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O universo dos videogames é cíclico, mas poucas franquias flutuam tanto entre o culto absoluto e o limbo editorial quanto a equipe espacial da Nintendo. Quando Fox McCloud fez uma aparição surpresa no filme de Super Mario Galaxy, a comunidade foi à loucura. A adaptação fez justiça ao piloto e alimentou rumores legítimos de um universo cinematográfico próprio. O anúncio de Star Fox para o Nintendo Switch 2 parecia o alinhamento perfeito de eventos para o retorno triunfal da marca. No entanto, a execução nos deixa com um sentimento misto. Estamos diante de um primor técnico, uma verdadeira conquista da Nintendo, que impressiona e introduz Star Fox para uma nova leva de fãs, mas que decide olhar para o passado ao invés de desbravar o futuro com uma história totalmente inédita.

A Velan Studios entrega uma reimaginação robusta e belíssima de Star Fox 64. O estúdio expande o clássico com o poder do novo hardware, mas deixa claro que a franquia precisa urgentemente de novos rumos. A grande novidade narrativa desta versão é humanizar a equipe e ir direto ao ponto. O jogo estabelece seu tom cinematográfico logo no início, mergulhando na lore da série com uma profundidade inédita. Somos apresentados ao sacrifício heróico de James McCloud no planeta Venom, traído por Pigma Dengar diante de um jovem Peppy Hare. Essa sequência de flashback estabelece um contexto dramático excelente que os remakes anteriores não tinham.

A caracterização deixa claro que eles não são heróis galácticos altruístas. Embora Fox tenha um passado pessoal com o vilão Andross, a equipe entra na luta movida por um contrato da resistência de Corneria. Essa demonstração traz frescor à narrativa, Isso fica ainda melhor para o público brasileiro, já que a história ganha contornos muito superiores na cabine de comando. A localização e a dublagem em português do Brasil estão simplesmente espetaculares.

Isso mostra de forma definitiva como a Nintendo vem investindo pesado em nosso mercado editorial de jogos. O trabalho dos dubladores nacionais dá a expressividade que eu acredito que falta no áudio original em inglês. Ouvir as piadas, os comandos táticos e o clássico comando para fazer uma acrobacia com sotaques locais eleva absurdamente a imersão. Esse carinho com o público brasileiro reforça o posicionamento da marca no país e transforma a experiência de acompanhar o Holovisor e as transmissões de rádio no ponto alto da atmosfera do game.

Visualmente, o salto proporcionado pelo hardware do Nintendo Switch 2 é estonteante. O Sistema Lylat nunca esteve tão bonito, fazendo uso excelente de HDR e áudio sem igual. O design artístico optou por um realismo antropomórfico que causa estranheza inicial nos trailers. No entanto, o visual convence totalmente após algumas missões graças ao nível absurdo de detalhes nas texturas e expressões faciais. A jogabilidade de combate aéreo sobre trilhos permanece cirúrgica. As fases são recriações quase literais do clássico de 1997, mantendo as rotas alternativas e os requisitos de pontuação intactos. O game inclusive exibe abertamente os requisitos para acessar os caminhos secretos, facilitando a vida dos novos pilotos.

O grande diferencial tecnológico está nos novos esquemas de controle. Jogar com o Pro Controller oferece uma experiência excelente, muito melhor que nos Joy-Cons. Contudo, o modo de mira utilizando os Joy-Con como um mouse é algo que revoluciona a jogabilidade. Essa configuração oferece uma precisão milimétrica perfeita para a busca de recordes de pontos e medalhas, lembrando a evolução vista em Metroid Prime 4: Beyond. A mira aprimorada não diminui o desafio do título. O jogo continua tão difícil quanto o original. O nível de dificuldade Normal garante muitos momentos eletrizantes.

O pacote de conteúdo se estende com o robusto Modo Desafio, dividido entre as dificuldades Normal e Expert. Ele exige o cumprimento de metas secundárias severas em cada planeta, estendendo consideravelmente a vida útil do modo campanha. Essas tarefas incluem limites de tempo rigorosos, impedir que robôs destruam prédios em Corneria ou caçar tipos específicos de inimigos. O jogo avisa em tempo real se você cumpriu ou falhou no objetivo, o que estimula a repetição constante típica dos clássicos de arcade. Para os completistas, há uma quantidade enorme de colecionáveis e medalhas para desbloquear.

O modo cooperativo local na campanha oferece uma dinâmica curiosa, dividindo as funções da Arwing. Enquanto um jogador pilota a nave, o outro atua como artilheiro e controla os disparos. Essa mecânica diverte nas primeiras missões, mas tende a ficar monótona se os jogadores não alternarem os papéis com frequência.

O modo multijugador competitivo foi reformulado com batalhas 4v4 entre o Team Star Fox e o Team Star Wolf. Os jogadores lutam para conquistar áreas, coletar energia de asteroides ou escoltar cargas preciosas. Quando faltam jogadores humanos, a inteligência artificial preenche as vagas com bots, embora eles não ofereçam o mesmo desafio de um adversário real. O multiplayer online sofre com a falta de conteúdo profundo no lançamento, apresentando apenas três mapas e modos de jogo. Isso pode enjoar rapidamente se a Velan Studios não trouxer atualizações robustas de conteúdo e novos mapas futuramente.

Como compensação, o jogo aproveita os recursos do ecossistema do Switch 2 para tornar o multijugador mais social. O sistema GameShare permite compartilhar a sessão de jogo com outros consoles localmente, incluindo o Nintendo Switch da geração anterior. Já o modo online exige o uso de consoles Switch 2 e integra-se ao GameChat, permitindo comunicação por voz e compartilhamento de tela. O recurso mais curioso é o uso de filtros de realidade aumentada na câmera. Você pode aparecer na tela dos seus aliados como Fox McCloud ou usar filtros com as orelhas e o bico de Falco durante as transmissões de rádio no meio da batalha.

A trilha sonora merece um destaque isolado pela qualidade excepcional. As composições originais de Koji Kondo e Hajime Wakai foram totalmente modernizadas com arranjos orquestrais primorosos. O resultado entrega uma atmosfera cinematográfica que remete diretamente às grandes óperas espaciais do cinema como Star Wars. É uma verdadeira pintura acústica que evoca nostalgia instantânea e justifica a presença das faixas no aplicativo Nintendo Music. O trabalho técnico da Velan Studios no Viper Engine prova que o estúdio possui capacidade de sobra para comandar títulos de grande porte na nova geração da Nintendo.

Veredito

O novo Star Fox é um triunfo técnico e mecânico. Ele serve como o modelo perfeito do que a Nintendo pode fazer visualmente com o hardware do Switch 2, entregando uma experiência arcade impecável e uma localização brasileira memorável que dita o novo padrão do mercado. Contudo, reutilizar a estrutura de Star Fox 64 pela terceira vez deixa um gosto de oportunidade desperdiçada para a evolução da lore. É um recomeço seguro e essencial para a biblioteca do novo console, mas que deixa os pilotos veteranos olhando para o horizonte, esperando pelo dia em que a Arwing finalmente viajará para quadrantes nunca antes explorados.

Star Fox será lançado oficialmente no dia 25 de junho, disponível exclusivamente para o Nintendo Switch 2. O código para esta análise foi gentilmente fornecido pela publisher.

Star Fox
  • Desenvolvedora: Velan Studios
  • Publisher: Nintendo
  • Plataformas: Nintendo Switch 2
  • Review feito no: Nintendo Switch 2
Positivo
  • Atualização gráfica deslumbrante que extrai o verdadeiro potencial do Nintendo Switch 2.
  • Localização e dublagem em PT-BR excepcionais, evidenciando o respeito da Nintendo pelo mercado brasileiro.
  • O Modo Mouse com os Joy-Cons traz precisão cirúrgica e renova a jogabilidade clássica.
  • Trilha sonora orquestral rearranjada de forma épica e cinematográfica.
  • Inclusão do sistema GameShare facilita o multiplayer local e online com amigos.
Negativo
  • Ausência de fases inéditas na campanha principal, tornando a jornada curta.
  • Modo multiplayer competitivo possui pouca variedade de mapas e modos no lançamento.
Nota 9
Sou o Fundador do site Ovicio, Overplay e Muramasa. Fui idealizador e Game Designer do jogo Vencedor da DemoNight no BIG Festival 2014, o Jotunheim Project. Escolhido como Jurado do Anime Awards em 2024 e 2025. Amo games, sou fã de God of War, Dragon Quest, Fire Emblem, The Legend of Zelda e Pokémon. Coleciono livros, quadrinhos e guitarras.