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ULTIMATE HOMEM-ARANHA - O MUNDO SEGUNDO PETER PARKERApesar de ser um dos melhores materiais já produzidos do cabeça de teia, Ultimate Homem-Aranha – criação do roteirista Brian Michael Bendis – possui uma história de publicação um tanto quanto sofrível no Brasil. Embora tenha tido todas as suas edições publicadas na extinta mensal Marvel Millennium: Homem-Aranha e posteriormente continuada em Ultimate Marvel, a série nunca consegue ser publicada em encadernados, com a Panini sempre relançando o primeiro volume e por algum motivo misterioso, nunca dando continuidade. E agora, em uma decisão editorial tão misteriosa quanto, eis que chega às bancas o encadernado Ultimate Homem: Aranha: O Mundo Segundo Peter Parker, que seria ótimo se não fosse o fato de se tratar na verdade da segunda fase da revista, pulando exatamente 133 edições.

Sim, é exatamente isso. A Panini pulou as 133 primeiras edições de Ultimate Homem-Aranha e lançou um encadernado iniciando a segunda fase, provavelmente em um teste mercadológico para analisar a receptividade do material e publicar essa curta fase em encadernados para em seguida partir para a publicação da fase do Aranha Miles Morales, aclamado por público e crítica. O problema é que o erro não se encontra apenas nessa decisão editorial da Panini, mas também no acabamento do material. A própria editora criou nos leitores uma obsessão com quadrinhos em capa dura ao lançar desnecessariamente dezenas de produtos com esse acabamento, e agora publica Ultimate Homem-Aranha na pior qualidade possível. Papel pisa-brite e capa couché, semelhante a uma revista mensal comum, não fosse pela lombada quadrada, único item que diferencia o material. Aí depois vão reclamar da própria bolha que criaram dentro do mercado, usando o falho argumento de que a obra simplesmente não vende. E a HQ entra assim para o seleto grupo de materiais que a Panini nunca publica a continuação. 

Mas deixando as falhas decisões editoriais de lado, hora de avaliar o material. Menos inspirado do que nas 133 edições anteriores, aqui Bendis demora a se recuperar da destruição causada quando Jeph Loeb praticamente matou a linha Ultimate na famigerada saga Ultimatum. Passando-se em um período de 6 meses após a onda que varreu Nova York, Bendis traz diversas modificações na vida de Peter Parker, usando esse lapso de tempo para virar a cabeça do leitor também de cabeça pra baixo, ao apresentar situações completamente inesperadas para quem acompanhava a série anterior. O interessante é que foi exatamente aqui que começaram as diversas mudanças que tornaram a linha Ultimate bem mais experimental do que outrora. Se antes as publicações nada mais eram do que uma versão mais jovial do universo regular, livre de anos de cronologia e com as mesmas situações e sagas sendo apresentadas novamente apenas com um roupagem diferente, agora tudo muda de vez. O universo Ultimate passa a ser um local de experimentação onde os roteiristas podem ousar um pouco mais e trazer situações que a Marvel jamais permitiria em sua intocável cronologia. 

O ponto mais interessante dessa fase, é aquilo que os fãs carinhosamente apelidaram como “pensão da Tia May”, quando Peter acaba aceitando que os desabrigados Johnny Storm (o Tocha Humana) e Bobby Drake (o Homem de Gelo) fiquem hospedados por tempo indeterminado em sua casa, o que com as visitas ocasionais de Kitty Pryde acabam criando uma sensação de mini mansão dos Vingadores na revista. Lembrando que nesse ponto da história, a Tia May já sabe há um bom tempo que o seu sobrinho é na verdade o Homem-Aranha. A dinâmica super-heróica no dia a dia de Peter Parker é muito bem construída por Bendis, e muito gostosa de se ler. Traz um frescor às histórias apresentando uma situação completamente nova e jamais vista em um quadrinho do Homem-Aranha, ao mesmo tempo em que consegue figurar entre algumas das mais divertidas tramas do cabeça de teia, relembrando as histórias mais simples e despretensiosas da era Lee e Romita. 

Mas como estamos falando do Homem-Aranha, é óbvio que nem tudo são flores na vida de Peter Parker e o seu já conhecido azar. Apesar de estar finalmente sendo respeitado pela polícia e admirado pelos cidadãos de Nova York – tendo inclusive uma trégua da campanhas difamatórias do Clarim Diário – o jovem escalador de paredes precisa lidar ainda com a histeria anti-mutante no seu colégio após os eventos do Ultimatum (onde Magneto literalmente afundou a cidade matando centenas no processo), a chegada de um novo e misterioso vigilante que aparentemente também estuda no seu colégio, e a busca do vilão Mysterio pela soberania do crime organizado após assassinar Wilson Fisk, aquele que outrora era conhecido como Rei do Crime.  Apesar de, particularmente, achar que pelo menos esse início não possui o mesmo brilhantismo das 133 edições anteriores e achar que existe inclusive uma descaracterização de alguns personagens cujas personalidades haviam sido construídas pelo próprio Bendis (Mary Jane, Gwen e Kong simplesmente parecem outros personagens), o encadernado ainda assim é melhor do que muita coisa que vem saindo ultimamente e figura facilmente como um dos melhores materiais do Homem-Aranha. Resta agora torcer para que a Panini pelo menos continue a publicação do material até chegar à fase de Miles Morales, mesmo que a qualidade editorial não esteja um primor. O Homem-Aranha merece.