
Personagens excêntricos do mundo real, Alan Moore e Grant Morrison são tidos como dois dos maiores roteiristas de histórias em quadrinhos de todos os tempos – e o que muitos leitores mais jovens (porque quem é cascudo está ciente disso há muitos anos) não sabem é que existe uma ferrenha rivalidade entre os dois desde os anos 80.
Aposentado, o primeiro se autodeclara como um “mago”, renegando adaptações de qualquer obra que leve seu nome; o segundo, mais jovem e multimídia, está mais interessado em questionamentos sobre a realidade que pensamos que conhecemos. É curioso, porque até mesmo as aparências dos dois simbolizam antagonismo: Moore cultiva barba e cabelos muito longos e praticamente autorais, enquanto que Morrison prefere não manter nenhum pelo no rosto… ou sobre a cabeça.
Quem é da época provavelmente sabia que os dois entrariam em combate eventualmente: mais do que artistas inigualáveis, eles são seres humanos com pontos de vista muito sólidos – e incompatíveis. O resultado, como não poderia ser diferente, é uma briga de ideologias que, ainda que com suas infantilidades, dividiu os consumidores de quadrinhos por anos.
O otimista primeiro encontro
Em 1986, ano em que as obras de Alan Moore começaram a explodir de popularidade, o escritor de Watchmen participou de um jantar com Grant Morrison. “Ele era tímido e permaneceu calado pela maior parte do tempo. Foi a única vez em que o encontrei pessoalmente para conversar. Ele me disse que admirava meu trabalho e que o inspirei a se tornar um escritor de quadrinhos. Lhe desejei muita sorte”, comentou Alan em uma entrevista.
O escritor conta que, alguns meses mais tarde, leu edições da 2000 AD, editora britânica para a qual Morrison escrevia, para ter alguma ideia do que o “pupilo em potencial” andava produzindo. Ele opinou dizendo que as histórias tinham similaridades com algumas de suas obras, como Capitão Bretanha, e sugeriu que o companheiro de profissão estava reproduzindo conceitos usados por ele, mas destacou que tinha esperanças de que encontraria sua própria autenticidade no futuro. A declaração não agradou Grant Morrison.
O alvorecer da rivalidade
Morrison faz, poucos meses depois, uma série de afirmativas contra Watchmen, obra máxima de Alan Moore, dizendo que a história era muito experimental e pretensiosa. Ainda assim, ele envia uma carta diretamente para Moore, pedindo para que ele “abençoasse” sua jornada após assumir uma história do Kid Marvelman. O personagem derivava de uma saga que teve Alan Moore como um dos grandes arquitetos. Portanto, não era surpreendente que este reagisse negativamente à notícia.
Ciente do aspecto sarcástico do adversário, Moore, segundo Morrison, mandou outra carta, bastante áspera, como resposta: “Não quero que isto pareça um sussurro de algum assassino da Máfia, mas simplesmente caia fora.” A veracidade da mensagem, no entanto, é questionável, pois Moore diz que nunca a escreveu.
Quem copia os copiadores?
Cerca de dois anos de trégua depois, Grant Morrison publica um artigo em sua coluna em uma revista que escrevia. Ele deixa subentendido, em suas menções, que Alan Moore plagiou um livro de autoria de Robert Mayer, escritor pouco conhecido dos anos 70, para escrever Watchmen e outras histórias. Muitos interpretam esta investida direta contra Moore como uma espécie de contra-ataque ao que ele havia dito sobre 2000 AD.
Alguns anos se passaram, e ao ser questionado sobre esta alfinetada, Alan Moore espalha o boato de que Grant Morrison escondia seis anos de sua vida para continuar sendo chamado de “jovem gênio” dos quadrinhos. Não levava sua opinião com seriedade, portanto.
Décadas de reclusão
A briga, então, teve uma pausa de quase duas décadas. O motivo: um dos lados se recusava a atacar. Em meados dos anos 90, Alan Moore ficou ainda mais fechado do que era. Ele continuava escrevendo seus quadrinhos e livros, é verdade, mas aparecia pouco e suas entrevistas eram escassas (na verdade, seu nome só surgia na mídia quando ele queria atacar alguma adaptação de quadrinho dele). De certa maneira, ainda é assim. Contudo, isto não significa que o outro lado se acanhou. Muito pelo contrário!
Grant Morrison continuou tecendo seus comentários ácidos; falando, por exemplo, que Moore era obcecado por estupro e pedofilia, já que sempre abordava estes mesmos temas, e que, embora criticasse os super-heróis modernos, se aproveitou deles financeiramente enquanto pôde. Além disso, fez a icônica declaração: “Moore tem apenas um Watchmen. Já eu faço um novo a cada semana.”
O retorno do cavaleiro das trevas
A rixa ganhou mais um capítulo em 2012. O redator de um site de variedades publicou um artigo sobre os desentendimentos entre os dois escritores e, de maneira surpreendente, recebeu respostas de ambos.
O primeiro, Grant Morrison, contestou algumas informações que foram divulgadas e confirmou outras, reafirmando, por fim, que Moore plagiou muitas de suas ideias. O segundo, por sua vez, se defendeu dizendo que Morrison só havia pegado em seu pé para ganhar fama às suas custas, e comentou também que a “invasão” de quadrinistas britânicos nos Estados Unidos só aconteceu por sua causa.
Não obstante, Morrison retornou aos holofotes, opinando que Moore era praticamente desconhecido na época em que eles se conheceram e que, portanto, não faria sentido “sugar” fama dele. Desde então, Grant Morrison fez algumas breves novas críticas sobre Alan Moore, mas não conseguiu nenhuma resposta. Ao que tudo indica, o segundo abandonou de vez os ringues.
Farinha do mesmo saco
A rivalidade entre Alan Moore e Grant Morrison gera muitas conclusões, cujo teor depende da tendência do espectador. Quem gosta mais de Moore pode afirmar, por exemplo, que Morrison é infantil por levar suas dores para longe demais e insistir em diretas e indiretas; e quem tem preferência por Morrison pode dizer que a arrogância de Moore em sugerir que tudo é uma cópia de seu trabalho deu início à guerra.
As duas afirmativas não estão incorretas, mas a constatação mais sensata é evidente: eles são dois lados diferentes de uma mesma moeda. Acima de qualquer coisa, representam pontos distintos, mas que têm uma mesma origem, e são, ambos, artistas talentosos e egocêntricos à sua maneira, de personalidades muito fortes. Nenhum deles gostaria de admitir isto, porém, e eu certamente não ia gostar de estar presente caso eles se encontrem pessoalmente de novo.