, ainda teremos aqueles que usarão as diferentes carcaças para cada tipo de situação.
Mas afinal, além das habilidades das carcaças, como é o combate do jogo? Bem, naturalmente, quem já jogou qualquer soulslike sabe exatamente o que encontrar, mas há algumas diferenças cruciais que tornam Mortal Shell II muito mais… dinâmico, podemos dizer. Para começar, não há um sistema de estamina, então seus golpes não estão limitados. Porém, há uma barra de “determinação”, que define, por exemplo, a quantidade de vezes que você pode utilizar as habilidades especiais da carcaça e também o número de tiros da arma secundária. Sim, usar um ou outro gasta a mesma quantidade de determinação, então vai depender do jogador ser estratégico na administração.
Porém, ao mesmo tempo, é basicamente onde estará a sua preocupação em ser estratégico, já que o game não é exatamente um RPG. Por exemplo, não há um sistema onde você sobe de nível escalando diferentes atributos. Aqui, você usa seus pontos (vultos, no universo do jogo) simplesmente para subir de nível de forma geral, e os atributos vão subindo de forma automática. No entanto, há uma espécie de “árvore de habilidades” diferente para cada carcaça. Ao subir de nível você recebe pontos de carcaça, que podem ser utilizados para melhorar as habilidades dela, ao mesmo tempo que usar “vislumbres” (comumente encontrados pelo mapa), aumenta o seu vínculo com a carcaça (em até quatro níveis) e desbloqueia ainda mais melhoramentos de skills.

E por falar em mapa, esse é mais um dos grandes destaques de Mortal Shell II. O jogo abandona o design restrito de corredores do original, oferecendo um mundo aberto imersivo e denso (descrito pelos próprios desenvolvedores como “compacto, mas expansivo”). A inspiração óbvia é Elden Ring, o game de mundo aberto da From Software que levou a expertise do estúdio com Dark Souls para um sistema de mundo aberto. Convenhamos, não era algo fácil de se fazer, mas o estúdio capitaneado por Hidetaka Miyazaki foi lá e fez. Da mesma forma, é preciso tirar o chapéu para a Cold Symmetry, pois eles não fizeram feio.
O mundo aberto de Mortal Shell II, embora seja realmente muito mais compacto, conta com um excelente level design, levando para o mundo aberto aquela boa e velha lógica de atalhos e caminhos interconectados que os jogadores devotos do estilo souls tanto apreciam. Contando com diferentes biomas, o mapa é ainda recheado de masmorras, que embora não sejam muito criativas e pouco difiram umas das outras, oferecem uma boa quantidade de desafio.
Claro, isso não impede a sensação de que elas estão ali apenas para inflar o jogo, o que na verdade considero uma decisão… desnecessária. Isso porque Mortal Shell II conta surpreendentemente com uma quantidade enorme de conteúdo. Embora o mapa não seja muito grande, o incentivo à exploração acaba por estender o tempo de gameplay de uma forma orgânica e satisfatória; e além disso, o principal objetivo do jogo é purificar os “portões corrompidos” onde estão os ladrões de ova (os chefões principais do jogo), e dentro de cada portão encontramos uma área enorme (e não mapeada).

Claro, nem tudo é perfeito em Mortal Shell II, e nem esperaríamos que fosse. Para quem não sabe, o primeiro jogo começou a ser desenvolvido por apenas duas pessoas, com a equipe logo crescendo para quatro e que, com a ajuda de freelancers da Playstack, conseguiram lançar o projeto ao mundo. Ver esse pequeno time de desenvolvedores indie expandindo a ponto de lançar um título com esse escopo atual, é realmente algo louvável. Dito isso, a já citada questão das masmorras não serem muito criativas se estende para outros aspectos do jogo, como os inimigos. Não há uma variedade de inimigos muito grande, e os mesmos se repetem ao longo das várias horas de conteúdo.
Para finalizar, eu não poderia deixar de citar os preços praticados no lançamento do game no Brasil. Com valores localizados para o nosso país, a Cold Symmetry está cobrando R$159,50 na versão padrão e R$190,90 na versão deluxe. Para um game que oferece no mínimo 30 a 40 horas de conteúdo, e com a qualidade apresentada, é algo absolutamente digno de nota.
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- Desenvolvedora: Cold Symmetry
- Publisher: Playstack
- Plataformas: PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC
- Review feito no: PlayStation 5






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