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A próxima série de super-heróis da Netflix é O Legado de Júpiter, baseada na série em quadrinhos de Mark Millar e Frank Quitely. Com a série servindo como a primeira adaptação Netflix do trabalho de Millar desde a aquisição de sua editora Millarworld em 2017, trazemos aqui uma visão geral da HQ e como o público deve se preparar antes da estreia do programa nesta sexta-feira.

Mas claro, lembrando que o artigo vai trazer spoilers dos quadrinhos, então se você quer assistir apenas a série da Netflix sem tomar informações importantes do enredo, esteja avisado.

Mark Millar e Frank Quitely lançaram O Legado de Júpiter em 2013, com a série em quadrinhos sendo uma reflexão sobre a Era de Ouro dos quadrinhos e sua extensão como personificações do sonho americano. A história se passa em um mundo onde a primeira geração de super-heróis viajou para uma ilha misteriosa e remota no Oceano Pacífico no auge da Grande Depressão em 1932. Um jovem chamado Sheldon Sampson e seus amigos recebem superpoderes durante a exploração da ilha e voltam para casa determinados a restaurar os Estados Unidos à sua antiga glória. Para fazer isso, cada um deles assume alter egos de super-heróis para inspirar o público em geral a seguir seu exemplo brilhante, formando uma equipe de super-heróis conhecida como “União”, com sede na cidade de Nova York.

A União é liderada por Sheldon como Utópico, um super-herói com poderes iguais aos do Superman, que costumava manter um emprego civil como um empresário de sucesso antes de se tornar um mecânico de automóveis para mantê-lo próximo ao povo. O irmão mais novo de Sheldon, Walter, tornou-se o super-herói Onda Cerebral, possuindo poderes de voo e habilidades psíquicas. A esposa de Sheldon e mãe de seus filhos é Grace Kennedy, que assume o apelido de super-heroína Lady Liberdade, e tem habilidades sobre-humanas que rivalizam com as do marido. A União é composta ainda por velhos amigos de Sheldon e Walter, como Fitz e George Hutchence, que desenvolveram os alter egos de super-heróis The Flare e Skyfox, respectivamente.

Mas não é sobre a União que a história se trata, ainda que eles sejam importantíssimos para a trama. O Legado de Júpiter segue os descendentes da União conforme os próprios heróis entram no estágio crepuscular de suas vidas, coincidindo com um país que enfrenta seu próprio declínio no cenário global, enquanto a economia começa a definhar novamente. Também segue os filhos de Sheldon e Grace, Brandon e Chloe, que diferentes de seus pais, vivem apenas de festas e holofotes por serem filhos de dois dos super-heróis mais famosos do mundo. E enquanto Brandon e Chloe tentam emergir da sombra da geração anterior, inimigos familiares e traição abalam a União enquanto tentam salvar o Sonho Americano de sua última crise e inspirar as pessoas novamente durante os dias atuais.

O Legado de Júpiter tece uma visão pós-moderna da Era de Ouro dos super-heróis e como eles impactaram a progressão dos Estados Unidos no início do século 21, à medida que duas gerações de super-heróis se vêem em confronto com o cenário de um país em declínio. O grande foco da primeira metade de história, que provavelmente é o que vai cobrir a primeira temporada da série da Netflix, traz o desentendimento entre os dois principais heróis da Era de Ouro, agora idosos, os irmãos Utópico e Onda-Cerebral.

Sheldon Sampson, o Utópico, como o nome diz, é literalmente utópico. Um exímio representante da Era de Ouro dos super-heróis, ele acredita que os jovens heróis, filhos e sobrinhos dos heróis clássicos, precisam ter responsabilidade de servirem de exemplo para o país com seus poderes ao invés de buscarem apenas fama. Assim como fez na década de 30, ele espera resolver os problemas dos Estados Unidos por meio da inspiração e de exemplos positivos, combatendo super-criminosos e salvando o dia da forma mais clássica possível. Já seu irmão Walter, o Onda-Cerebral, é mais pragmático, acreditando que os seres super-poderosos precisam agir de forma mais contundente na condução do país, criando um projeto para uma nova infraestrutura econômica pós-capitalista.

Essa divergência entre os irmãos vai criando uma tensão palpável até o momento em que Walter manipula o filho mais velho de Sheldon, Brandon, que já estava se sentindo subestimado pelo pai, a participar de um plano para tirá-lo de cena. Utópico é então traído e assassinado pelo próprio filho, enquanto outros jovens heróis participam de um ataque coordenado para assassinar também a Lady Liberdade. No entanto, Chloe, a filha mais jovem do casal, acaba fugindo graças a seu namorado, Hutch, que por acaso é o filho de SkyFox, o maior vilão que os heróis da União enfrentaram em seus tempos áureos.

O mundo passa então a ser governado pelo instável Brandon, claramente manipulado por seu tio Walter, o verdadeiro arquiteto dos planos de dominação. O planeta passa a viver numa espécie de distopia que lembra obras clássicas como 1984, de Georde Orwell, com as pessoas sendo constantemente vigiadas e aqueles com super-poderes sendo rastreados. Nove anos se passam, Chloe agora está casada com Hutch e os dois tem um filho, Jason, que cresce ouvindo histórias da Era de Ouro dos heróis, liderada por seu avô, e passa a realizar pequenos atos de heroísmo escondido de seus pais, que estão fazendo de tudo para mantê-lo escondido (e a si mesmos) de Brandon. É claro que, devido à irresponsabilidade infantil, Jason acaba sendo localizado, e é quando Chloe e Hutch acabam se expondo para salvar o filho. A partir daí começa o segundo ato da HQ, onde o casal decide que para enfrentar os maiores heróis do mundo… é preciso reunir os piores vilões.

A série da Netflix traz algumas pequenas mudanças em relação ao material original. O passado dos personagens, por exemplo, que foi mais explorado na HQ derivada O Círculo de Júpiter, é mostrado através de flashbacks intercalados com a trama no presente. Já Brandon, que na HQ é apenas um playboy, acaba ganhando um pouco mais de desenvolvimento na série, onde ele começa como um super-herói, assim como o Utópico, tentando ser reconhecido pelo pai. O atrito entre os dois na série é mais sobre a questão de matar ou não matar, mas eu vou me aprofundar mais sobre isso no nosso texto e vídeo de primeiras impressões da série, que entram aqui no site e no canal amanhã.



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