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Não posso negar que, por muito tempo, adiei a escrita deste texto. Norrin Radd é meu personagem favorito e falar sobre ele sempre me exige uma alta carga de responsabilidade, afinal, existe alguém mais filosófico e pensativo do que o Surfista? “Parábola“, como o próprio nome já sugere, utiliza de personagens dos quadrinhos de super heróis para nos transmitir uma importante mensagem: os seres humanos possuem a necessidade que alguém os lidere e os guie em um caminho que sequer conhecem – mas que cegamente acreditam. Escrita pelo lendário Stan Lee e ilustrada magistralmente pelo Moebius, a HQ foi publicada pela primeira vez no ano de 1988 e conta com apenas 2 curtas edições.

A história começa com a misteriosa chegada de uma nave alienígena na Terra. A humanidade, temendo pelo desconhecido, entra em pânico. São, então, apresentados ao visitante: Galactus. Mesmo tendo prometido ao Surfista que jamais tentaria atacar o planeta novamente, o Devorador de Mundos agora tem uma estratégia diferente para pôr em prática. Descendo de sua nave com uma imponência digna de um Deus, Galactus faz com que o mundo todo acompanhe seus passos e suas palavras, logo sendo adorado e virando uma nova religião. Seu objetivo é fazer com que a própria humanidade se destrua, e, assim, não precisará proferir nenhum ataque ao planeta.

Em seguida, somos apresentados a Colton, um evangelista que vê na chegada do Devorador de Mundos uma forma de expandir ainda mais sua igreja e alcançar novos fiéis. O personagem se auto intitula como um profeta, afirmando que Galactus veio à Terra em resposta as suas súplicas e que é o caminho para a salvação. Em complemento as ações de Colton, o próprio Galactus sustenta que está no planeta para trazer uma nova era.

“Vim aqui para libertá-los! Libertá-los da culpa e das inúteis leis dos homens! Se quiserem ser salvos, façam o que quiserem! Tomem o que quiserem! Não existe nada errado! Não existe pecado! Prazer é tudo! Assim falou Galactus!”

Começa então uma onda de fanatismo desenfreado. Não há mais espaço para quem não concorda com as palavras de Galactus e seu profeta; quem questiona a santidade do mais novo Deus deve ser imediatamente silenciado. O caos se instala, a violência prevalece e a única lei é o próprio Devorador de Mundos.

Logo nas primeiras páginas do quadrinho, vemos que o Surfista ainda está vivendo em nosso planeta. Vagando pelas ruas como um maltrapilho, Norrin, como sempre, ainda mantém acesa a sua chama de bondade e está disposto a lutar novamente contra seu antigo mestre em defesa da Terra. É inegável o quanto o herói, mesmo sabendo da magnitude do poder de ser adversário, tem a bravura de tentar vencer. Ele sabe, ou melhor ainda, entende as fraquezas e mazelas da humanidade, e segue firme defendendo o que julga correto.

“Tentei deixar para trás a espécie humana, abandonar este patético mundo à sua própria loucura. Mas talvez a maior loucura seja a minha… pois não consigo dar as costas”.

O Surfista tenta, mesmo que em vão, conversar com as pessoas e fazê-las entender as reais intenções de Galactus. No entanto, a ignorância e a fé cega tomam conta, e o diálogo se torna inconcebível. Mesmo se passando por “herege” e “inimigo de Deus”, o Sentinela das Estrelas não desiste, seguindo firme na intenção de livrar a Terra das amarras de seu ditador.

O embate entre antigo mestre e arauto é televisionado para o mundo todo; o poder de Galactus causa cada vez mais destruição, desabando prédios e matando pessoas. E é justamente quando a irmã de Colton morre que o profeta se dá conta das atrocidades que seu Deus está cometendo, bem como o profundo nível de alienação em que a população está imersa. Ao redor do mundo, mais e mais pessoas começam a perceber o quão brutal e violento é o Devorador de Mundos, questionando a validade de sua própria fé.

Norrin segue lutando contra o novo Deus, e quando o vilão encurrala seu antigo arauto e achamos que tudo está perdido… a humanidade reage, atirando mísseis contra o gigante e tentando a todo custo cessar a matança e a destruição. Mesmo possuindo um poder infinitamente maior, Galactus não revida, pois percebe que os humanos deixaram de lhe adorar. Dessa maneira, admite a derrota de seu plano e, mantendo a sua palavra, não investe contra a população. Após libertar o Surfista, o Devorador de Mundos parte, proferindo uma das frases que mais considero essenciais para nós, independente da época:

“Ainda voltarei… e saborearei o triunfo. Pois a memória coletiva do homem é terrivelmente curta”.

Agora que Galactus se foi, a humanidade está livre. Contudo, a necessidade de ter uma figura que os comande e que interprete o papel de líder ainda se mantém viva, e dessa vez o escolhido para o papel é o próprio Surfista. As pessoas começam a idolatrá-lo, pedindo para que os guie e afirmando que serão seus discípulos. Visto agora como uma santidade, Norrin percebe o quanto o pedido é infundado, e que dessa maneira o destino dos seres humanos é viver em uma eterna dependência. A única maneira que encontra fazê-los perceber o próprio erro é agindo como um tirano: mudando completamente seu comportamento durante seu discurso na ONU, o Surfista faz com que desistam da ideia de o terem como líder.

Em meio a multidão, o único que percebe a real intenção do Sentinela das Estrelas é Colton. Em meio a súplicas, este pede ao Surfista que fique, que os ajude, proclamando que é a única esperança de uma humanidade doente. Mesmo com todos os gritos do antigo profeta, Norrin parte; ele sabe que precisa fazer com que os próprios humanos percebam seu erro, para que só assim possam finalmente viver livres. Sua partida, contudo, não significa a ausência de um retorno futuro: mesmo perante as incontáveis decepções e as mais diversas represálias, “jamais desistirei de achar um oásis de sanidade no deserto de loucura que os homens chamam de planeta Terra”.

Durante toda a história, além do fanatismo em torno de uma nova figura tida como mística, vemos o claro interesse de pertencimento da sociedade a uma ideologia determinada. Sem questionar a veracidade e muito menos processar as informações que lhes são colocadas, mais e mais pessoas ingressam na horda de seguidores de Galactus, apenas se entregando à maré momentaneamente convencionada. Quem pensa diferente e discorda, é herege. Quem não está disposto a seguir as ordens do novo mestre e seu profeta, deve ser eliminado, afinal, por qual razão alguém se oporia a um Deus?

Por outro lado, vemos Colton, o nítido representante que se aproveita das tendências de massa para moldar, conforme seus desejos, indivíduos contaminados por ideias fixas. Seu objetivo não é trazer luz aos desinformados, ou levar à salvação aqueles que estão perdidos; seu interesse é crescer, se aproveitar, usar os próprios fiéis como degraus da sua escada rumo ao estrelato. Para isso, pouco lhe importa a matança, a destruição, a alienação: tudo se justifica se no final sua vontade for realizada.

O que mais me fascina na obra é como, mesmo sendo escrita em 1988, ainda se mantém tão verdadeira e cabe como uma luva em nossos percalços modernos. Nesse ponto, me vejo obrigada a concordar, em gênero, número e grau, como o Devorador de Mundos: a memória da humanidade é curta. Curtíssima, eu diria. Nos esquecemos, ou melhor, não fazemos questão de lembrar das nossas próprias atrocidades, de nossos maiores erros e de nossas terríveis escolhas, cominando em um ciclo vicioso cada vez mais difícil de ser quebrado.

Posso dizer, com toda a certeza que me cabe, que “Parábola” é uma obra definitiva. Não me refiro à palavra no sentido conclusivo, mas sim no decisivo. Ao entrar em contato com uma história dessa magnitude, é praticamente impossível que não sejamos tocados pela crítica social muito bem construída no decorrer dos quadros. Certas características e formas de agir se mostram inerentes ao ser humano, que está fadado à repetir seus próprios erros se não tiver a inteligência de aprender com eles. E é nesse calo que Stan Lee e Moebius pisam, utilizando de forma cirúrgica elementos que misturam desde política até religião, cominando em ideias reflexivas e profundamente potentes.

Em tempos de tirania devemos ser que nem Norrin Radd: lutar por aquilo que é certo, e, em hipótese alguma, deixar que o ódio e a intolerância prevaleçam sobre a paz e a justiça.