Sete anos depois de ter impactado a narrativa dos games com The Last of Us, a equipe da Naughty Dog retorna com uma aguardadíssima sequência para sua obra mais famosa. Mas será que eles fizeram jus ao legado do primeiro jogo?
The Last of Us Part II se passa cinco anos após os eventos do game original, com Ellie e Joel estabelecidos na comunidade de Jackson. Porém, um evento traumático e violento coloca Ellie em uma jornada em busca de justiça – ou seria vingança?
Mecânicas e exploração

The Last of Us Part II é, basicamente, uma evolução natural do primeiro jogo. Dessa forma, ele não chega exatamente a inovar no gênero, mas apresenta novas mecânicas que são muito úteis em sua jornada. Agora é possível, por exemplo, se esquivar de inimigos, o que além de aumentar a sua chance de sobrevivência em encontros letais, torna alguns combates muito mais divertidos. Além disso, agora é possível deitar e se arrastar pelo chão, o que possibilita não apenas melhores esconderijos (como debaixo de carros), mas também aumenta o número de frestas que você pode entrar para acessar novos locais e reunir recursos.
E por falar em recursos, a exploração é um outro avanço em relação ao primeiro jogo. Agora, com áreas muito maiores (ainda que delimitadas), é possível entrar em um número muito maior de prédios, lojas e residências – sendo a maioria delas opcionais. Alguns desses locais recompensam o jogador, não apenas com recursos diferenciados, mas também com novas interações entre personagens e cutscenes exclusivas. No entanto, é preciso dizer que isso acontece apenas em uma determinada parte logo na chegada a Seattle, o que pode ser um pouco decepcionante para quem havia gostado das promessas de “quase um mundo aberto”. O resto do jogo segue de forma bastante linear, assim como o primeiro, diferenciando-se apenas pelas áreas muito maiores e mais exploráveis.
Essas áreas maiores, inclusive, também são muito efetivas para os combates. Com inimigos muito mais inteligentes, que armam emboscadas, cercam e dão comandos uns aos outros, o jogador precisa agir de forma muito mais estratégica, e o cenário possibilita isso. Você pode tentar abater todos os inimigos no stealth ou enfrentá-los diretamente usando as frestas e buracos no cenário para surpreendê-los da forma que achar melhor com o seu arsenal, que vai do bom e velho molotov até bombas que podem ser espalhadas pelo solo. Porém, vale dizer que em muitos momentos simplesmente fugir pode ser a melhor opção – principalmente quando os inimigos estiverem usando cachorros para rastreá-lo, o que torna o stealth muito mais complicado e cria uma necessidade de sempre se manter em movimento.
Inimigos – novo e velhos

Seattle é um local em guerra entre duas facções: a WLF, mais conhecidos como “Lobos”, e os Serafitas, um grupo fanático religioso cuja característica mais marcante é o rosto marcado por cicatrizes, algo que faz parte de uma espécie de iniciação na seita. Ambos os grupos possuem suas particularidades, mas são igualmente letais e querem te matar. Entrar em mais detalhes sobre qualquer um dos dois seria entrar em uma perigosa zona de spoilers, então digamos apenas que o desenvolvimento desses dois grupos é muito bem conduzido na história, fugindo do velho clichê de inimigos que são maus porque sim. Mas falo mais sobre a condução narrativa do game mais à frente.
Já os estaladores… bem, digamos que não tem muito o que explorar narrativamente nesses aqui. Como já havia sido prometido, temos novas “espécies” de infectados, como o trôpego, que já havia sido revelado antes, e os espreitadores, que são uma grande ameaça. Basicamente, os espreitadores são tão letais quanto os estaladores comuns (aqueles que te matam com um hit), porém com um perigo a mais: eles se escondem. Pois é, esses carinhas não estão a fim de te encarar de frente, fugindo de você em cenários escuros e tentando te surpreender. E sabe o que é pior? Não é possível saber onde eles estão usando o sistema de escuta que mostra o contorno dos inimigos no cenário. Você precisa confiar nos seus instintos, observar muito bem o cenário… e prestar atenção ao mínimo barulho.
Uma coisa legal é que existem cenários onde é possível montar estratégias de modo a colocar infectados e inimigos humanos para lutarem entre si, valendo-se disso para fazer sua rota de fuga. Porém, infelizmente, algo tão legal é visto apenas algumas poucas vezes no jogo.
Uma condução narrativa magistral

Porém, como não podia ser diferente, é em sua narrativa que The Last of Us Part II brilha, assim como seu antecessor. É notória a evolução de Neil Druckman como diretor e roteirista em relação ao primeiro jogo, algo que já havíamos tido um vislumbre em Uncharted 4.
No primeiro The Last of Us, o que chama atenção muito mais do que a história, é a sua condução. Parando para fazer uma análise mais profunda, a história do primeiro game é bem simples e até mesmo clichê. O que a torna tão interessante é a condução da narrativa, o desenvolvimento dos personagens e sua relação com aquele mundo.
Já em The Last of Us Part II, a história em si é muito sólida e criativa, sempre em um crescendo absurdo, conduzindo o jogador para onde ela quer e o fazendo enxergá-la sob óticas diferentes do convencional. Não vou entrar em spoilers (e na verdade é bem difícil fazer isso), mas a condução narrativa do game não apenas é extremamente corajosa, como te dá vários socos no estômago e te deixa com um nó na garganta o tempo inteiro.
Fique avisado: The Last of Us Part II não vai te pegar pela mão e dar o que você quer. Você não vai encontrar decisões fáceis , óbvias ou esperadas. É um mundo cruel, visceral, realista e que de certa forma vai te obrigar a engolir em seco tudo que você acreditaria ser justo ou “correto” para a história. E isso, além de corajoso, é simplesmente brilhante. Mantenha sua mente aberta.
O curioso aqui é que o game poderia sim cair novamente em um clichê, e confesso que esse era o meu medo. Afinal, como os trailers já evidenciavam, trata-se de uma trama de vingança. Porém, é nessa já citada condução narrativa que o game brilha, ao deixar claro que está tentando também passar uma mensagem. Uma mensagem dura, impactante, emocionante – mas muito importante.
Até onde você vai por vingança? Existe um limite? Essas sãos apenas algumas das questões propostas pela trama, mas existem outras muito mais profundas, que questionam a própria noção de justiça inserida no conceito de vingança. Justiça para quem? E a forma como o jogo aborda essas questões e as coloca nas mãos do jogador para que sinta o peso de suas ações, traz um aspecto muito inovador em termos de narrativa nos games.
Representatividade

Os trailers já evidenciavam que a representatividade seria um ponto importante em The Last of Us Part II, mas o interessante é que isso vai muito além da sexualidade de Ellie e seu relacionamento com Dina.
Além do aspecto LGBT, temas como transgeneridade também estão presentes no jogo, mas o que mais chama atenção é a forma extremamente natural e sensível como a Naughty Dog inseriu isso na narrativa. Usar a sequência de um dos jogos mais influentes da indústria, um dos maiores games AAA da geração, para trazer esses temas com tanta naturalidade, é algo extremamente importante e que precisa ser louvado.
A título de comparação, um jogo AAA é para indústria dos games o que um filme blockbuster como os da Marvel são para Hollywood. E vale lembrar, que mesmo com toda a sua agenda aparentemente progressista, a Marvel Studios demorou 10 anos para finalmente lançar um filme com uma protagonista feminina , enquanto que um super-herói abertamente homossexual continua apenas na promessa.
Conclusão

Assim como o primeiro, The Last of Us Part II chega para deixar sua marca na indústria, pelo menos no que se refere aos aspectos narrativos. Dentro do que propõe a fazer, é uma obra prima.
Aqueles ansiosos pelo jogo terão suas expectativas atendidas, ainda que talvez não da forma que esperam. Mas sinceramente, quem gosta do primeiro jogo e de sua narrativa, sabe que esperar algo concreto do mundo de The Last of Us é um tanto quanto utópico.
Assim como The Walking Dead, outra famosa obra pós-apocalíptica, grande parte do atrativo vem da falsa sensação de segurança, da imprevisibilidade do mundo e da inevitabilidade de certas situações. E não é isso que torna essas obras tão interessantes?
- * Cenários amplos que possibilitam uma maior exploração e mais estratégias de combate
- * Uma narrativa bilhantemente bem escrita, que consegue ser corajosa e inovadora
- * Temas pesados e sensíveis conduzidos de forma magistral






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