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A nova série da HBO, Watchmen, causou um alvoroço na comunidade de quadrinhos. Principalmente com os fãs do vigilante objetivista conhecido como Rorschach. Ocorrendo décadas após os eventos da aclamada obra de Alan Moore e Dave Gibbons, a série de Damon Lindelof aborda questões modernas como racismo e grupos de ódio através das lentes dos mitos de Watchmen. Embora alguns tenham criticado as diferenças tonais da série da HBO em relação ao material de origem, uma das maiores reclamações é sobre um grupo de supremacistas brancos que obteve um nível chocante de inspiração de um dos personagens mais reconhecíveis de Alan Moore.

Conhecidos como “Sétima Kavalaria” (o “K” provavelmente é uma referência à Ku Klux Klan), o culto de Rorschach mata abertamente policiais e publica vídeos de si mesmos condenando “traidores da raça”, enquanto usam versões baratas da icônica máscara com manchas de tinta de Rorschach. Baseado nos primeiros episódios, bem como no site da HBO Peteypedia, o grupo terrorista é fortemente inspirado no Diário de Rorschach (agora publicado) da série original. Além de odiar a polícia (que também usa máscaras após a Lei de Defesa dos Policiais), a Sétima Kavalaria acredita que as últimas décadas de “liberalismo” do presidente Robert Redford são o resultado de uma fraude elaborada orquestrada pelo bilionário e grande colaborador do Partido Democrata, Adrian Veidt . Eles vêem Rorschach como uma figura messiânica que morreu em uma cruzada pela verdade. Mas como o próprio Rorschach se sentiria em relação a isso?

Embora parte do que a Sétima Kavalaria acredita seja ironicamente verdade – Veidt de fato orquestrou um ataque alienígena trans-dimensional falso que matou 3 milhões e Rorschach foi de fato assassinado para manter isso encoberto – o que tem deixado alguns leitores de quadrinhos revoltados são os paralelos que a série da HBO desenha entre as visões de extrema direita do grupo de ódio e as do próprio Walter Kovacs. Mas, como o próprio Alan Moore apontou repetidamente, Rorschach nunca foi concebido para ser um modelo, mas sim uma visão honesta do objetivismo, hipernacionalismo e absolutismo moral de Ayn Rand.

Moore certa vez descreveu as visões de mundo de Ayn Rand como risíveis e “sonhos supremacistas brancos de uma raça dominante”. Rorschach foi criado como uma paródia da filosofia de Rand chamada objetivismo – uma crença que coloca os próprios objetivos, ambições e interesses próprios acima de tudo. Durante a obra original de de Moore, Rorschach é retratado como um homem solitário que reage a situações com violência gratificante e sem pensar muito em como seus atos afetam os que o rodeiam.

Ele é um indivíduo astuto que pode evitar um tumulto na prisão, mas é extremamente apático em seus métodos. Também deve ser salientado que muitas das visões de Rand eram racistas, principalmente sobre árabes e nativos americanos (ela também inadvertidamente iniciou seu próprio culto). Não que Rorschach busque ativamente maneiras de prejudicar grupos marginalizados, mas ele provavelmente não se importaria se a reação de suas ações inspirasse outros a fazer exatamente isso.

Ligando os quadrinhos à série da HBO, a Peteypedia descreve Rorschach como um “indivíduo profundamente alienado” que sofreu anos de abuso infantil e trauma de abandono nas mãos de sua mãe, o que o levou a abraçar a violência como um meio para atingir um fim também. Essa avaliação é baseada no perfil criado pelo Dr. Malcolm Long enquanto trabalhava como terapeuta de Rorschach nos quadrinhos. Embora seja verdade que Kovacs nunca mostrou sinais diretos de racismo em relação a Long (que era negro), os arquivos de Rorschach também notam sua obsessão pela publicação de extrema direita “New Frontiersman“. Embora seu amor pelo jornal seja provavelmente atribuído ao elogios constantes de suas façanhas como vigilante, o jornal publicava regularmente artigos passando pano para grupos racistas como a Ku Klux Klan e promoveram a paranoia da Ameaça Vermelha.

O fato de Kovacs não se importar em ignorar esses problemas com sua única fonte de notícias sugere que ele provavelmente faria o mesmo pela Sétima Kavalaria e suas visões racistas. E Rorschach não apenas lia o New Frontiersman – ele o escolheu como o destinatário de seu diário sagrado antes de sua missão de enfrentar Ozymandias no ato final da série em quadrinhos. Se Kovacs não concordasse, pelo menos em parte, com as opiniões extremistas da publicação, ele provavelmente não lhes daria seu manifesto. E não fosse o New Frontiersman publicar o diário de Rorschach, a Sétima Kavalaria não existiria. Rorschach não era racista o suficiente para se juntar a um grupo supremacista branco enquanto estava vivo… mas ele era claramente racista o suficiente para iniciar um, inadvertidamente, após a sua morte.

Texto adaptado de artigo do ScreenRant.



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