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Em 2017, a Capcom resolveu apostar em mudanças significativas para uma de suas mais populares franquias: Resident Evil. O sexto jogo episódico da série havia saído em 2012, cinco anos antes, e apesar de apresentar boas vendas já havia demonstrado um cansaço do público com os rumos tomados. Assim, Resident Evil 7 chegou optando por uma jogabilidade em primeira pessoa e entregando o protagonismo a alguém completamente diferente dos tão conhecidos e amados personagens que a série já tinha, como Chris, Leon, Claire e Jill. Ethan Winters era o novo herói, ainda que o jogador nunca pudesse ver o seu rosto.

Claramente inspirado no teaser jogável do nunca lançado Silent Hills de Hideo Kojima, Resident Evil 7 foi muito bem recebido, conquistando novos jogadores e até mesmo jogadores veteranos – o que parecia um desafio difícil. Porém, dois anos depois chegou o remake de Resident Evil 2, usando da perspectiva em terceira pessoa e conquistando público e crítica, a ponto de garantir uma vaga nos indicados a Jogo do Ano. Seria um indício do retorno da série principal ao estilo iniciado lá em Resident Evil 4? Não foi o caso.

Quando Resident Evil Village (ou Resident Evil 8 para os íntimos) foi anunciado, essa revelação veio com um forte tom de desconfiança. Ok, retornar ao estilo de jogo e continuar a história vista em Resident Evil 7 era algo esperado. Mas lobisomens? Chris Redfield aparentemente do lado dos vilões? Vampiras voluptuosas com 3 metros de altura? Acho que podemos dizer, no mínimo, que os fãs da série foram pegos de surpresa. Ainda mais pelas esperanças criadas com o remake de Resident Evil 2 (o do 3 nem tanto).

Mas agora finalmente pudemos jogar o game completo e a verdade é que… sim, ele é bom. Mas claro, temos diversas ressalvas.

A trama, como já evidenciada pelos trailers, é uma sequência direta dos eventos de Resident Evil 7, com Ethan e Mia Winters vivendo juntos e criando sua filha recém-nascida, Rose. O jogo já começa com o momento que gerou mais pontos de interrogação na cabeça dos jogadores ao longo da campanha promocional : o momento em que Chris Redfield invade a casa dos Winters, assassina Mia a sangue frio e sequestra a filha do casal. A partir daí, seguimos Ethan novamente, buscando sua filha em um misterioso vilarejo em algum lugar do leste europeu.

Lá conhecemos novos inimigos, como os licanos, que são moradores do vilarejo que acabaram sofrendo uma mutação que os deixa mais feras do que homens, parecidos com lobisomens. É aqui que Village acaba lembrando um outro popular jogo da série, Resident Evil 4, mas também é onde mais difere de todos os outros jogos da franquia da Capcom. Sim, o jogo bebe muito da influência de Resident Evil 4, não apenas pelos temas semelhantes, com vilarejos europeus e moradores infectados hostis, mas também em elementos do gameplay.

O mercador, por exemplo, está de volta. Agora ele é um homem obeso chamado Duque, trazendo as mesmas funcionalidades do Mercador de RE4. Com Duke você pode vender seus tesouros acumulados, comprar suprimentos, melhorar suas armas e até mesmo…. cozinhar. Sim, esse é um novo aspecto trazido pelo game; é possível matar diferentes animais como galinhas e porcos, reunindo certos ingredientes e criando pratos diversos com Duque. Cada prato garante uma diferente funcionalidade, e você decide quais serão mais úteis em sua jornada, caso não queira depender apenas dos itens de cura usuais. Um outro ponto que diferencia Duque do Mercador de RE4 é que ele é muito mais integrado com a história, interagindo com Ethan e dando pequenas pistas e insinuações sobre o que está acontecendo no vilarejo.

Um outro aspecto muito presente em Village – que relembra os Resident Evil antigos – é um maior foco no seu senso de exploração, com áreas conectadas, muitas portas trancadas e a necessidade de retornar várias vezes aos mesmos lugares. Esse estilo de jogabilidade era muito mais presente nos três primeiros jogos da série, mas foi sendo deixado mais de lado nos jogos posteriores, que foram se tornando cada vez mais lineares e com menos exploração. Resident Evil Village, no entanto, revive esses elementos, contando com um único mapa, bem grande, que é conectado aos principais locais que Ethan precisa acessar para seguir em sua jornada. Dessa forma, ainda que o jogo ofereça diferentes cenários, com os mais diversos tipos de inimigos, ele ainda possui uma área principal no primeiro cenário, o vilarejo, para onde o jogador precisará sempre retornar.

Mas embora Village sirva como sequência direta para RE7 e busque influências em jogos clássicos como RE1 e RE4, isso não quer dizer que ele não tenha ousado o suficiente para trazer coisas completamente novas para essa equação – para o bem ou para o mal.

Na verdade, a impressão que fica em determinados momentos (principalmente no começo, quando você ainda está digerindo as informações) é que a Capcom deu uma pisada no freio lá no Resident Evil 7 para não chocar demais os jogadores veteranos, mas aqui se sentiram seguros o suficiente para… surtar. E muito desse sentimento é direcionado principalmente para os vilões que o game apresenta.

Na busca por sua filha, Ethan precisa encarar os chefes das quatro principais Casas que comandam a região. Na casa Dimistrescu, temos Alcina Dimistrescu, a vampirona gigantesca que vemos em todos materiais promocionais, junto com suas filhas vampiras. Na casa Moreau, temos Salvatore Moreau, um homem bizarro que possui mutações pelo corpo. Na Casa Beneviento, temos Donna Beneviento, uma ventríloqua que está sempre acompanha por bonecas bizarras. E por último, na casa Heisenberg, temos Karl Heisenberg, que comanda os licanos em certo grau e possui a estranha habilidade de controlar metal. Isso sem contar a matriarca de todos esses clãs, a misteriosa Mãe Miranda.

Em Village, a Capcom dá um jeito de colocar vampiros, lobisomens e pessoas com superpoderes dignos de um X-Men, para no final, como já esperado, linkar tudo isso com armas biológicas e experimentos malucos, conforme acontece em todos os outros jogos da série. Porém, é inegável que aqui é preciso uma suspensão de descrença muito maior do que em qualquer outro capítulo de Resident Evil. Mas se você absorve isso e aceita que o universo do game pode te proporcionar aquilo, é diversão garantida. E olha que eu nem revelei a coisa mais bizarra que acontece no jogo.

Mas  o que realmente incomoda em Resident Evil Village é a falta de inovação. Ele é, em todos os aspectos, uma expansão do que já foi visto em Resident Evil 7, e o que traz de novo em relação a esse jogo são coisas que já vimos em capítulos anteriores da série da Capcom. É um pouco frustrante, principalmente quando consideramos que esse é um jogo de nova geração, e que se não fosse a escassez dos novos consoles, provavelmente ele nem sairia para PlayStation 4 e Xbox One. Dito isso, vale dizer que o game está muito bem otimizado no PlayStation 4, que foi onde jogamos para fazer esse review. Até mesmo os loadings estão surpreendentemente rápidos, o que é muito bom.

Para quem gostou de Resident Evil 7 e tem carinho por Resident Evil 4, é quase impossível não gostar de Village, ainda que ele seja mais surtado e possivelmente assuste os fãs mais hardcore da série. Mas mesmo para os que gostarem, é inegável que falta aquele algo mais que tornava alguns dos capítulos de RE tão emblemáticos. Ainda que ofereça um gameplay consistente e momentos de tensão dignos do nome que carrega, Village ainda possui uma história genérica e um protagonista sem carisma. Não dá pra entender a insistência em Ethan Winters.

Ah, e falando nisso, pela primeira vez na história da franquia, o game está completamente localizado em português do Brasil, com o excelente Raphael Rossato emprestando sua voz ao protagonista. Vale a pena conferir.

Nota 8