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Para surpresa de ninguém, a série de grande sucesso da Amazon, The Boys, tomou algumas liberdades massivas ao adaptar a obra em quadrinhos de Garth Ennis. Seja por razões orçamentárias ou por que a HQ é bizarra demais em alguns momentos, certos cortes e mudanças – compreensivelmente – tiveram que ser feitos.

A segunda temporada, principalmente, foi a que apresentou mais mudanças em relação ao material original, e vamos comentar aqui sobre 5 elementos que foram realmente ótimas ideias e tornaram a série de TV um produto mais interessante que os quadrinhos.

Composto V

Existe uma diferença crucial entre a série e os quadrinhos, que dita muito de como as histórias são contadas. Acontece que, na HQ, os Caras também injetam o Composto V em si mesmos, para conseguirem fazer frente aos Supers. Assim, é comum vê-los nas páginas encarando equipes de super-heróis o tempo todo e na verdade varrendo o chão com os Supers.

A série optou por não fazer isso, e na verdade limitar bastante o Composto V, definindo que ele só tem 100% de sucesso quando utilizado em bebês; empregá-lo em adultos é possível, como acontece com os super-terroristas, mas com uma taxa de sucesso bem menor. E isso na verdade foi uma excelente ideia, já que coloca um fator de tensão muito maior nos encontros entre os Caras e os Supers. Saber que aqueles super-heróis são extremamente poderosos e podem matar os protagonistas com apenas um soco é o que faz com que a a produção da Amazon tenha um emocionante senso de perigo e, é claro, torna os supers mais assustadores – o que faz parte da temática da série.

Tempesta

Uma das maiores mudança em The Boys é obviamente Stormfront (chamada de Tespesta na tradução), que não teve apenas uma mudança de gênero, mas também uma história de fundo mais complexa. Um dos primeiros supers criados, Tempesta é a personificação dos males e da desumanidade do nazismo que ainda são sentidos hoje. Isso a torna um dos inimigos mais terríveis que os Caras enfrentaram e também uma das mais cruéis supers da série, que fazia até o Capitão Pátria ficar admirado com certas coisas.

Já o Stormfront dos quadrinhos, também era um nazista superpoderoso, mas isso é tudo que os dois personagens tem em comum. Na HQ, assim como 90% dos supers, ele é uma piada, um saco de pancadas unidimensional com temática nazista, que faz parte de uma outra equipe dentre tantas que existem nos quadrinhos, a Liga da Revanche. Ah, um outro ponto em comum é que os dois tem um conclusão bem parecida: levam uma surra em equipe.

Capitão Pátria e Black Noir

Por tudo que já vimos do Black Noir na produção da Amazon, acho que já ficou bem claro que a série não irá seguir o plot twist apresentado por Ennis nos quadrinhos. Lá, é revelado que Black Noir na verdade é um clone do Capitão Pátria original, criado pela Vought como uma salvaguarda, pois seria a única coisa que poderia dar cabo de Pátria caso ele surtasse. Porém, o que acontece é que quem surta é o próprio Black Noir.

Isso leva a um momento um tanto quanto anti-climático na HQ, quando o Capitão Pátria descobre que os atos mais terríveis que ele achava que tinha feito (e por algum motivo esquecido) na verdade não foram feitos por ele, e sim por Black Noir usando seu uniforme. Um desses atos foi o estupro de Becky, o que tecnicamente faz com que o ódio de Billy Bruto durante todos esses anos estivesse direcionado para a pessoa errada. É um pouco decepcionante e torna a vingança do personagem um pouco sem sal. Felizmente isso foi modificado na série, e o Capitão Pátria é realmente o único responsável por seus atos – o que deve tornar o confronto final com Billy muito mais satisfatório.

Billy Bruto é mais humano

Billy Bruto é um anti-herói clássico nascido do sentimento de vingança. No caso de The Boys, direcionado aos super-heróis. Mas na série, apesar dele ainda ser esse cara que em diversos momentos demonstra que sua vingança está acima de qualquer coisa e que é capaz de fazer tudo por isso, existe mais coração no personagem.

Embora sua brutalidade seja um tanto necessária, considerando contra quem ele está lutando, ela nunca é glorificada. Na melhor das hipóteses, as pessoas o toleram e seu comportamento insuportavelmente presunçoso parece mais uma atuação do que qualquer coisa. Tanto o roteiro da série quanto o trabalho de Karl Urban são perfeitos em transparecer isso, o quanto Billy às vezes precisa se esforçar para manter uma postura babaca quando na verdade não é exatamente aquilo que está sentindo. Mas ele precisa sentir. E o próximo ponto da lista é crucial nessa mudança de personalidade entre HQ e série.

Becca e Ryan

Uma das maiores críticas sobre a HQ de The Boys é que a esposa de Billy, Becky (chamada de Becca na série), nada mais é do que um artifício da trama. A morte dela é o que dá a motivação de Billy, e isso é tudo. Sua única característica era amá-lo incondicionalmente, apesar de suas tendências violentas. Indiscutivelmente, ela só foi realmente humanizada na minissérie Dear Becky, lançada por Ennis em 2020. E mesmo assim foi bem pouco.

Em contraste, na série da Amazon, Becca tem mais peso e participação, o que a torna verossímil. Ao contrário da HQ, onde realmente morreu, na série ela foi declarada morta para que pudesse secretamente cuidar do filho que teve com o Capitão Pátria, Ryan, sob a supervisão da Vought. Ela está dividida sobre retornar a um marido psicótico devido ao seu ódio por super-heróis (e, por extensão, Ryan), embora ela peça que ele ajude Ryan a não se tornar outro Capitão Pátria. Ela ainda morre, mas pelo menos foi mais do que apenas um suporte usado para justificar a sede de sangue de Billy. Além disso, toda a trama envolvendo Ryan foi bem interessante e abre grandes possibilidades para o futuro.



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