
De acordo com o próprio , Ronin foi a oportunidade para Frank Miller, ainda jovem, extravasar todas as suas obsessões e seguir a sua carreira de maneira serena. Na verdade, durante a leitura deste material, não é difícil encontrar referências às obras que o autor apreciava. Vamos de “Lobo Solitário” até o universo de ficção científica de Moebius. Sim, temos que confessar que Frank Miller gostava de ótimos quadrinhos naquela época. Porém, o mais importante é vermos que Ronin é fruto do talento de um autor que conseguiu digerir estas referências para criar seu próprio universo. Um universo rico, niilista e duro, que acabou se desenvolvendo na mente do autor e serviu de referência para o seu trabalho com Batman e Sin City, obras mais famosas de Frank Miller.
Uma coisa que devemos reconhecer é que Ronin é um trabalho difícil de categorizar em um gênero específico. A história, que serviu de inspiração para Samurai Jack (sim, a animação do Cartoon Network), traz a luta de um guerreiro samurai e um demônio. Ela começa no Japão feudal e se estende para o futuro, o século 21. É uma história complexa com várias camadas de leitura, com o final deixando espaço para interpretação e análise do leitor.

Também vemos uma certa ousadia no tratamento geral da história, visto que Miller se recusa a usar integralmente o maniqueísmo. Assim, cada situação irá revelar uma certa ambiguidade, e, apesar da sua história trazer elementos fantásticos e demônios, o roteiro prefere se concentrar em uma linha mais complexa na resolução de seus problemas e se recusa a fazer qualquer julgamento moral sobre as escolhas e ações de seus personagens. Esta nebulosidade cresce com a narrativa e avança a um ponto que deixa invisível a linha entre a fantasia e a realidade.
Ronin é o laboratório de experimentos de Miller, que decidiu usar todas as influências possíveis para ver o que serviria para os próximos 15 anos. O autor reproduz de forma consistente e divertida vários clichês que são inerentes a uma obra deste porte. As bruscas quebras no tom são seguidas por sequências violentas de ação, mas apesar deste lado louco, Miller nunca perde de vista a história que quer contar. Ronin é uma história que funciona muito bem, é bem trabalhada e é cheia de reviravoltas inesperadas.

O caráter experimental também pode ser visto no visual. A parte artística, feita pelo próprio Miller com as cores de Lynn Varley, também trazem singularidade à obra. À primeira vista, o trabalho parece ser bem clássico e congruente com as obras que existiam na época. Entretanto, Miller usa quadros em que parece que ele deseja expressar a raiva, o improviso, a emergência e o dinamismo que cada situação oferece. Além de um aspecto cinematográfico impressionante, Ronin oferece uma ação brutal e extremamente fluída. Enquanto isso, Lynn Varley reforça o impacto de cada página com pinturas sujas e orgânicas, que servem à atmosfera existente na história.
Honra, traição, falsos pretextos, a fusão de realidade e fantasia, assim como uma mistura de ficção científica e contos fantásticos, tudo isso faz com que Ronin seja vista como uma obra sem compromisso. Ela possui uma narrativa tão rica quanto louca, principalmente do ponto de vista temático. Mas é uma obra que tem um visual impressionante e se revela como uma obra importante, exigente e inteligente. É um pequeno tour por dentro da mente criativa de Frank Miller. Altamente recomendada!
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