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Um divertido mangá histórico(?)

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Ganhador do prêmio Manga Taishô e do Osamu Tezuka Cultural Prize na categoria Short Story, Thermae Romae, da mangaká Mari Yamazaki, é uma obra bastante atípica para o seu ambiente. Lançado em 2008 e finalizada em 2013 em seu sexto volume, o mangá retrata a vida um tanto quanto confusa de um arquiteto da antiga Roma e apresenta um pano de fundo histórico baseado no reino de Adriano. No entanto, longe de se manter na ideia pura da adaptação histórica, a obra singra entre a antiguidade e o Japão moderno de uma forma bastante atípica. Ao imergir em águas termais, Lucius acaba viajando no tempo e espaço, visitando e comparando casas de banho das duas culturas. A proposta de Yamazaki pode levantar sobrancelhas à primeira vista, mas está longe de ser mal executada, e Thermae Romae apresenta uma história que consegue combinar com maestria o humor, o histórico e um passeio pela cultura das casas de banho.

Na obra, o leitor acompanha as desventuras de Lucius Modestus, um arquiteto de casas de banho da Roma antiga que acaba se chamando a atenção até mesmo do Imperador Adriano. Em um período de dificuldade criativa, o personagem resolve ir a um dos banhos públicos de Roma para tentar contemplar sobre sua situação, e ao investigar um cano de dreno, acaba sendo dragado para o futuro, no Japão moderno. Lucius demora a entender o que realmente aconteceu, mas aproveita da engenhosidade do povo dos “caras achatadas” para melhorar os banhos de Roma. Com viagens temporais periódicas e acidentais, o arquiteto pega emprestado muitos elementos do Japão moderno, adaptando para a realidade de Roma e os usando como base para projetar construções inovadoras para sua época, chegando até mesmo a chamar a atenção do Imperador Adriano.

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Inicialmente seguindo um formato one-shot, mas aos poucos expandindo a trama, a HQ é conduzida com primor. É muito interessante a forma como a autora consegue caracterizar as diferenças e as semelhanças dos ambiente romano e do japonês, mas sempre fazendo ligações com a cultura dos banhos termais que eles compartilham. O personagem de Lucius funciona perfeitamente neste esquema. Com toda sua pompa e superioridade romana, ele se espanta que exista um povo tão mais avançado no quesito dos banhos, e mais de uma vez se desespera com tamanha criatividade dos caras achatadas, que sempre parecem ter a solução para os dilemas dele.

Boa parte da graça está no fato de que o personagem não sabe que está não só se deslocando no espaço, mas também no tempo. Se não fosse isso, tudo seria desmistificado muito fácil e o leitor não poderia aproveitar dos excelentes momentos em que Lucius tenta racionalizar coisas simples como refrigerantes, garrafas, zoológicos e várias outras coisas. Apesar do absurdo da situação, o humor que Yamazaki utiliza no mangá é bastante diferente do que parece ser comum a este tipo de obra. Talvez isto aconteça porque o próprio clima da obra tende ao absurdo, os personagens não são levados muito a sério, a não ser que a própria seriedade seja para se criar o humor, como é o caso do protagonista, que se porta com os ares altivos de uma estátua romana, mas que acaba sendo de uma ingenuidade tamanha que é o foco da maior parte da graça da obra. Diferente de muitos mangás ao estilo shounen, as tiradas não são forçadas ou exageradas.

Mas não se pode negar que os personagens são exagerados. No entanto, esta característica é usada principalmente para marcar a diferença entre os japoneses e os romanos, e quando as piadas vêm desta fonte elas não são forçadas e de certa forma até bem fundamentas. Existem vários níveis de humor no obra, e na maioria das vezes são muito bem usados para avançar a história, caracterizar os personagens ou brincar com as diferenças culturais entre Roma e Japão. Mesmo sendo uma obra de comédia, a autora não tira o humor de qualquer canto, o que talvez deixasse tudo maçante e forçado, ela mantêm na proposta da obra.

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Logo nos primeiros capítulos da história, fica claro o amor da autora pelos temas que ela apresenta. Yamazaki coloca ao fim de cada parte do mangá um pequeno texto contextualizando os eventos da obra com a cultura romana, japonesa e a cultura dos banhos termais. Este acréscimo autoral é muito interessante para a obra, e os insights de Yamazaki sobre os temas são muito bons e elucidam alguns pontos da obra que podem não ser percebidos a primeira vista. No entanto, eles não são indispensáveis para a compreensão de Thermae Romae e mesmo em sua ausência, fica claro o amor que a autora tem pelos temas, amor este que é reproduzido nos personagens que escreve.

Não são apenas o estilo da trama e tema da revista que divergem com o que pode ser considerado como comum para as publicações japonesas. A arte de Yamazaki segue um estilo muito diferente do que um leitor de mangás pode estar acostumado. Talvez emulando uma estética inspirada nas estátuas romanas, os personagens são desenhados com bastante detalhes e seguindo uma orientação mais realista. É possível perceber nas expressões mais exageradas um estilo cartunesco mais semelhante a mangás antigos, obras como Gen Pés Descalços, mas sem escapar tanto assim das tendências mais realistas dela.

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Sendo os temas da antiga Roma e das casas de banho tão importantes quanto os próprios personagens, o cenário costuma ser muito bem trabalhando na obra. Não é incomum quadros com o fundo meio ofuscado, se focando no diálogo dos personagens, mas nos momentos em que Yamazaki se dedica a mostrar os banhos, os balneários, as vilas romanas e cidadezinhas japonesas, o leitor é agraciado com cenários belos, bem construídos e muito bem desenhados. E tem muito de tudo isso na obra. Estranhamente, mesmo o mangá sendo de comédia, as expressões que a autora desenha melhor são rostos estoicos e sérios, um grande contraponto ao clima da obra.

Thermae Romae é uma obra divertida, instrutiva e admirável. Curiosamente, talvez ela não tenha tanto apelo para leitores de certos gêneros de mangá do que teria para quem prefere obras europeias, mas mesmo assim, vale a pena tentar a leitura. Os personagens são carismáticos, o humor é bem trabalhado e a arte é ótima, muito condizente com o tema romano e competente em passar os ambientes que quer trabalhar. O tema da história pode levantar algumas suspeitas sobre se realmente a revista merece ser lida, afinal de contas, termas e cultura de banhos não parece ser à primeira vista um tema muito interessante ou divertido. Lucius, os caras achatadas e Mari Yamazaki conseguem provar o contrário.

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Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.


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