
Já tem um bom tempo que a indústria dos games encontrou um método de conseguir uma graninha a mais com suas produções, simplesmente estendendo o seu alcance para outras mídias, de forma a a) trazer os fãs daquela mídia para o seu game ou b) levar os fãs do seu game para aquela mídia, confiantes do retorno certo devido ao seu público fiel. Não interessa qual método dê mais certo, os dois trazem benefícios da mesma maneira. E sem dúvidas, a mídia que mais viu isso acontecer nos últimos anos é a literária.
É impossível que você vá a uma livraria e não dê de cara com pelo menos 10 adaptações de games de sucesso. E tem para todos os gostos: Diablo, God of War, Assassin’s Creed, Uncharted, Battlefield, Halo, World of Warcraft, Mass Effect… a lista é enorme. Não vou debater aqui se esse tipo de publicação claramente caça-níquel é problemática ou não, afinal de uma forma ou de outra é inegável que em alguns casos elas acabam realmente aproximando da literatura aquele jovem que só queria saber de games, e que pode acabar se enveredando por esse mundo e conhecendo muitas obras fantásticas. No entanto, é indiscutível a falta de qualidade literária na grande maioria dessas publicações, algo que acaba por criar um certo estereótipo do material.
Ok, feita essa pequena introdução, vamos ao que interessa, mas eu já já explico porque iniciei o texto dessa maneira. Essa ideia de que todo game de sucesso gera um livro, acabou afetando uma certa exceção à regra: The Witcher. Qual é, quem aí não conhece The Witcher? Principalmente a terceira parcela da franquia desenvolvida pela empresa polonesa CD Projekt Red, que recebe o subtítulo de Wild Hunt, e que fez MUITA gente correr atrás dos dois primeiros games, que até então nunca tinham ouvido falar ou simplesmente não se importavam. Jogo do ano, um dos games mais hypados dos últimos tempos, um alarde incrível, e como não poderia faltar… uma série literária nas prateleiras. Mas calma aí. Tem alguma coisa diferente dessa vez.

O fato é que muito antes de se tornar o game de sucesso que é hoje, Wiedźmin – como é conhecido em seu país de origem – era uma série literária de muito sucesso na Polônia, criada pelo escritor Andrzej Sapkowski, considerado praticamente um Tolkien em seu país, tamanho o sucesso de sua obra de fantasia. The Witcher surgiu como uma coleção de contos, que eram publicados na revista polonesa Fantastyka durante a década de 1980, sendo o primeiro deles chamado de “Wiedźmin” (O Bruxo) mais precisamente publicado em 1986. Somente na década de 90 esses contos foram compilados em forma de livros, dando origem ao que hoje são conhecidos como os primeiros livros da “saga do bruxo Geralt de Rívia“, O Último Desejo e A Espada do Destino. Esses dois livros de contos apresentam não apenas o protagonista Geralt, mas todo o universo da obra, todo o teor político que será tratado futuramente, e é claro, a maioria dos personagens que guiarão o que virá em seguida.
Foi somente em 1994 que Sapkowski decidiu pegar todas as ideias que havia colocado naqueles contos e escrever romances, dando início então a uma saga que atravessaria vários livros, sendo eles na ordem: O Sangue dos Elfos, Tempo do Desprezo, Batismo de Fogo, A Torre da Andorinha e A Senhora do Lago. Mas não pense que é possível começar a ler a obra a partir de Sangue dos Elfos. Os dois primeiros livros, apesar de se tratarem de contos, possuem uma ordem cronológica nos seus eventos e trazem acontecimentos extremamente importantes que serão tratados nos romances. O último livro foi publicado em 1999, mas em 2013 Sapkowski voltou ao universo que o consagrou, aproveitando o sucesso dos games, para escrever mais um livro, dessa vez um prelúdio de sua obra, chamado de Tempo de Tempestade.
No Brasil, The Witcher é publicado pela editora WMF Martins Fontes, sempre com duas opções de capas diferentes. Uma delas traz representações dos personagens que tem algum destaque na trama do livro em questão, e não possuem qualquer indício que remeta ao game. Já as alternativas, trazem não apenas o logotipo criado pela CD Projekt Red para sua franquia de jogos, como traz sempre o protagonista Geralt de Rívia com seu visual utilizado em The Witcher 3: Wild Hunt, numa clara tentativa de atrair esse público jogador. E é agora, exatamente nesse ponto, que voltamos lá na introdução do texto.

Livros baseados em games são estereotipados. Ponto. Conversei com muitas pessoas que não tinham qualquer conhecimento de que The Witcher possuía uma série literária que datava da década de 90, e o resultado foi sempre o mesmo: “Tinha preconceito porque pensei que era uma adaptação igual essas de games que tem por aí.” É inevitável. Nas grandes livrarias, a obra é colocada lado a lado com as adaptações de games que citei alguns parágrafos acima. E a comparação, principalmente nesse caso em especial, é injusta. Muito injusta.
A história criada por Sapkowski é incrível em todos os seus detalhes, não devendo em nada para grandes obras de fantasia como O Senhor dos Anéis, As Crônicas de Nárnia e As Crônicas de Gelo e Fogo. O estilo narrativo do autor inclusive lembra o de George R. R. Martin, apesar de ser menos detalhista e ter um número de personagens menor para lidar dentro de sua trama. A história gira em torno de Geralt de Rívia, um Witcher, que nada mais é do que um ser humano que sofreu mutações em sua infância, que o tornaram apto para caçar toda a espécie de monstros que assola esse mundo, fazendo desta a sua profissão. A palavra, derivada de “Witch” (bruxa), não possui tradução em português, e de uma forma literal serial algo como Bruxeiro ou Bruxador. Nas edições brasileiras optou-se simplesmente por “bruxo”, termo que foi aceito pelo autor original.
A vida de Geralt vira de cabeça para baixo quando ele vê seu destino sendo ligado ao da pequena Cirilla Fiona Elen Riannon, princesa do reino de Cintra, que acaba ficando sozinha após uma guerra que assola seu país, e sendo perseguida devido a seus poderes misteriosos. Ciri, como é chamada pelo bruxo, possui em suas veias algo conhecido como Sangue Antigo, e provém de uma antiga profecia élfica que diz que ela poderá ser aquela que salvará ou destruirá o mundo.
O primeiro game da CD Projekt Red, The Witcher, lançado para PC no ano de 2007, traz uma trama alternativa que cronologicamente se passa após os eventos do último livro, e usa de alguns retcons e liberdades criativas para contar sua história. No game, para que o jogador não precise ter conhecimento prévio do que ocorreu nos livros, é dito que Geralt perdeu a memória, e assim o jogador passa a “conhecer de novo” todos aqueles personagens que faziam parte da vida do bruxo nos livros. Ainda assim, os games respeitam bastante o universo criado por Sapkowski, e são recheados de referências para aqueles que leram a obra literária.
Para todos aqueles que gostam de uma boa fantasia ou simplesmente de uma boa saga, The Witcher é uma série indispensável. E se você tem interesse em jogar os games, tente fazer essa raríssima experiência invertida. Leia os livros primeiro, e parta para os games depois. Garanto que a experiência será muito mais proveitosa.






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