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Financiado em 2009 através de um projeto no Kickstarter que buscava angariar uma quantia modesta, Resonance era uma promessa de um adventure point ‘n click de qualidade nos moldes dos antigos jogos da Sierra e da Lucas Arts. Uma história de ficção científica envolvente, centrada nos quatro protagonistas, e um sistema de utilizar memórias a curto e longo prazo dos personagens eram algumas das características que o criador Vince Twelve buscava alcançar. O jogo não ficou pronto em 2010, como ele esperava que acontecesse, e na maior parte do tempo a produção aconteceu no tempo livre que ele possuía. No entanto, em 2012 Resonance foi lançado e mostrou que realmente os investidores podiam contar com, como o autor disse no projeto do financiamento, “todo o amor e cuidado que se pode esperar de um desenvolvedor independente”.

A história do jogo lembra um thriller de ficção científica. Ed é acordado por uma ligação do Professor Javier Morales, de quem é assistente. O personagem é logo informado pelo cientista que ele pretende destruir todo material relativo à pesquisa dos dois sobre a tecnologia que haviam desenvolvido, pois acredita estar sendo seguido e em mãos erradas o que pesquisavam poderia causar muita destruição. As cenas seguintes do jogo mostram a médica Annah em meio a um pesadelo que lhe remonta sua infância, o detetive Bennet observando uma operação suspeita e Ray, um jornalista independente, descobrindo um bando de DNA ilegal gerido por uma organização chamada Antevorta. Quando Ed e Bennet descobrem o professor Morales moribundo em seu laboratório após uma suposta explosão ter atingido o lugar a história é colocada em seus trilhos. Unindo-se por diversos motivos, os personagens precisam encontrar o cofre secreto do professor e decidir o que fazer com a tecnologia Resonance. Por lembrar tanto algo que poderia estar num dos livros de Dan Brown, é claro que existe toda uma conspiração por trás do que está acontecendo.

Por si só essa é uma trama que não diz muito, no entanto, a forma como ela foi explorada no jogo, aliada à narrativa típica dos adventures point ‘n click, faz com que se sobressaia. Além disso, a personalidade dos protagonistas é muito bem explorada e com o tempo é muito provável que um jogador interessado se sinta conectado com os personagens. A trama da obra poderia até mesmo chegar a ser um tanto enfadonha não fosse o tratamento que os protagonistas recebem, mas da forma como tudo foi escrito, a história consegue chamar atenção tanto pelo que pode acontecer no decorrer de Resonance quanto pela personalidade e sub-plots de cada um dos personagens.

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A resolução do jogo e os gráficos pixelados podem ser um grande incômodo para quem prefere um visual mais moderno, contudo, para a proposta do jogo essa parte gráfica funciona muito bem. O início causa um pouco de estranheza pois fica bem aparente que o título usa uma tela de tamanho muito diferente – o que chega a causar alguns problemas na eventual necessidade de minimizar o jogo e verificar alguma outra coisa no computador –, mas a sensação não dura muito. Não é possível dizer que a arte pixelada de Resonance é linda, existem várias obras que conseguem alcançar uma beleza quase poética usando recursos semelhantes aos do jogo, no entanto, o adventure certamente tem uma personalidade própria, que consegue utilizar gráficos retrô mas ainda assim passar uma ideia de realismo dentro de seu universo. Isso quer dizer que os personagens não são caricatos, mas, na medida do possível de seus pixels, bem definidos.

Outra coisa que ajuda muito no storytelling de Resonance são as dublagens. Apesar de não haver nenhum grande dublador, elas são bastante competentes e os profissionais responsáveis conseguiram imprimir toda uma personalidade aos protagonistas. É muito fácil reconhecer quem está falando, mesmo sem apoio de auxílios gráficos – e eles existem no jogo – e ficam bem claros os maneirismos e modos dos personagens. Às vezes dá pra perceber que a atuação dos dubladores não ficou tão boa, mas em momento algum eles soam robóticos e apáticos. As passagens que envolvem interação entre os protagonistas são um dos pontos altos de Resonance e marcam o ritmo da narrativa junto ao gameplay.

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Quanto a essa jogabilidade, no entanto, não há muito a se dizer. Resonance é um típico adventure point ‘n click em que você vai guiando os protagonistas com o cursor e os manipulando para interagir com uma série de objetos e personagens para resolver situações ou enigmas. O jogo de Vince Twelve não tenta modificar esse molde já consagrado. Existem tentativas de inserir alguns recursos interessantes, como por exemplo o sistema de memória de curto e longo prazo dos personagens. No primeiro, ficam “gravados” alguns eventos do jogo ou do passado do personagem que podem ser revistos para se recuperar determinadas informações, enquanto no segundo é possível colocar qualquer coisa manipulável no jogo para ser referenciada e conversada com algum NPC. São mecânicas interessantes, verdade, mas não chegam a ser uma mudança tão intrínseca na jogabilidade, ou mesmo tão vital durante o jogo, para ser algo inovador dentro do gênero.

Resonance, portanto, é um jogo que não busca trazer nada de novo para o gênero. Como muitas obras indies dos últimos anos, seu maior objetivo é trazer de volta o sabor de certos jogos antigos que ainda possuem um público, muitas vezes carente. Nesse sentido, o adventure de Vince Twelve consegue ser um título bastante robusto, entregando por volta de 8 horas de um jogo interessante, ainda que simples. O jogo tem tudo para agradar aos que são fãs do estilo e, apesar de seus acertos não serem nada memoráveis, foi uma obra feita com esmero e competência. No fim das contas, é possível até mesmo para quem não é habituado ao retrô encontrar bons momentos no jogo e tirar algum tempo para apreciar sua história, seus personagens e quebrar a cabeça em seus puzzles.



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