Quando a Team Ninja revelou Nioh 3, muita gente pensou que a evolução natural da série estava em seguir aquilo que a From Software fez com Elden Ring – ou seja, levar as já conhecidas mecânicas do game, para uma estrutura de mundo aberto. Porém, os produtores Fumihiko Yasuda e Kohei Shibata foram rápidos em afirmar que seria mais adequado encarar a abordagem da sequência como um conceito de “campo aberto”. Tendo o jogado o game, fica claro o que quiseram dizer.
Fica bem perceptível que a ideia é oferecer mais liberdade de exploração, mas sem perder o que define a identidade da franquia, que são os confrontos rápidos. Em vez de um grande mundo contínuo, o mapa de Nioh 3 é composto por campos interconectados que abrigam grandes regiões, o que explica a ausência de montarias, mesmo que haja espaço para exploração.
Mas ok, talvez eu esteja me precipitando. Porque apesar do “campo aberto” ser um conceito importante para o terceiro capítulo da série, Nioh 3 se faz satisfatório para os fãs de Nioh justamente naquilo em que conquistou os jogadores – e é aqui que rola uma expansão interessante.
Uma história através do tempo

Nioh 3 entrega uma narrativa que não apenas contextualiza o combate, mas sustenta toda a experiência do jogo. A história se passa em torno de Tokugawa Takechiyo, herdeiro de uma linhagem destinada a unificar o Japão em um período de transição histórica e espiritual. O pano de fundo é o Japão do século XVII, mas logo nos primeiros minutos de jogos fica claro que o conflito vai muito além de disputas políticas.
O grande motor da trama é o conflito familiar. O irmão mais novo de Takechiyo, Tokugawa Kunimatsu, consumido pelo ressentimento de ter sido preterido na sucessão, se deixa corromper por uma força ancestral que não apenas amplifica o ódio de Kunimatsu, como o transforma no principal antagonista da história, liderando hordas de yokai e espalhando corrupção por locais de grande poder.
A partir desse ponto, Nioh 3 introduz um elemento essencial: a viagem no tempo. Guiado por seu Espírito Guardião, Kusanagi, Takechiyo passa a atravessar diferentes eras do Japão, como o Período dos Estados em Combatentes, a Antiguidade e o próprio Período Edo, testemunhando como o mal se manifesta de formas distintas em cada época. Isso não é apenas um recurso narrativo, mas uma forma inteligente de integrar figuras históricas reais, como Tokugawa Ieyasu, Takeda Shingen, Yagyu Munenori e Hattori Hanzo, diretamente ao conflito central.
É uma forma interessante de guiar a história, mas que torna estranha a decisão de manter uma profunda personalização de personagem. Entendo dar essa escolha ao jogador, mas é no mínimo estranho que um protagonista que é canonicamente definido de uma forma específica, possa ser customizado para qualquer gênero ou etnia. Seria como jogar um game do Pantera Negra e poder customizar T’Challa como um loiro de olhos azuis.
Combate em dose dupla
O combate continua sendo o coração de Nioh 3, mas agora ele ganha uma camada de profundidade inédita com a introdução da dualidade entre Estilo Samurai e Estilo Ninja. Diferente das escolhas fixas de classe, o jogo permite alternar entre os dois estilos em tempo real, no meio das batalhas.
O Estilo Samurai representa a espinha dorsal da série: ataques precisos, armas pesadas, domínio de Ki e leitura cuidadosa dos inimigos. Já o Estilo Ninja aposta em velocidade, mobilidade, esquivas constantes, ataques à distância e uso intensivo de Ninjutsu. Cada estilo possui habilidades e equipamentos próprios, o que incentiva abordagens completamente diferentes para o mesmo combate.
Sinceramente? Fiquei na dúvida do motivo da troca de estilos, considerando que o Estilo Ninja é extremamente mais rápido e eficaz nos combates – o que inclusive coloca esse Nioh em uma posição muito mais de “jogo de ação” do que seus antecessores. Claro, a velocidade sempre foi a espinha dorsal da série, diferente de outros soulslikes, mas sinto que aqui isso foi elevado, talvez para tornar o game mais receptivo a um novo público.
Claramente houve um esforço em tornar o combate mais dinâmico, com diversas opções de enfrentamento (as vezes até demais). Por exemplo, alguns ataques inimigos não podem ser esquivados ou defendidos. Esses ataques são reconhecíveis pelo halo vermelho que indica um ataque iminente.
Para interromper esses ataques, é necessário realizar uma mudança de estilo no momento certo, o que ativa uma deflecção. Além de cancelar o ataque, é possível causa dano à vida do oponente, além de reduzir o Ki máximo de um yokai.
A progressão em Nioh 3 é profunda, mas mais clara do que nunca. Os atributos principais continuam presentes, porém o jogo agora mostra de forma direta como cada escolha afeta tanto o Estilo Samurai quanto o Ninja, além das armas equipadas.
O gerenciamento de equipamentos também foi refinado. Cada estilo possui sua própria seleção de armas corpo a corpo e armaduras, enquanto armas de longo alcance podem ser compartilhadas. A possibilidade de salvar conjuntos de equipamento facilita a troca de builds, algo essencial em um jogo como esse, que incentiva experimentação constante.
A importância dos Espíritos Guardiões
Já os Espíritos Guardiões assumem um papel ainda mais central em Nioh 3. Eles influenciam diretamente o combate, a exploração e até a progressão narrativa.
Você ainda preencherá sua Barra de Amrita ao atacar inimigos ou coletar Amrita enquanto explora, mas agora ela também permite ativar a Arma Viva. Quando ativada, ela transforma Takechiyo em uma força imparável por um curto período, eliminando o consumo de Ki, imbuindo armas com elementos e impedindo a morte enquanto estiver ativo.
Cada Espírito Guardião possui duas Habilidades, que podem ser usadas em batalha se a barra de força espiritual estiver suficientemente preenchida. Além de causar dano, esses ataques poderosos reduzem o Ki máximo dos yokai.
As Habilidades do Espírito Guardião são desbloqueadas conforme a história avança ou à medida que você explora mais cada mapa, e cada uma delas possui um tempo de recarga antes de poder ser utilizada novamente.
No entanto, assim como era uma reclamação comum nos jogos anteriores, todo esse sistema de habilidades parece apenas… inchado. O excesso de sistemas torna tudo excessivamente e desnecessariamente complicado, algo que se torna ainda menos amigável ao jogador devido aos menus pouco intuitivos.
O mun.. quer dizer, o “campo aberto”
Como já citado no início do texto, uma das principais novidades de Nioh 3 é a maior liberdade para explorar mapas em campo aberto, que representam as diferentes eras pelas quais você viaja. Para ajudar na navegação entre os mapas, foi adicionado um menu de mapa, que pode ser aberto a qualquer momento durante a exploração.
Ao explorar uma nova região, o jogador desbloqueia a viagem rápida ao encontrar o primeiro santuário, permitindo viajar pelo menu para outro santuário no mesmo mapa ou para outro. Cada região possui seu próprio nível de exploração, que aumenta conforme o jogador captura bases inimigas, conclui mitos, derrota mestres e purifica áreas corrompidas.
Aliás, felizmente, a exploração não é apenas cosmética. Capturar uma base inimiga desbloqueia santuários e baús, enquanto enfrentar chefes em duelos individuais concede equipamentos únicos e Artes especiais. Os Mitos, missões secundárias ligadas a NPCs e memórias do mundo, aprofundam a lore e recompensam com recursos valiosos.
Veredito
De uma forma geral, Nioh 3 inova o suficiente para os padrões da franquia, oferecendo facilmente a melhor experiência para um jogo da série da Team Ninja. O sistema de combate foi refinado, o mundo semiaberto dá uma boa quebra na linearidade, e há um real senso de evolução para o jogador. Pois é, mas deveria ser mais.
Não vivemos em uma indústria onde só existe Nioh, então a pouca evolução geracional que game traz, em um momento onde vários estúdios já conseguem se aproveitar plenamente do potencial de hardware do PlayStation 5, é no mínimo… preguiçoso. Nioh 3 parece confortável demais em repetir fórmulas num momento em que a indústria já avançou vários passos.
Visualmente, o jogo raramente impressiona. Os cenários cumprem seu papel funcional, mas carecem de identidade marcante, impacto artístico ou senso de escala que justifique o discurso de “campo aberto”. Em muitos momentos, Nioh 3 parece um título de transição tardia do PS4, não uma produção que explora (ou deveria explorar) com ousadia o que o PS5 pode entregar em termos de mundo, ambientação e densidade visual.
No fim das contas, Nioh 3 é um ótimo game para quem já ama Nioh, mas um jogo apenas “ok” para quem esperava algo maior. Ele refina, ajusta e expande sistemas, mas evita riscos reais. Falta ambição estrutural, falta impacto técnico e falta aquele salto capaz de redefinir uma série – algo esperado em um terceiro título de uma grande franquia.
Leia mais sobre Nioh:
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- Demo de Nioh 3 está disponível para PS5 e PC
- Nioh 3 ganha vídeo de gameplay com 17 minutos
- Desenvolvedora: Team Ninja
- Publisher: Koei Tecmo
- Plataformas: Playstation 5, PC
- Review feito no: Playstation 5
- - Combate refinado
- - Boa exploração
- - Excesso de sistemas
- - Pouca evolução técnica