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Esse mês tivemos nas bancas a terceira edição da Coleção de Graphic Novels DC Comics, publicada pela editora Eaglemoss, que traz a história Superman: O Último Filho, de Geoff Johns e Richard Donner, com arte do sempre incrível Adam Kubert. A edição compila as revistas americanas Action Comics 844-846, 851, Actions Comics Annual 11 e Superman Annual 13, além de apresentar a origem do Homem de Aço, reproduzindo em suas páginas Superman #1 de 1939. E quem pegou o encadernado sem conhecer nada da história, acabou se surpreendendo, porque apesar de não ser conhecida como um dos grandes clássicos do azulão, O Último Filho pode ser considerada como uma de suas histórias mais divertidas.

Para quem ainda não associou o nome à pessoa, Richard Donner é o cineasta responsável por trazer o Superman para as telas de cinema, com Superman – The Movie (1978) e Superman II (1980). Ao lado do roteirista Geoff Johns, que é um confesso fã dos filmes clássicos do Homem de Aço, já de era de se esperar que a HQ trouxesse um clima nostálgico com referências a esse mágico universo cinematográfico, porém o que se vê na história é muito mais do que isso. Na verdade, quando Johns assumiu os roteiros da revista, um de seus objetivos era acrescentar na mitologia moderna do Superman algumas da situações estabelecidas – e com o tempo, ignoradas – da Era de Prata, além de conceitos utilizados nos dois filmes, e que para ele funcionariam perfeitamente nos quadrinhos. Dessa forma, o que vemos em O Último Filho chega a ultrapassar a ideia de referência e homenagem, e por diversos momentos faz parecer que a história se passa no mesmo universo dos filmes que estrelavam o ator Christopher Reeve, e não do Superman que estamos habituados a ler nos quadrinhos.

Isso porque além de usar e abusar de situações vistas nos filmes, utilizando-as exatamente da mesma forma, existem ainda passagens que são totalmente recicladas para uma linguagem moderna, fazendo parecer que a história foi escrita muito mais na intenção de ser um roteiro reformulado do que foi Superman II, de 1978, inclusive com os mesmos vilões e mesmo objetivo de dominação mundial. Na verdade, é quase um Superman II 2.0. Mas afinal, isso é um problema? De forma alguma. Apelando para a nostalgia e trazendo para a história o sentimento daquele que é considerado por muitos com o Superman definitivo, Johns e Donner entregam uma história bem escrita e divertida, que apesar de não ser nenhum novo clássico, cumpre seu papel.


A trama começa com uma nave caindo na Terra, e Superman sendo surpreendido ao encontrar em seu interior um menino kryptoniano. Querendo impedir que o garoto sofra todo tipo de testes do governo americano, o herói o resgata de uma instalação militar, e pede ajuda aos seus pais Martha e Jonathan Kent, sobre como criar uma criança super poderosa que caiu do céu sem que ninguém descubra. Afinal, experiência nisso eles tem.

Apesar do início bastante corrido e simplório, a HQ apresenta uma ideia muito boa, colocando Clark na situação a qual os seus pais adotivos estiveram anos atrás, e demonstrando pela primeira vez a vontade do Homem de Aço em ser pai, visto que sua fisiologia kryptoniana não o permitiria ter um filho biológico com Lois. A repórter, aliás, inicialmente se mostra contrária à ideia, alegando que nenhum dos dois servem para ser pais, mas com o tempo acaba se afeiçoando ao garoto e aceitando a situação.

Aqui é onde temos outra homenagem aos filmes, mostrando a influência de Donner e a reverência que Johns tem a eles. Ao decidirem adotar o menino, Lois e Clark decidem chamá-lo de Christopher Kent, uma clara alusão ao ator Christopher Reeve, o Superman de toda uma geração.


Como já disse mais acima, como o roteiro é criado em cima de uma grande homenagem ao Superman cinematográfico da década de 80  (especialmente Superman II), os vilões obviamente também são os mesmos, com um plot parecidíssimo com o do longa, exceto por alguns detalhes. Sim, General Zod, Ursa e Non escapam da Zona Fantasma e pretendem dominar a Terra, transformando-a em um novo Krypton. Enquanto dão um fim no filho de Jor-El – o qual julgam responsável por sua derrocada – no processo, é claro.

Confrontado pelos poderosos kryptonianos, que liberam todo o contingente de prisioneiros da Zona Fantasma e conseguem conter até mesmo a Liga da Justiça, Superman se vê obrigado a manter uma aliança com aquele que é seu maior inimigo e que esteve por anos a fio estudando maneiras de como destruí-lo. Afinal, quando se trata de métodos de eliminar um kryptoniano, quem melhor do que Lex Luthor?

Luthor aqui, apesar da história ser uma grande homenagem aos filmes, não possui a personalidade caricata do Lex bonachão que Gene Hackman trouxe aos cinemas, mas é influenciado por uma outra versão, tão clássica quanto. Ao invés de ser o empresário e homem de negócios estipulado por John Byrne em sua reformulação do personagem, Johns trouxe um Luthor mais próximo de sua versão da Era de Prata, onde era apenas um cientista meio louco e obcecado pelo Superman, enquanto buscava formas de destruí-lo de dentro de seu laboratório. Apesar de ser uma versão do vilão que não me agrada (prefiro o empresário maligno), Luthor cumpre seu papel dentro da história e não chega a comprometer, apesar de alguns exageros.


Diria que no final das contas, o que torna Superman: O Último Filho uma história incrível, não é o roteiro. Por mais que apele para a nostalgia, traga os vilões do filme, e mostre uma divertida e inusitada situação onde Clark Kent se vê com um pai, o roteiro é raso. Por diversas vezes a impressão que se tem é que as resoluções foram feitas às pressas, sem qualquer tempo de planejamento ou até mesmo de profundidade. Tudo é resolvido muito rápido e de forma simplória, até mesmo meio boba, o que pode fazer com que novos leitores pensem que todas as histórias do Homem de Aço são assim. Até mesmo a grande sacada do quadrinho, que é Superman agindo como um pai é pouquíssimo trabalhado, e rapidamente esquecido.

O grande ponto positivo da HQ fica com a arte. Adam Kubert está simplesmente incrível neste que já considero um de seus melhores trabalhos. Somos presenteados com sequências de ação incríveis que parecem fazer com que os desenhos estejam em movimento, e splash pages sensacionais com riqueza de detalhes e os mais diversos ângulos.

De uma forma geral, Superman: O Último Filho, como eu disse inicialmente, não é um grande clássico do personagem. Mas vale o investimento pelo fator nostálgico, pela homenagem a um filme que foi divisor de águas, e pela belíssima arte de Adam Kubert. Além de ser a oportunidade de ver Richard Donner trabalhando com quadrinhos, naquilo que pareceu ser um roteiro de Superman II se o orçamento e tecnologia da época o permitissem.