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Essê mês a Panini traz às bancas de todo país o encadernado Shazam! – Com uma palavra mágica…, a aguardada reimaginação do personagem para a nova linha cronológica DC surgida em 2011 e batizada de Novos 52, sob a batuta da excelente dupla Geoff Johns e Gary Frank (Superman: Braniac). Em capa dura, papel LWC e acabamento de luxo, o encadernado está saindo ao custo de R$ 29,90, e compila toda a fase de Johns e Frank, que originalmente era publicada como uma espécie de apêndice da revista americana Justice League.

Apesar de ser um personagem com conceitos interessantíssimos e ótimas fases nos quadrinhos, o Capitão Marvel (agora rebatizado como Shazam) nunca chegou a ser um grande sucesso de vendas ou de público. Muito disso remonta dos primórdios de sua criação, quando nada mais era do que um conceito reformulado do próprio Superman, porém envolvendo magia. O que acabou fazendo com que para muitos, e por anos, o personagem fosse visto com um certo preconceito, sendo apenas “um Superman com poderes mágicos”. Johns então tenta atualizar o personagem para uma nova geração, com uma nova linguagem, mantendo ainda assim toda a inocência que é inerente ao personagem (afinal ele é uma criança), sem que aja qualquer descaracterização ao material de origem. É uma perfeita revitalização do personagem, tornando não apenas relevante no universo DC, mas também… único.

Na trama, somos apresentados a Billy Batson, o garoto que virá a se tornar o herói. E já nas primeiras páginas percebemos a primeira sacada de Johns, na introdução do conceito que servirá como a “moral” da história. Isso porque quando conhecemos Billy, ele nos passa a sensação de ser o bom e velho garoto órfão ridiculamente bondoso das histórias originais. Aquele arquétipo de menino tão bom que ajuda os velhinhos a atravessarem a rua, ajuda em causas sociais e é bom em todas as tarefas domésticas. Pois é, aquele conceito de bondade que só vemos em histórias, e que no fundo nos aborrece quando é tão caricatamente exagerado, simplesmente pelo fato de sabermos que aquilo não existe. Ninguém é tão santo. E é exatamente com isso que Johns brinca, pois ele no apresenta esse ideal de Billy, para na página seguinte desconstruir todo o conceito, mostrando que o garoto na verdade é rude, desagradável, mesquinho e… babaca. Sim, Billy Batson é muito babaca.

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A desconstrução do clássico personagem se faz necessária por dois motivos. Primeiro para mostrar que o ideal de um personagem completamente bondoso não existe, principalmente vindo de um órfão que já tomou tanta porrada da vida com tão pouca idade. E isso é algo que deixa marcas na personalidade. A segunda é pelo mote da trama, que envolve o Mago, uma entidade milenar que durante a história vem procurando um ser humano que seja digno do título de campeão da magia. O detentor do relâmpago, que irá suceder o Mago e proteger o mundo mágico.

O encontro de Billy com o Mago é o ponto alto da HQ, com um excelente diálogo entre os dois personagens. Ao ser considerado imperfeito (como vários outros candidatos testados antes), Billy questiona o método de escolha do Mago – que busca uma pessoa boa e pura de coração – e defende os seu argumento de que tal ser humano não existe. Como o garoto diz ao Mago, as pessoas são falhas, e por mais que tentem ser boas, sempre tem alguém aproveita isso para pisar e se aproveitar de seu semelhante. Diante de tal confrontamento, o velho percebe que esteve olhando para o lado errado, e que durante todo esse tempo deveria estar procurando nas pessoas a capacidade de tentar ser bom. Procurar agir com boas intenções, mesmo perante as adversidades.

E é assim que Billy Batson acaba sendo o detentor do trovão. Tendo acesso aos poderes mágicos do Mago ao apenas proferir uma simples palavra: Shazam! Aqui Geoff Johns faz uma outra desconstrução no personagem, porém uma que agradou bem menos aos fãs mais puristas do personagem. Isso porque teoricamente, Billy tem acesso aos dons de 6 deuses quando usa os poderes de Shazam: a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, o vigor de Atlas, o poder de Zeus, a coragem de Aquiles e a velocidade de Mercúrio. No entanto, o escritor parece ignorar esse fato em prol do roteiro, onde além de não citar tais características, ainda mantém Billy apenas como um garoto no corpo de um super-herói. Agindo como um garoto. Fazendo coisas bobas de garoto.

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Particularmente, a caracterização não me incomodou. A narrativa de Johns é fluída e o personagem faz sentido dentro da história tal qual ele é apresentado. Acaba fazendo parte do aprendizado de Billy, e um contraponto que mostra que mesmo que tenha tantos poderes, ele é ainda é um garoto que tem muito a crescer e evoluir. É a prerrogativa máxima de que não existe mágica que nos faça melhorar enquanto pessoas. É algo que vem com aprendizado.

E o aprendizado de Billy não demora, pois alheio às aventuras do nosso jovem protagonista, somos apresentados à versão Novos 52 do Dr. Silvana, clássico vilão dos quadrinhos do Capitão Marvel. Silvana é retratado de uma forma mais robusta do que sua contraparte pré-reboot, com uma roupagem que lembra mais um Lex Luthor genérico do que qualquer outra coisa. O cientista, frustrado com o fato da ciência – a qual dedicou sua vida – não ter sido capaz de salvar sua família, decide investir pesado na magia, o que o leva de encontro à tumba do Adão Negro, antigo detentor do relâmpago, escolhido e posteriormente aprisionado pelo próprio Mago, por se deixar corromper na busca pelo domínio total da magia.

E se existem roteiristas que simplesmente nasceram para escrever determinados personagens, Geoff Johns é o cara que está destinado a escrever o Adão Negro. Seja em sua passagem pelo título da Sociedade da Justiça, na maxissérie 52, ou aqui, Johns sempre entrega um Adão completamente cruel, decidido, impiedoso, e ainda assim dúbio. E aqui não é diferente. Por ser um quadrinho aparentemente mais voltado para novos leitores e com uma pegada até mesmo meio teen, não chegamos a ver as grandes questões filosóficas que envolvem o personagem, mas ainda assim temos excelentes momentos do vilão, principalmente nos debates verbais com Billy.

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De uma forma geral, Shazam! – Com uma palavra mágica… acaba sendo uma ótima aquisição não apenas para seus fãs, mas principalmente para quem não conhece ou nunca leu nada a respeito do personagem. Com um roteiro ágil e divertido em uma fórmula simples que lembra um filme voltada para a família, a HQ não perde o pique e chega ao seu final com uma trama 100% consistente e que ainda abre possibilidades para uma possível série regular do herói.

Lembrando que um filme do personagem Shazam já foi anunciado pela DC Comics para fazer parte de seu universo cinematográfico, trazendo o astro Dwayne “The Rock”Johnson como o vilão Adão Negro. E é muito provável que esse encadernado sirva como base para a história do longa.

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Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.


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