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petalas_capajpgeUm Financiamento de Sucesso, Uma Obra Ainda Melhor

Das muitas histórias em quadrinhos colocadas em financiamento coletivo em 2015, Pétalas foi certamente uma das que conseguiu chamar mais atenção – e financiadores – para o seu projeto. Sendo a terceira obra de Gustavo Borges, que cuidou da arte e do roteiro, e levando as cores de Cris Peter, já veterana na indústria dos quadrinhos, a HQ arrecadou mais de 1000% da quantia modesta que precisava para ser financiada.

Não é difícil entender o motivo do sucesso do financiamento.  A arte sensível de Gustavo Borges chama tanta atenção na página do projeto que o interesse pelo projeto pode surgir simplesmente vislumbrando as amostras da HQ que despontam do texto que explica a ideia. No entanto, estivessem rascunhadas ou em preto-e-branco, certamente não teriam todo o efeito quando combinadas com o trabalho de Cris Peter, que consegue imprimir uma personalidade única ao ambiente e ao personagem antropomorfo da Raposinha.

A premissa da história é simples. Em um inverso rigoroso, uma família de raposas – um neto e um avô – tem dificuldades para garantir a sua sobrevivência. Nesse ambiente hostil e repleto de uma brancura que a colorista transforma tanto em bela quanto opressiva, um estranho pássaro, que busca fugir do rigor do frio, encontra-se com a Raposinha e, em sua breve passagem, marca a sua vida.

Á primeira vista, o roteiro poderia ser algo passável, com a HQ valendo apenas pela sua arte primorosa. No entanto, nas poucas páginas que compreendem esse conto, é possível encontrar uma história sincera e tocante sobre altruísmo, bondade e amizade. E é justamente a figura do Pássaro, um desengonçado misto de mágico, viajante e curandeiro que chama mais atenção. Mesmo sem palavras, o personagem conquista facilmente o leitor em seus esforços e cabriolas para animar e ajudar a Raposinha. Esbanjando fofura e simpatia, é difícil não gostar da dupla que protagoniza Pétalas.

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Além da dificuldade de se escrever sobre temas de tamanha sensibilidade sem parecer piegas ou um arremedo de autoajuda, Pétalas ainda precisou vencer outro desafio. Gustavo Borges decidiu que a melhor forma de sua história ser contada, era com a ausência de palavras. Uma resolução perigosa, que poderia acabar por não conseguir cumprir com satisfação e então acabar com um material insatisfatório.

No entanto, tal escolha narrativa foi realizada com maestria. A composição, a arte e a sequência dos quadros conseguem passar muito bem tanto a história quanto os sentimentos e até mesmo ponderações do personagem. Sem ter o apoio de diálogos, cada um dos quadros precisou provavelmente de um processo meticuloso para que passassem exatamente a ideia necessária para a história avançar e se criar uma coesão narrativa.

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No fim das contas, a ausência de palavras entre os personagens se mostrou uma benção de outra forma. Lidando com temas tão sensíveis, a mesma história, usando os mesmos quadros, mas apresentando diálogos, poderia tornar-se piegas a ponto de não ser levada a sério. Felizmente, Gustavo Borges mostrou-se mais do que capaz de apresentar uma obra de qualidade e desafiadora. Certamente um grande acréscimo à sua carreira.

A edição de Pétalas não conta apenas com a história, mas traz extras interessantes sobre o processo de produção, tanto da parte de Gustavo Borges quanto da de Cris Peter. É curioso ver comentários sobre as dificuldades de se escrever uma HQ sem diálogos, além de ser muito instrutivo vislumbrar as etapas do trabalho da colorista. Esses comentários sobre o processo de coloração da HQ acabam aguçando a percepção da sua importância para a obra, ao mesmo tempo mostra aos leitores como o colorista, geralmente um tanto quanto ignorado em favor de roteirista e artista, é uma peça essencial para que uma obra se torne o que ela é.



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