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Todd Howard é um cara curioso. Diretor e produtor executivo da Bethesda, ganhou fama (para o bem e para o mal) por suas declarações nas apresentações dos jogos da empresa, que ficam ali na linha tênue entre a inocente empolgação e a hipérbole forçada. Com Starfield não foi diferente, afinal o jogo teria levado 25 anos para ficar pronto, e de uns tempos para cá ele já diminuiu para 10. O número de planetas também deu uma diminuída, mas falo sobre isso logo mais.

Quando Starfield foi anunciado, ali na longínqua E3 de um 2018 pré-pandemia (parece até outra vida), ninguém imaginava que a Bethesda seria comprada pela gigante Microsoft apenas dois anos depois. O que inicialmente era só “o jogo espacial do estúdio de Skyrim e Fallout” de repente se tornou “o exclusivo do Xbox que vai inflamar a guerra de consoles”. 

Uma tarefa ingrata para Starfield, que (mesmo com os delírios mais empolgados de Todd Howard) nunca precisou do peso de qualquer tipo de pretensão. Mas de qualquer forma, independente das expectativas geradas por donos de Xbox ou por amantes dos mundos anteriormente criados pela Bethesda, Starfield chega fazendo barulho.

Starfield
Reprodução/Bethesda

E eu não sei se a culpa é da Bethesda, do Howard, do Xbox ou da base de fãs, mas o fato é que Starfield pode acabar decepcionando muita gente. Não, calma. O jogo não é ruim. Na verdade, aqueles que já conhecem a “fórmula Bethesda” de fazer RPG vão se deliciar no game. A questão toda aqui é: que tipo de jogador você é?

Uma Odisséia no Espaço (ou não)

Vamos logo tirar o elefante da sala. Desde que começou a intensificar o marketing de Starfield, a Bethesda bateu insistentemente na tecla da exploração espacial. Não demorou para a frase “mil planetas para explorar” tornar-se um mantra para Todd Howard (embora mais tarde o próprio tenha esclarecido que, bem… não eram exatamente mil planetas, mas sim cerca de 100 criados pela equipe e todo o restante criado de forma procedural pela IA do game).

Portanto, é curioso que a exploração espacial de Starfield seja… decepcionante. Não há outra palavra para descrever. O problema começa no fato da sua nave espacial servir apenas basicamente para decolar para o espaço e pousar em algum espaçoporto, não podendo ser utilizada para sobrevoar os planetas. Assim, a exploração se dá sempre a pé, sem qualquer tipo de veículo que possa acelerar a locomoção. E aí é que vem o problema principal: você vai andar, andar, andar… e vai ver sempre o mesmo cenário desolador (porque inclusive todos os planetas são extremamente parecidos). 

Reprodução/Xbox

Funciona da seguinte forma: os principais planetas de cada sistema solar – aqueles onde você vai encontrar linhas de quests principais e secundárias – tem uma pequena cidade ou entreposto. E você.só.pode.pousar.ali. Em cada uma dessas cidades, como Nova Atlântida, Neon e Akila, é onde você vai encontrar as missões do jogo, ficando muitas vezes por algumas horas dentro de cada uma delas para resolver os inúmeros problemas que são apresentados ao seu personagem. O jogador que estiver disposto a fazer todas as missões logo irá perceber que passará muito mais tempo dentro das cidades do que fato singrando o espaço.

A exploração não é sequer incentivada. Não apenas porque fora das cidades não existe nada a se ver, mas também pelo fato de que, seguindo as questlines, sejam da história, paralelas ou das facções, você eventualmente conhecerá todos os principais planetas. É quase “perda de tempo” pegar sua nave, ir em algum planeta aleatório e tentar bancar o explorador. 

O Ponto Forte da Bethesda

É por isso que volto a frisar que é muito importante o tipo de jogador que você é, seu histórico com a Bethesda e, mais importante do que qualquer coisa: o que você espera de Starfield. Porque a fama da Bethesda em RPGs ocidentais não foi criada sem um motivo. Skyrim não é um dos jogos mais vendidos de todos os tempos por um acaso. A Bethesda sabe fazer bons jogos. E o foco deles sempre esteve em dois principais pilares: construção de narrativa e crafting. Exploração nunca foi o forte (por isso sempre me chamou atenção o foco intenso nesse aspecto em particular quando se tratava de Starfield).

Se você só se interessou em Starfield pelo aspecto da suposta exploração espacial, querendo pegar sua nave, juntar sua tripulação e sair por aí desbravando planetas e se perdendo no cosmos… bem, acho que você pode se decepcionar. Mas para quem tem mais interesse em seguir a campanha principal, sem muitos desvios, aproveitando para conhecer cada cantinho da lore de Starfield através das missões secundárias e de facções… você está diante de um dos melhores jogos que a Bethesda já produziu.

Reprodução/Xbox

A história de Starfield, envolvida em mistério até hoje por ser realmente um grande spoiler, é bem interessante e mantém o jogador engajado. Mas o jogo brilha mesmo a partir do momento em que você decide “vivê-lo”. Missões secundárias podem ser encontradas em todas as cidades do game, mas um aspecto de grande destaque são as questlines que envolvem as diferentes facções de Starfield.

Essas facções não apenas são bastante particulares e interessantes, como também suas histórias se intercalam com a do mundo maior do game. A lore de Starfield é riquíssima, e ela se desenvolve justamente através dessas missões. Seguir a história principal vai te conduzir pela trama envolvendo o protagonista do game e o mistério que ele precisa desvendar, mas são todas as outras que realmente te deixarão imerso naquele universo.

Nesse ponto, aliás, dá para observar um amadurecimento da empresa em relação aos seus projetos anteriores. Existem mais escolhas, mais facções, mais opções de caminhos a seguir. E não apenas isso, há mais peso nas suas decisões. Sem entrar em zona de spoilers, mas até mesmo a vida dos seus companheiros não está segura, e uma escolha errada pode colocar sangue amigo em suas mãos. 

Reprodução/Bethesda

Aliás, esse é provavelmente o jogo da Bethesda com o maior número de missões, facilmente. Há muito o que fazer e muitos caminhos a seguir, afinal estamos falando não apenas de um mundo aberto, mas de diferentes galáxias, onde cada um dos principais planetas tem uma cidade recheada de personagens interessantes vivendo suas vidas e envolvidos em tramas que vão de simples serviços de proteção a elaboradas investigações de corrupção. É a Bethesda em seu melhor, entregando o desenvolvimento de mundo que tornou seus jogos referência na indústria no que se refere a RPGs ocidentais.

Tiros em uma galáxia distante

Porém, é importante dizer que essa familiaridade que nos traz aquele sentimento de “ok, isso é um jogo da Bethesda” nem sempre é positiva. Vamos lá, Starfield usa a Creation Engine 2, uma versão “aprimorada” da mesma engine que a empresa usou em Skyrim e em Fallout. Sim, estamos falando de uma engine que a Bethesda usa desde 2011. E por mais que ela conte com nova física, novas mecânicas e um novo sistema de IA, isso vem com um preço.

A sensação é a de que Starfield parece fruto de algo produzido em uma geração anterior. Embora existam sim melhorias de gameplay, como uma boa experiência (finalmente) tanto na perspectiva em primeira pessoa quanto em terceira, todo o resto parece datado. A mecânica de combate é funcional, mas é bem limitada, com armas que não trazem muita diferença de um para outra exceto seu nível de dano. Inimigos se comportam de maneira errática e estranha, com uma inteligência artificial que beira o risível, e os combates acabam rapidamente se transformando em um estranho jogo de quem erra mais, já que a sua mira também é bem pouco precisa.

Reprodução/Xbox

E por falar em inteligência artificial, é onde acho interessante bater na tecla de que a Creation Engine 2 tem pouca diferença para sua antecessora. Todos os personagens se comportam ao melhor estilo Skyrim, ou seja, como bonecos sem vida. Não interessa se o personagem está contando a você a triste história de sua vida ou prestes a morrer na sua frente, a emoção em seu rosto será sempre algo bem próximo das 62 expressões faciais da robô Sophia. 

Essa limitação se estende para situações que vão além de interações sociais. Seus companheiros, por exemplo, tem uma inteligência artificial baixíssima, constantemente se jogando na frente da linha de tiro ou simplesmente ficando perdidos em algum lugar enquanto você combate sozinho. E como estamos falando de um jogo da Bethesda, sim, eles também aparecem aleatoriamente ao fundo quando você está conversando com alguém, derrubam elementos do cenário, e tem a péssima mania de atravessar objetos e ocupar o mesmo lugar que eles de uma forma que a física considera impossível.

“Acho que buguei”.

Infelizmente, a coisa não melhora quando estamos no controle da nossa nave – que curiosamente também foi um ponto que a Bethesda deu bastante foco em toda campanha promocional do game. Embora conte com algumas sacadas bem interessantes, como a mecânica de direcionar energia para diferentes sistemas – como por exemplo desligando os motores para potencializar seu poder de ataque – o gameplay de nave é pouquíssimo explorado no game. 

O sistema de construção ao qual a Bethesda é tão apegada é bem utilizado nas naves, e realmente é possível construir a sua do seu jeito, desde que respeitando algumas diretrizes específicas que são necessárias para que o seu projeto consiga decolar. Porém, embora essa seja uma parte bem divertida do jogo (que nem todo mundo vai querer fazer), ela acaba não compensando. Isso por que, conforme já citado anteriormente, sua nave só serve para duas coisas primárias: decolar de um planeta e pousar em um planeta – e as duas coisas são feitas de forma mecânica, usando o mapa estelar.

Tirando isso, entre um salto gravitacional ou outro, você pode encontrar piratas espaciais que vão te atacar – o que gera algumas batalhas que são… bem simples, na verdade. Esses confrontos só oferecem algum desafio em missões específicas que contam com alguma batalha espacial, pois estas oferecem um maior número de naves inimigas ao mesmo tempo. No entanto, como o sistema de batalha não é nada divertido, esses momentos acabam sendo só enfadonhos e a parte mais fraca de todo o game.

Reprodução/Bethesda

A importância de saber o que esperar

Embora tenha suas várias limitações e peque ao não entregar excelência no que deveria ser o seu grande diferencial, Starfield ainda é um jogo bem sólido, onde suas qualidades compensam as suas falhas. Não é difícil gastar horas e mais horas infiltrado em um grupo pirata enquanto passa informações como um espião de um órgão governamental, ou investigando o misterioso aparecimento de criaturas alienígenas que colocam a humanidade em perigo de extinção – e olha que esses dois exemplos são de missões secundárias!

Voltando ao início do texto, tudo depende de uma questão de expectativa, conhecimento prévio dos jogos da Bethesda e, é claro, seu foco enquanto jogador. Starfield tem tudo para figurar entre os grandes jogos da Bethesda, oferecendo centenas de horas de gameplay e uma infinidade de missões, caminhos e escolhas. 

Os tão famigerados 30fps não fazem diferença no gameplay, como já era bem óbvio, afinal toda essa discussão por framerate não faz o menor sentido e é só choro sem sentido. No entanto, devo dizer que percebi algumas pequenas quedas em locais com alta intensidade de texturas, como a cidade de Akila. Porém, nesse ponto é importante deixar claro que joguei as minhas 60 horas de gameplay para esse review em um Xbox Series S, e o monstrinho consegue aguentar bem o rojão, embora especificamente nessa já citada cidade, exista uma clara falta de texturas, conforme exemplificado pela imagem abaixo.

Minha dica para aqueles que tem interesse em jogar Starfield, é entrar de cabeça na lore do game sem pensar muito em ser o explorador espacial que o jogo vendeu até aqui. Às vezes, para curtir devidamente um jogo da Bethesda, é preciso se distanciar um pouco dos comentários empolgados de Todd Howard e entender o jogo como ele realmente é. A experiência é sempre muito mais satisfatória.

Leia mais sobre Starfield:

Starfield é o primeiro novo universo em 25 anos da Bethesda Game Studios, os criadores premiados de The Elder Scrolls V: Skyrim e Fallout 4. Neste RPG de próxima geração ambientado entre as estrelas, você poderá qualquer personagem que quiser e explorar com liberdade enquanto você embarca em uma jornada épica para responder ao maior mistério da humanidade.

Starfield
  • Desenvolvedora: Bethesda Game Studios
  • Publisher: Microsoft
  • Plataformas: Xbox Series X|S e PC
  • Review feito no: Xbox Series S
Nota 8
Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.