Assim como fez com o selo Novos 52 da DC, a Panini começou uma leva de encadernados capa-dura a serem distribuídos em bancas, compilando as primeiras histórias da Nova Marvel. E para começar a iniciativa, tivemos o lançamento de Thor, o Deus do Trovão: O Carniceiro dos Deuses, aclamada fase do personagem, sucesso de público e crítica, que conta com um inteligente roteiro de Jason Aaron e a arte simplesmente soberba do croata Esad Ribic. O volume de 132 páginas custa R$ 29,90 e reúne as edições 1 a 5 da revista Thor: God of Thunder.
Em sua primeira incursão pelo universo do Deus do Trovão, Aaron fugiu um pouco do usual, e ao invés de criar uma história que poderia – ou não – se tornar esquecível ao utilizar pela milésima vez vilões já estipulados na mitologia do personagem, achou melhor trazer o seu próprio vilão, com suas próprias convicções e objetivos, e com o qual ele poderia trabalhar com muito mais liberdade. Tal iniciativa, que por diversas vezes acaba sendo um pouco arriscada pelo fato dos leitores dificilmente aceitarem e se adequarem a novos personagens (o que gera o enorme problema de reciclagem de vilões nos quadrinhos), acabou se mostrando um enorme acerto, pois o background criado pelo roteirista para contar sua história e apresentar seu vilão é simplesmente fantástico, não abrindo espaço para qualquer rejeição por parte do público.
O interessante aqui, é que para demonstrar a complexidade e o poderio de seu vilão (falo mais dele já já), Aaron faz com que a história seja contada em três períodos temporais diferentes, explicitando quão ameaçadora é a sombra desse inimigo, que persegue Thor através de gerações. Assim, a história se desenvolve enquanto vemos como o Deus do Trovão lida com a ameaça durante três distintas etapas de sua vida: no passado, quando ainda era um jovem deus inconsequente e arrogante que só pensava em bebidas e mulheres; no presente, já em posse do mjolnir e atuante nos Vingadores; e no futuro, onde é o solitário soberano de Asgard, e único deus que restou vivo em todos os universos.

E é com essa narrativa interligada onde vai costurando três eras diferentes durante a trama, que Aaron nos apresenta o grande vilão que dá nome ao arco: Gorr, o Carniceiro dos Deuses. O primeiro encontro de Thor com o vilão é justamente em sua juventude, quando caminhava pela Terra procurando batalhas ao lado de humanos nórdicos, e se depara com um rastro de deuses que vem sendo literalmente estripados por alguma coisa… ou alguém. O interessante é que o escritor vai intercalando as eras, e dando pistas em cada uma das épocas, que vão se descortinando em uma trama maior. No presente, por exemplo, vemos Thor dando de cara novamente com o modus operandi do Carniceiro, e se surpreendendo com o fato dele estar vivo, pois o Deus do Trovão acreditava tê-lo matado em batalha anos atrás. Batalha esta que, até esse ponto da historia, ainda nem havia sido mostrada no passado do herói. Tal prática narrativa é excelente, pois aumenta mais ainda a curiosidade do leitor, e quando o roteiro nos leva novamente ao passado, deixa no ar a tensão e a espera da crucial batalha a qual o Thor do presente se referia. Algo que envolve um enigmático trauma sofrido pelo vilão, e uma doentia sede de vingança por Thor.
Já os vislumbres do futuro, são pouco utilizados até esse ponto da história, e só servem para nos mostrar que o Carniceiro venceu a batalha no final, fazendo de Thor o único deus ainda vivo, batalhando dia após dia e buscando finalmente a própria morte. Algo que o Carniceiro nunca lhe concede.
A concepção do vilão é algo digno de nota, não apenas pela aparência reptiliana alienígena e assustadora criada por Esad Ribic, mas também pela incrível tensão criada por sua presença. Inicialmente somos apresentados apenas a diversas moradas dos deuses completamente vazias, com suas divindades assassinadas dos modos mais cruéis e perversos que se possa imaginar. Tal artifício faz com que crie-se no leitor ódio e temor pelo vilão, antes sequer que ele apareça na história. E quando ele finalmente aparece, até esquecemos que se trata de um novo personagem, e nos pegamos pensando em porque ninguém nunca pensou nisso. Afinal, em um gibi que trata de deuses, um matador de deuses é um conceito simplesmente incrível. Ainda mais um matador de deuses que mata por prazer. Quem não gosta de um vilão sádico?
E falando em deuses, a forma como Jason Aaron trata do tema é muito divertida e inteligente, mostrando de forma natural e simplória que os diversos povos possuem diferentes divindades, que se conhecem e até mesmo batalham entre si. Aliás, é demonstrado em uma determinada cena, que Thor – assim como os outros deuses – pode escutar preces quando alguém reza para ele, indo até o local e realizando o milagre pedido. Uma expansão do panteão divino do universo Marvel, mas que se faz muito necessária para retratar de forma impactante a quantidade de deuses que Gorr matou durante sua vida.
E por falar em universo Marvel, o mais interessante da trama criada por Aaron, é que ela funciona completamente sozinha, alimentando-se apenas da mitologia de Thor, sem precisar mostrar a todo momento que faz parte do mesmo universo de tantos outros heróis. Para dizer a verdade, se não fosse uma determinada cena em que temos uma breve aparição do Homem de Ferro, poderia se dizer até que o leitor esquece por diversos momentos que trata-se de uma história do Thor da Marvel. É simplesmente uma história nórdica de Thor, o Deus do Trovão. E isso é magnífico.
Infelizmente, a história não se conclui nesse primeiro volume, o que nos faz ficar na espera da Panini publicar a continuação o mais breve possível. Principalmente porque o encadernado se encerra em um clímax excelente, que não comentarei a fundo para evitar spoilers, mas que adianto que atiçou a minha curiosidade por envolver algo que eu – e 90% da população – adoramos: viagens temporais.