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É o mês das mulheres! E nós preparamos outra de nossas listinhas para sublinhar a importância delas nas nossas vidas. Dessa vez temos uma lista de quadrinhos feitos inteiramente por mulheres, da ideia aos letreiramentos! Prepare-se que lá vem a lista!

DESCONSTRUINDO UNA, DE UNA

É interessante que a tradução brasileira para este título da inglesa Una, vítima de subsequentes abusos sexuais desde sua infância até sua idade adulta, não dá conta do seu título original. O título original é Unbecoming Becoming, algo como que soaria como a impossibilidade de ser tornar qualquer coisa, algo que está em transformação mas também está estagnado. Isso é algo que o sentimento de ter sido violentado sexualmente deve trazer para uma pessoa, uma inércia que destrói todas as chances de vir a ser qualquer coisa que se mostra valiosa, ou ainda que qualquer tentativa do tipo vai ser destruída ao saber deste estigma. Una nos traz um pouco da sua história, mas também traz alguns dados e pesquisas sobre o estupro no Reino Unido e de como isso é tratado de forma leviana por causa da dominação masculina sobre as mulheres. Um quadrinho extremamente pesado, mas necessário nos dias de hoje em que muitas pessoas não percebem o quanto suas ações podem insuflar mais e mais violência contra as mulheres.

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FUN HOME: UMA TRAGICOMÉDIA EM FAMÍLIA, DE ALISON BECHDEL
Alison, a autora de Fun Home, além de quadrinista também é formada em Inglês e ela aproveitou essa verve, vinda de seu pai, professor de literatura para construir o seu quadrinho Fun Home, comparando assim as pessoas da sua família com grandes personagens da literatura universal. Com suas tirinhas Dykes To Watch Out For (algo como Sapatas para ter cuidado/Sapatas para prestar atenção) ela criou o famoso teste de Bechdel, que serve para dizer se uma mulher está sendo bem representada em uma peça do entretenimento. O incrível de Fun Home não é apenas a sua intertextualidade com outras obras, mas aquilo que ela faz quando tece suas considerações sobre a formação de sua identidade e sexualidade queer. Ela não somente entrelaça esse tipo de narrativa com outras histórias como, no percurso que demonstra a sua própria história de saída do armário, ela percebe que durante todos os anos em que esteve vivo, seu pai escondia uma identidade homossexual, deixando, dessa forma, diversas aberturas na trama para o próprio leitor complementar. Essa é a genialidade do quadrinho: colocar as certezas do leitor em xeque. 

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DUPLO EU, DE NAVIE E AUDREY LAINÉ

Duplo eu é um quadrinho que fala o quanto nos escondemos nos nossos vícios e o quanto esse fato acabam nos mostrando cada vez mais e nos mostrando cada vez mais frágeis através deles. Duplo eu é uma história muito bem construída, com reflexões maravilhosas e desenhos encantadores. Ela não serve para refletirmos apenas sobre distúrbios alimentares ou outros vícios, mas também sobre a forma como conduzimos nossas vidas. Duplo eu é o quadrinho de uma luta real de uma pessoa que é mais forte que uma super-heroína porque ela não decidiu enfrentar o inimigo comum, que são os outros, mas a um inimigo muito mais poderoso, que é a si mesma. O grande trunfo é que essa heroína conseguiu sair vitoriosa desse embate, não através do combate, mas abraçando o inimigo e aceitando dentro de suas possibilidades. Outro elemento que está de parabéns na edição brasileira de Duplo Eu é a bela adaptação feita pela Editora Nemo para as letras feitas pela desenhista original, incrivelmente bonitas e casando com a história. Fato essa, que temos que destacar sempre, pois editora com maior poderio econômico dispensam detalhes como esse e entregam um trabalho ruim de adaptação visual dos quadrinhos. Parabéns então para a Nemo pela escolha do título e pelo trabalho desempenhado na edição do mesmo.

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GAROTA-SIRIRICA, DE LOVELOVE6

Este é um quadrinho muito divertido que aborda uma temática que já é tabu sendo abordada em sua versão masculina, mas quando passa para a sua versão feminina, o tabu explode em níveis estratosféricos: a masturbação. A Garota-Siririca, quadrinho bem-humorado da carioca LoveLove6, aborda a masturbação feminina das mais diferentes forma e através dos mais diferentes sex toys e maneiras de se atingir o prazer. O que para muitos pode ser um mito, ou para alguns homens, algo que nem deveria existir ou que na sua concepção nem existe, o prazer feminino é algo que precisa se exposto e debatido. A Garota-Siririca também traz uma outra abordagem que é falar sobre pessoas viciadas em sexo ou em prazer sexual, ou ainda manipuladas facilmente pelo desejo sexual. Os desenhos de LoveLove6 são bastante caricatos, mas são de fácil identificação e são bastante gráficos, é claro, podendo ter um potencial de educação sexual imenso. Afinal, num país como o Brasil em que a gravidez na adolescência se alastra e as doenças sexualmente transmissíveis estão cada vez mais presentes na realidade de todo brasileiro, em seus mais diversos níveis e periculosidades, é preciso conscientizar as pessoas sobre as possibilidades e impossibilidades de seus corpos. Nisso, Garota-Siririca é sensacional!

PARAFUSOS: MANIA, DEPRESSÃO, MICHELANGELO E EU, DE ELLEN FORNEY

Ellen Forney nos traz um belo trabalho em que discute doenças mentais com criação artística ao mesmo tempo em que conta um pouco da sua vida e formação como artista plástica e quadrinista. Na sua concepção os remédios tomados para o controle das doenças mentais acabam embotando a mente para a criatividade e, por isso, ela acredita que não deve tomá-los se quiser continuar com seu trabalho artístico. Assim, Ellen passa a mostrar para o leitor como é o seu cotidiano tentando suprimir os efeitos de sua bipolaridade e sua depressão sem tomar remédios que atenuem esses efeitos, mas sempre criando muito. Ellen então faz comparações com diversos outros gênios da arte universal, como por exemplo, Michelangelo. Nesse sentido, Ellen acaba dividindo as pessoas em dois tipos: não em loucos e sãos, mas aqueles que têm consciência de suas doenças e se tratam e aqueles que têm consciência de sua doença, mas não querem se tratar. Acredito também que essa é a divisão que deva ser feita entre as pessoas e não aquelas baseadas em preconceito e desinformação como tudo aquilo que vem da mente e não pode ser verificado com sintomas físicos. 

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