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O Capitão Pátria é, sem sombra de dúvidas, um dos personagens mais interessantes de The Boys. Uma referência ao Superman, ele tem todos os poderes do Homem de Aço, mas não a sua personalidade. Pátria finge ser o maior herói do mundo, quando na verdade é alguém mesquinho, arrogante e sem qualquer escrúpulo.

Na HQ de Garth Ennis, o personagem é um pouco diferente. Na verdade, ele nem tem todo o destaque que recebeu na série, mas é crucial em alguns dos principais eventos, especialmente os que envolvem Billy Bruto. Aqui nesse vídeo, vamos falar um pouco sobre a história do Capitão Pátria nos quadrinhos e qual o seu destino por lá, então esteja avisado que teremos spoilers da HQ de The Boys.

Capitão Pátria faz sua primeira aparição na edição 3 de The Boys, e suas origens são semelhantes à de tantos outros personagens inspirados no Superman: um bebê vem do espaço e cresce para se tornar um benevolente salvador da humanidade, só que… não.

Apesar da Vought vender a ideia de que ele é um ser de outro planeta que veio para a Terra para nos salvar de nós mesmos, fornecendo uma imagem tipicamente americana, mas esse não é o caso nem de longe. Capitão Pátria é 100% um subproduto de uma ciência completamente sem ética, mas para entender quem ele é e porque ele existe, primeiro você precisa entender o Conglomerado Vought-American.

A Vought é uma empresa implacável que valoriza o lucro acima de tudo. Embora tenham uma divisão de marketing de ponta, eles estão sempre tentando economizar, e essa obsessão em poupar dinheiro ao longo dos anos quase os levou à falência devido à sua própria incapacidade de produzir produtos decentes. Por exemplo, eles conseguiram um contrato para fazer um tipo específico de arma para soldados no Vietnã, mas cortaram custos de fabricação e as armas simplesmente não disparavam. Isso levou a um batalhão inteiro de soldados emboscados e assassinados sem poder se defenderem.

Ao longo dos anos, a empresa se tornou motivo de chacota, até formular um novo plano: super-heróis. A Vought-American conseguiu ficar em posse de uma droga criada por um cientista nazista que dava super-poderes às pessoas, chamado Composto V, e a corporação iniciou testes em humanos com uma mulher grávida e com problemas mentais. Eles deram ao feto doses incrivelmente altas dessa droga, e o bebê era tão poderoso em seu nascimento que matou toda equipe médica envolvida no parto.

A criança também envelheceu rapidamente até a idade adulta, e durante esse tempo precisou ser mantido escondido com uma bomba nuclear por perto apenas para mantê-lo sob controle. Como você percebeu, essa criança era o Capitão Pátria. Na série, temos cenas onde o personagem é forçado a fabricar sua história, com toda uma campanha de marketing que mostra a suposta casa totalmente americano onde cresceu o pequeno “John”.

Quando criança, ele foi mantido trancado e criado em laboratório enquanto continuava a receber injeções massivas de composto V. A Vought deu ao Capitão Pátria e a outras seis crianças uma quantidade absurda desta droga desde o momento em que eram apenas fetos. Assim, eles se tornaram os seres mais poderosos do planeta, Os Sete, uma equipe de super-heróis criados e controlados pela Vought. Os poderes do Capitão Pátria seguem o mesmo arquétipo do Superman: força extrema, voo, visão de calor, super velocidade e uma invulnerabilidade quase total. Além disso, ele não possui nenhuma fraqueza, como a Kryptonita do Superman.

Capitão Pátria não foi criado desde a infância para ser um herói, e sim para parecer um herói. Esse detalhe faz total diferença, pois o foco da Vought estava apenas em receita e merchandising, então tanto faz se o maior herói do mundo é realmente um herói nos bastidores.

Mesmo assim, Capitão Pátria iniciou sua carreira de super-herói tentando fazer um bom trabalho, mas sem treinamento e com uma total falta de bússola moral, isso levou ele e os Sete a tornarem tragédias muito piores do que seriam normalmente. O principal evento que demonstra isso nos quadrinhos acontece no atentado de 11 de setembro de 2001, quando a Força Aérea tem a chance de derrubar o segundo avião que estava tentando voar para o World Trade Center.

Ao invés disso, a Vought interfere e usa o vice-presidente para ordenar que o avião seja interceptado pelos Sete ao invés da Força Aérea. Os Sete acabam falhando miseravelmente, e isso já começa assim que abordam o avião, quando Capitão Pátria abre a porta e uma criança é sugada para fora. Após isso, tudo começa a dar errado, ele fica com raiva e simplesmente abandona a missão. Mesmo assim, ainda há uma tentativa de fazer o avião pousar, mas Capitão Pátria não tem qualquer controle de sua força e parte o avião ao meio, o que faz com que ele caia na ponte do Brooklyn. E é isso que o Capitão Pátria faz quando está tentando realizar um bom trabalho, então imagine como é quando ele quer ser realmente ruim.

Um exemplo disso é aquela cena no início da série, onde Profundo conhece Luz-Estrela e a chantageia a fazer sexo oral. Nos quadrinhos, a ideia é do Capitão Pátria, que faz isso junto com Trem-Bala e Black Noir.

Na HQ, chega um ponto em que o Capitão Pátria começa a perder o controle da realidade. Ele é chantageado por uma fonte anônima com fotos suas realizando atos terríveis, mas o que mais o assusta é que ele não tem qualquer lembrança disso. Um crime que ele particularmente não lembrava era o estupro da esposa de Billy Bruto, o grande motivador do ódio do personagem contra os supers. Aliás, vale citar aqui que Becky, a esposa de Billy, realmente morreu ao dar a luz o bebê super-poderoso fruto do estupro, e aquele plot dela viva criando a criança, Ryan, não existe nos quadrinhos.

Perdendo o controle das situações e não tendo mais certeza dos próprios atos, o Capitão Pátria lentamente entra em uma espiral de loucura, transformando-se num total megalomaníaco. Em seu ato final, ele decide dar um golpe de estado, convencendo os outros supers a invadirem a Casa Branca. Eles pensam estar fazendo isso pela Vought, mas na verdade é um plano do próprio Capitão Pátria para governar o mundo – afinal, ele decide que pode fazer o que quiser.

Capitão Pátria mata o presidente dos EUA, e Billy Bruto o encontra no Salão Oval para o embate decisivo entre os dois. É nesse momento que descobrimos que outro membro dos Sete, o Black Noir, era na verdade um clone do Capitão Pátria, e responsável pela maioria das coisas horríveis que Pátria achou ter feito. Essa informação faz com que ele surte completamente, pois acredita que poderia ter sido um verdadeiro herói se não tivesse sido manipulado para acreditar ser maligno.

Capitão Pátria luta com Black Noir, mas acaba sendo morto no processo, não sem antes deixar Black Noir bastante detonado. Detonado o suficiente para que Billy Bruto consiga matá-lo, finalmente se vingando pela morte de sua esposa.

Considerando como a série de TV da Amazon vem trilhando seus próprios caminhos e tentando coisas diferentes da HQ, é altamente provável que o final do Capitão Pátria seja bem diferente. O plot envolvendo o Black Noir clone já não é mais possível, por exemplo, já que na série ele é um homem negro. Essas diferenças, aliás, tornam tudo ainda mais interessante, pois a adaptação consegue surpreender mesmo o espectador que conhece a obra original.

Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.