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Já faz quase um ano desde que surgiram as primeiras polêmicas sobre a nova condição do Capitão América. Começando seu trabalho com o título Capitão América: Steve Rogers, o roteirista Nick Spencer, que já estava à frente do título protagonizado por Sam Wilson um ano antes, em 2015, lançou logo no fim da primeira edição a mudança que foi tão comentada. Olhando de alto a baixo para o leitor, o icônico Capitão pronunciou as palavras “Viva a Hidra”.

Não era ironia, não era nenhum artifício de roteiro. A edição mostrava Steve Rogers traindo e assassinando um aliado e se revelando como membro da organização fascista que combatera por toda a sua vida. Os fãs entraram em revolta, mas as edições seguintes de Capitão América: Steve Rogers apenas cimentaram o fato, mostrando como o Caveira Vermelha havia sido responsável por reescrever a realidade (ou alterar as memórias de Rogers) e fazer do Capitão América um traidor de sua pátria e dos valores que ele sempre defendeu.

Com a vinda do evento Secret Empire (Império Secreto), em que culminam os planos de Rogers e da Hidra, as polêmicas se reacenderam, como se a coisa toda fosse uma grande novidade. A reação talvez não seja de se admirar; enquanto antes a nova condição de Steve Rogers ficava restrita à sua própria revista, agora ela está para ser revelada para todos os heróis enquanto o Capitão América domina o Universo Marvel em nome da Hidra. Uma história que pode ativar gatilhos nos puristas, mas por trás de suas polêmicas e discussões, Secret Empire #0 se mostra muito sólida e muito bem escrita.

A obra começa com um flashback no fim da segunda guerra mundial, em que Steve Rogers é encaminhado por Kraken a uma caverna secreta da Hidra repleta de elementos que lembram alguma religião antiga. Nela, segundo o vilão, está todo o poder da organização. Lá, de forma muito enigmática, Rogers conhece o homem que teria “Criado a Hidra à partir da lança”. O personagem logo explica para o Capitão que os aliados lançaram mão de seu último recurso. Estando perdendo a guerra, eles iriam usar o Cubo Cósmico para reescrever a realidade e fazer com que a Segunda Guerra terminasse como prega a História convencional, com a derrota dos nazistas. Steve Rogers descobre que ele seria a última cartada da Hidra, que precisaria se abrigar em uma fonte que o protegeria dos efeitos da mudança de realidade e o faria despertar em uma vida que ele nunca viveu, uma vida como vingador, mas com todas as suas lembranças e a possibilidade de restaurar a verdade e a glória da Hidra.

Este fragmento, que funciona como o prólogo de Secret Empire #0, foi o pivô de muitas das polêmicas. Muitos acreditaram que ele revelava que o Capitão América nunca havia sido um herói. Mas isso é desmistificado pela própria revista, que, na página seguinte, no resumo dos acontecimentos recentes, deixa explícito que “A realidade do Capitão América foi reescrita por Kobik, um cubo cósmico senciente, agindo sob a influência do Caveira Vermelha”. Tudo indica que Rogers sempre foi o personagem heróico que figurou em suas histórias, mas que apenas recentemente a sua existência foi alterada pelo seu maior vilão. Isso ainda deixa margens para discussões complicadas sobre a metafísica das realidades e das viagens no tempo, mas, efetivamente, o que fica claro é que o Capitão Hidra só passou a existir nos últimos dois anos de revistas.

E isso levou a uma história muito interessante.

Passado o prólogo, a história de Secret Empire mostra a que veio. Steve Rogers, no comando da SHIELD, organiza os heróis Marvel, até então amigos que confiavam nele, em três frentes. Alienígenas Chitauri tentam invadir a Terra, um bando de vilões muito poderosos ataca Manhattan, e a Hidra lança ataques simultâneos contra vários pontos dos Estados Unidos e do mundo. A situação é caótica, e o Capitão América é mostrado no posto de comando, coordenando os esforços, lutando para manter a logística necessária para manter os heróis vivos e triunfantes.

E Nick Spencer mostra um Capitão América magistralmente bem caracterizado. Ele inspira os colegas, mostra suas capacidades como soldado e general e lança um dos melhores discursos de sua carreira nos quadrinhos. “Mesmo que por uma última vez, preciso de vocês Avante” (tradução livre), diz ele, com o rosto sombrio. Misto de culpa e pesar. É uma frase que tem mais significado do que à primeira vista, porque o ponto chave da história é a caracterização do personagem enquanto um traidor que passou anos infiltrado.

Em Secret Empire #0, o Capitão América é um vilão. E talvez um dos melhores vilões que já figurou na Marvel, justamente por causa de todo o seu histórico. Mas ele não é daquelas figuras caricatas que subitamente revelam o seu plano e riem maniacamente enquanto contam como vão triunfar sobre os heróis. Ele está claramente numa encruzilhada, está convicto da filiação à Hidra e acredita estar no lado correto, mas a sua traição não tem menos peso para ele. Viveu uma vida como o herói Capitão América, convivendo com os heróis, em uma amizade duradoura com muitos, em romance com outros, como Sharon Carter. Um dos maiores triunfos está nisso. Steve Rogers tem a personalidade que sempre teve. Mas isso agora não é bom para o Universo Marvel.

Comparada com a arte de David Marquez em Civil War 2, o trabalho de Daniel Acuña não chama muita atenção logo no início. A arte parece até um pouco fraca para a grandiosidade do evento. Mas aos poucos ela se situa muito bem na trama, conseguindo trabalhar em conjunto com o roteiro para criar a atmosfera e tom que se fazem necessários. As cores de Rod Reis têm um papel imprescindível nisso. Os efeitos de sombra que ele cria contribuem muito para a caracterização do Capitão América, que é a grande estrela da obra. E ele é apresentado altivo, rígido e magnânimo, como sempre foi. Não há mudança aí. Só que, agora, isso tem uma conotação completamente diferente.

Tudo na HQ colabora para criar a atmosfera. O leitor sabe o que vai acontecer no final – a traição, a vitória da Hidra -, e a narração deixa claro isso desde o início, lentamente criando o clima e a tensão necessários para o momento derradeiro em que a verdade se manifesta e os heróis Marvel são derrotados. Não é uma revista recheada de ação; o objetivo dela não é adrenalina, mas uma narrativa dramática que carregue o peso da derrota e da traição. É cheia de diálogos e narrações, muito mais do que é costume atualmente; e tudo funciona muito bem, está muito bem alinhado para criar o efeito de que se precisa.

Como introdução ao evento, Secret Empire funciona muito melhor do que a primeira edição de Civil War 2: sem parecer que faltou nada em sua execução, e introduzindo uma história com potencial muito grande. É complicado fundamentar um plano vilanesco que neutralize de forma factível os heróis e permita a tomada dos Estados Unidos. Mas a forma como o Capitão e a Hidra arquitetaram sua doce – e paciente – vingança funciona de forma muito satisfatória. A história começa já com as ameaças em execução, mas isso não tira os efeitos de se estar vendo um “golpe de mestre” em execução. Os heróis são derrotados de uma forma que só o Capitão América conseguiria realizar.

Secret Empire #0 é uma HQ boa, bem desenvolvida e bem acima da média para o gênero. Toda a polêmica reacendida não vai mudar isso. A obra estabelece uma introdução muito boa para o Secret Empire, no qual a Hidra terá conquistado os Estados Unidos, e trabalha muito bem o momento da traição do Capitão América (Capitão Hidra?). É óbvio que a condição do personagem não irá se manter. A própria obra fala que Steve Rogers foi alterado pelo cubo cósmico a mando do Caveira Vermelha e qualquer fã de histórias em quadrinhos já deveria saber que o Capitão não foi um vilão esse tempo todo e que daqui a alguns meses voltará a ser o personagem e herói que sempre foi. Alguns poderiam argumentar que esse é um artifício rasteiro para chamar a atenção e vender. Sendo uma boa prática ou não, o trabalho de Nick Spencer trouxe novidades para um personagem antiquíssimo e apresentou uma ótima história. E, afinal, não é isso que conta?