
Existem poucos escritores que conseguem ter um estilo tão próprio de narrativa a ponto de moldar completamente personagens já estabelecidos, e dos poucos que existem é certo afirmar que os dois maiores nesse sentido de reformular completamente os personagens pelas fases que tiveram, são Alan Moore e Grant Morrison. Moore normalmente seguia para um rumo de trazer esses personagens para um cenário mais crível, e assim experimentar todas as possibilidades que pudessem haver em um universo em que aquilo existisse, além de prestar homenagem as mais diversas eras dos quadrinhos, como o escritor fez em Monstro do Pântano, Miracleman e Supremo por exemplo, três clássicos absurdos da nona arte.
Já Morrison sempre segue para “o mundo além do papel”, com suas histórias trazendo grandes análises a respeito da quebra da quarta parede e a manipulação da realidade como a conhecemos, indagando a nossa própria existência e ironizando as coisas que todos estão acostumados a ver no mundo imaginário, mas que nunca pararam pra pensar em sua lógica. O escritor fez isso em dois de seus maiores clássicos, “Homem-Animal“, e o assunto em pauta de hoje, “Patrulha do Destino“.
Minhas expectativas para este quadrinhos eram moderadas, visto que é uma HQ que apesar de muito apreciada, ainda se mantém ofuscada atrás de outras obras mais conhecidas do escritor como “Grandes Astros Superman“, “Asilo Arkham“, “Os Invisíveis” e o já citado “Homem-Animal“, e após ler, eu realmente não entendi o motivo de tal ostracismo do mainstream, pois trata-se de uma das HQs mais imaginativas, interpretativas e interessantes que já tive o prazer de conhecer.

O primeiro volume inicia com o recrutamento dos membros do grupo, e logo de cara vemos que não trata-se de uma HQ convencional. Os personagens aqui são muito mais depressivos e amargurados que o normal para uma superequipe, e o jeito como seus poderes são retratados é algo simplesmente brilhante, a começar por um deles em especial, o interessantíssimo Homem-Robô. Essa foi a primeira vez que vi a ideia de um personagem parte homem parte máquina ser retratada com todo o drama que se envolve; há um pouco disso em Robocop ou no personagem Cyborg da DC Comics, mas nada como realizado aqui. Morrison realmente explora a maldição que é continuar vivo em um corpo que não pode sentir, não pode tocar, que não é orgânico, e mais tarde no volume 2, o escritor ainda usa o personagem para abordar a questão filosófica de “Corpo vs Mente” da maneira mais literal já concebida.

Outra personagem que merece destaque aqui é Crazy Jane, uma garota que após sofrer abusos do pai na infância, desenvolveu múltiplas personalidades, e em cada uma dessas personalidades adquiriu um poder especial, uma personagem extremamente interessante e que tem um desenvolvimento crescente ao longo de cada história, tendo seu ápice alcançado no volume 2, na história genial que se passa dentro de sua mente.
É difícil imaginar que uma HQ dos anos 80 tenha coragem de abordar temas como homossexualidade, incesto, abuso sexual infantil e transtorno mental compulsivo-depressivo com tanta clareza e sem parecer algo forçado para ser chocante, muito pelo contrário, tudo flui de maneira orgânica e imersiva, e nos faz refletir sobre nós mesmos e a natureza cruel dos seres humanos. Mas além de questionar questões existenciais em seus protagonistas, Morrison também brinca com a realidade em seus antagonistas, usando constantes quebras de quarta parede e sátiras à nona arte, como por exemplo uma equipe de vilões que simplesmente não faz sentido, e que justamente pela falta de propósito e pelo absurdo de sua própria existência decide se juntar para causar o caos.
Além de tudo isso, o grande mérito da HQ é conseguir passar tudo isso de maneira acessível e fácil de ser digerida, diferente de algumas obras do escritor que se perdem dentro de sua grandiloquência e psicodelismo, aqui é tudo levado de maneira simples para que qualquer um consiga absorver o que se está querendo passar.
Uma história que merece destaque é a do volume 2, “O Quadro que Devorou Paris“, em que somos levados para dentro do mundo da arte, onde a realidade se molda sobre o estilo visual que transita ao longo da jornada, passando assim desde a arte abstrata até a expressionista, vemos aqui um dos auges criativos do escritor, uma trama bizarra e absolutamente cativante.
Patrulha do Destino é um dos clássicos definitivos do selo Vertigo, uma leitura obrigatória a todo apreciador da nona arte e que ainda tem muito a mostrar ao longo dos volumes que ainda restam ser publicados.





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