Dando seguimento à excelente fase de Geoff Johns à frente do Superman, há pouco tempo a Panini nos brindou com Superman: Brainiac, terceiro encadernado surgido da parceria do escritor com o desenhista Gary Frank, que costuma desenhar o Homem de Aço com as feições do ator Christopher Reeve, famoso por ter interpretado o Superman nos cinemas nas décadas de 70 e 80. Os volumes anteriores da dupla são Superman: Origem Secreta, e Superman e a Legião dos Super-heróis, ambos já publicados pela editora. Nesse volume de 130 páginas que compila as edições de #866 a #870 da revista Action Comics, vemos um dos melhores encontros do azulão com um de seus maiores inimigos: Brainiac.
Assim como fez no Lanterna Verde e como já estava fazendo no Superman desde O Último Filho, Johns vinha inserindo diversos conceitos antigos do personagem enquanto avançava com a cronologia, reincorporando elementos já abandonados ao cânone enquanto remodelava outros de uma forma mais moderna e até mesmo mais crível para os leitores deste século. E aqui não é diferente. Johns costura uma relação entre Brainiac e Superman, tornando-o responsável pela destruição do planeta Krypton, ao mesmo tempo que traz de volta o conceito da cidade engarrafada de Kandor.
Desde o início fica claro o quanto Johns é um apaixonado pela Era de Prata, quando percebemos que ele traz para sua história diversos conceitos antigos da cronologia do personagem, mas que andavam meio esquecidos na época da publicação da história (2008). Perceber essa tendência vinda do escritor é até um pouco contraditória, afinal ao mesmo tempo em que procura manter elementos clássicos em suas histórias, Johns é um dos autores que mais trazem novidades para o cânone dos personagens em que trabalha. Vide sua pa
Por mais que as vezes seja interessante – e necessário – dar uma sacudida no status quo dos personagens e tirá-los de sua zona de conforto, ainda é muito gostoso de se ler típicas aventuras com o Superman utilizando todos os conceitos clássicos do personagem. O fato de ser com o Superman torna a experiência ainda mais atraente, como se o personagem por si só emanasse toda uma aura de nostalgia, evocando essa necessidade de se manter intocável o seu background histórico que – pelo menos para mim – nunca se torna datado.
Além do núcleo do Planeta Diário, outro dos elementos que servem para humanizar Kal-El trazendo o toque terráqueo essencial para a humanização do personagem (ao lado de Lois Lane) são os seus pais, Jonathan e Martha Kent. Isso aliás, é uma das coisas que considero um erro na reinicialização do personagem pela DC sob o selo Novos 52 em 2011, onde os pais adotivos de Clark já estão mortos quando ele inicia sua vida em Metrópolis. Tal decisão acaba por diminuir a humanidade do Homem de Aço, que além de não ter os pais para o aconselharem quando se vê em dúvida (algo tão recorrente em suas melhores histórias) também não possui um relacionamento com Lois Lane. Talvez seja por isso que a nova versão do personagem esteja tão distante dos leitores, e sendo criticado justamente por ser retratado sempre como um super-ser onipotente. Mas falarei mais a respeito disso em um futuro texto.
Aqui, assim como em O Último Filho, são a seus pais que Clark recorre quando precisa de conselhos. A participação dos Kent na história acaba sendo de suma importância, pois trazem na conclusão da história um importante ensinamento, de que nem mesmo o Superman – por mais que salve o planeta inteiro – consegue proteger todas as pessoas. E aliás, a sequência final do quadrinho dá um banho em uma determinada cena do filme O Homem de Aço (2013).
Ainda dentro desse quesito que evoca a Era de Prata do herói, temos uma importante participação da Supergirl na história. Ela, que havia sido limada da cronologia do personagem após Crise nas Infinitas Terras e inserida novamente por Jeph Loeb em 2004, age na história exatamente no ponto contrário aos pais de Clark e a Lois. A prima do Superman traz para a trama o lado mais kryptoniano, deixando bem explícito para o leitor na narrativa o quanto Kal-El é um ser pertencente a dois mundos. Essa quebra de tom é excelente, e Johns não se perde. Quando vemos o personagem com os pais ou no Planeta Diário, ele é o humano Clark Kent. Quando está com Supergirl na Fortaleza da Solidão, ele é um alienígena tentando aprender mais sobre o seu mundo.
Isso porque, ao contrário dele, que veio ao planeta Terra quando ainda era um bebê, Kara foi enviada já adolescente, e portanto vivenciou Krypton e tem memórias claras de seu planeta natal. Tal experiência faz com que Supergirl fique desesperada quando descobre que seu primo fez contato com Brainiac, e é onde descobrimos que o terror da personagem vem do fato de ter presenciado o ataque do vilão à cidade de Kandor, e consequentemente… a destruição de Krypton.
Além de inserir o conceito de que Brainiac foi responsável pela destruição do planeta, Johns ainda estipula que todas as vezes em que Superman enfrentou o vilão, esteve apenas lutando contra uma de suas sondas. O Homem de Aço esteve durante anos enfrentando apenas a programação do coluano, e nunca o seu corpo original. Johns eleva à enésima potência o fato de Brainiac ser um colecionador de mundos, estipulando que o modus operandi do vilão é o de engarrafar uma cidade específica de seu alvo, e atacando o sol do planeta em seguida para destruir o planeta. Dessa forma ele se torna então o único detentor no universo daquele conhecimento agora extinto. Sendo assim, obviamente, a existência de um kryptoniano andando por aí é algo inadmissível, visto que o conhecimento de Krypton deveria ser só seu.
O Brainic escrito por Johns o torna um personagem ainda mais incrível. Cruel, frio, metódico e simplista, o vilão age praticamente como uma máquina, com pensamentos objetivos que não demonstram nenhum tipo de arrependimento ou dúvida. Ele é um colecionador, um aglomerador de conhecimento universal, e nada pode atrapalhar seus objetivos.
Obviamente, como não podia deixar de ser, Brainiac acaba por tomar conhecimento de que ainda existe mais uma kryptoniana na Terra, e o planeta se torna o seu mais novo alvo, colocando a vida de todos aqueles que Clark ama em risco. É claro que aliado ao ódio de descobrir quem foi o responsável pela destruição de seu planeta natal, Superman jamais permitirá perder também seu lar adotivo, e o que presenciamos é um duelo de titãs naquela que já pode ser considerada a melhor história envolvendo Brainiac como vilão. O fato de ser pela primeira vez um duelo físico no qual o coluano usa seu corpo original torna tudo ainda mais empolgante.
De uma forma geral, Superman: Brainiac se mostra como uma excelente história do Homem de Aço, e traz o seu confronto “definitivo” com um de seus maiores vilões. O problema da história, porém, é não saber onde e como exatamente ela se encaixa, devido à confusa e sempre modificada cronologia da DC. Algo ainda mais complicado quando se trata do Superman, que já teve sua origem recontada diversas vezes, inclusive pelo próprio Geoff Johns. Certas coisas causam estranheza como o fato de ser citado na história que Brainiac já enfrentou o Superman várias vezes, para logo depois a própria história contradizer isso quando o vilão afirma que demorou “décadas” para encontrar o kryptoniano e acrescentá-lo à sua coleção, como se tivessem acabado de se conhecer. Tais incongruências parecem mostrar que em meio a sua tentativa de abraçar a Era de Prata e acrescentar todos os elementos passados do Superman, o escritor teve dificuldade em gerir sua própria trama, tropeçando ao tentar conectar tudo.
No entanto, se lida de uma forma a ignorar qualquer amarra cronológica, apenas curtindo a história que está sendo contada – que é o que eu próprio faço quando leio DC – o aproveitamento do quadrinho melhora bastante. Superman: Brainiac foi bastante elogiada por público e crítica, e inclusive ganhou uma adaptação em animação no ano de 2013, chamada Superman: Unbound (Superman: Sem Limites no Brasil) contendo algumas diferenças em relação à obra original, ainda que a trama principal esteja intacta.
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