A desenvolvedora Massive Damage Inc já havia trabalhado com um estilo de estratégia e RPG em seu jogo, Halcyon 6, de 2016. A obra abordava uma proposta sci-fi em que o jogador precisava gerenciar uma estação espacial no maior estilo Star Trek, explorar, e combater toda sorte de ameaças espaciais. O novo jogo do estúdio, Star Renegades, mantém a temática da ficção científica, construindo em cima do que a Massive Damage já estabelecera em seu título anterior, mas se focando muito mais no aspecto estratégico dos combates. Elevando as lutas estilo JRPG a uma confrontos táticos bastante tensos e cheios de nuances, onde seu aspecto roguelike é importante e muito bem atrelado às mecânicas do jogo.
A história de Star Renegades é simples. Um Império Maligno pandimensional está conquistando universo após universo. É impossível enfrentar essa inimigo de forma direta, então um pequeno grupo de operativos é montado para prejudicar as bases e operações do Império. Cabe a esses heróis enfrentar forças muito maiores do que eles, conforme vão reunindo mais recursos e aliados. Caso falhem, seu universo estará condenado… mas ainda poderão enviar para o universo seguinte as informações que coletaram, dando maiores chances de sobrevivência à próxima realidade que será atacada.
O jogo monta todo o seu gameplay com base nessa premissa, que apresenta uma campanha bastante direta, embora que difícil. O jogador começa com três personagens e então precisa derrotar os planos dos Império em três planetas diferentes antes de poder enfrentar a base mãe desse inimigo tão poderoso. Ao longo desse trajeto, é necessário tomar diversas opções estratégicas, que vão ajudar ou condenar a tentativa de vitória.
Cada planeta ocupado pelo Império conta com diversos tenentes inimigos, pelo menos um comandante e um behemoth, que seria o grande chefão do planeta. Todas essas “fases” seguem a mesma estrutura. O jogador tem 3 dias para explorar o local, coletar recursos e ganhar experiência (chamada no jogo de DNA) para evoluir seus personagens. Dentro desses 3 dias, é possível explorar 3 novas áreas, que podem conter uma luta contra inimigos normais ou contra um oficial, podendo apresentar ou não algum tipo de recurso para o jogador coletar. Ao desse período, começa a batalha contra o behemoth. Dessa forma, o jogo cria a necessidade do jogador planejar seus passos e gerenciar seus recursos para estar em uma boa situação para enfrentar esses chefes obrigatórios.
É uma mecânica com proposta bastante simples, mas que pode ser difícil de gerenciar de forma otimizada. Como os personagens do jogador não recuperam saúde e nem armadura após as batalhas, é preciso ponderar muito bem quais batalhas enfrentar, para ganhar xp e recursos, e como abordá-las, para evitar gastar as estatísticas dos personagens e estar despreparado. Ao fim de cada dia, começa uma fase de acampamento, em que é possível usar habilidades específicas dos personagens para curar uns aos outros e conceder bônus. Tudo limitado, claro, sempre criando decisões difíceis, como tudo no jogo.
Esse sistema funciona muito bem, e faz com que o jogador precise realmente se planejar enquanto avança pelos planetas até enfrentar seus chefões. É tudo uma questão de saber avaliar os riscos e as recompensas. Inimigos mais poderosos, como os tenentes, fornecem mais recompensas em DNA e equipamentos, além de poderem estar em caminhos que o jogador pretende tomar. Em geral, vão ser justamente esses oficiais que podem dizimar o grupo do jogador, fazendo com que ele tenha que recomeçar o jogo em outra realidade, mas dessa vez podendo comprar alguns aprimoramentos e novas opções com a “intel” que conseguiu acumular vencendo inimigos e oficiais.
Nessa nova tentativa em uma nova realidade, o jogador pode escolher seus personagens iniciais, liberar novos, e assim estar melhor preparado para a nova busca por derrotar o Império. O jogo em si não muda quando isso ocorre, pelo contrário, os planetas permanecem praticamente seguindo a mesma proposta, com algumas poucas mudanças, os inimigos não se alteram, sendo os velhos conhecidos do jogador. Há um dinamismo no que toca os oficiais, que seguindo o estilo de Shadow of Mordor podem ser promovidos e aprimorados quando conseguem derrotar o grupo anterior do jogador, criando um nêmesis que ele pode precisar enfrentar novamente em algum momento. Essa dinâmica poderia ficar repetitiva e tediosa muito rápido, não fosse o principal investimento do game design de Star Renegades: os combates.
De longe, os combates de Star Renegades são sua grande força. A Massive Damage Inc utiliza a base das lutas de RPGs japonesas e cria uma dinâmica única e completamente focada na estratégia. O jogo conta com mais de 10 personagens e cada um deles tem habilidades completamente diferente uns dos outros. Não existe nada como “ataque normal” e uma lista de magia compartilhada pelos membros da party. Cada personagem apresenta, além de estatísticas bastante diversificadas, habilidades exclusivas e apropriadas para diferentes estratégias.
Mas isso é só o começo do sistema de combate impressionante do jogo. As lutas de Star Renegades contam com vários elementos e informações a se considerar. Não existem turnos. O jogador escolhe os seus golpes de antemão e eles ocorrem simultaneamente aos dos inimigos, cada um em sua velocidade apropriada. Quando alguém é acertado antes de poder atacar, seu próprio movimento é atrasado para um momento posterior da luta, podendo chegar ao ponto de ser completamente cancelado caso o personagem sofra um “break” após receber ataques disruptivos. Diferenciações entre ataques leves, médios e fortes, além de poderem possuir ou não elementos, perfurarem escudo ou armadura, funcionarem de forma diferente a depender de quando acertam o inimigo e uma série de condições adversas completam o estilo da luta.
Uma das grandes sacadas do jogo, que possibilita todo o seu potencial estratégico, é que quando vai escolher os movimentos de seus personagens, o jogador pode examinar os inimigos e saberem exatamente quais ataques usarão, quando são os seus ataques e quais personagens eles terão como alvo. À primeira vista isso pode parecer que as lutas são chatas porque o jogador já sabe o resultado, mas é muito pelo contrário. Justamente por ter esse conhecimento, é possível planejar quais movimentos serão feitos pelo personagem, transformando a luta em uma verdadeira batalha tática tentando frustrar os planos dos inimigos do computador. Devido à complexidade a quantidade de opções desses combates, o jogador precisa ponderar suas ações com cuidado, pois os inimigos contam com golpes poderosos e um erro de cálculo pode acabar custando muito.
Com batalhas contando com 6 personagens e podendo chegar a também 6 inimigos, Star Renegades apresenta momentos realmente épicos, em que o jogador precisa encarar os combates com cuidado, quase como se fossem quebra-cabeças bastante complexos em que erros e desatenções podem pôr tudo a perder. Como vários elementos do jogo são feitos de escolhas, todas elas acabam desaguando nas batalhas, e esses confrontos nunca são eventos fechados em si mesmo, mas parte de um fluxo que é afetado pelas escolhas passadas e determina os possíveis caminhos futuros. É um sistema inteligente e bem montado, em que é preciso ponderar cuidadosamente os movimentos, pois eles trazem impactos no futuro. Caso o jogador seja derrotado, bem, ele pode tentar na realidade seguinte.
Star Renegades é uma obra excelente, que consegue trazer um sistema de combate de estratégia e RPG de alta qualidade para a fórmula rogue like. Construindo em cima das fundações de Faster Than Light, Into the Breach e de Halcyon 6, da própria desenvolvedora do jogo, esse título se mostra uma criação sólida e muito competente, e com certeza vai maravilhar os fãs do estilo. No entanto, tamanha é a competência de seu sistema de combate que acaba trazendo um pensamento para além do gênero que ocupa, e muitos jogadores devem ficar se perguntando como não seria interessante ver o combate do jogo em um RPG mais tradicional, com uma campanha espacial cheia de história e reviravoltas, em vez de um jogo mais voltado para a estratégia e com uma trama tão abreviada.
- Combates excelentes
- Gráficos minimalistas interessantes
- Batalhas belíssimas
- Pouca história
- Mecânicas roguelite repetitivas





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