Em um universo pós Crise nas Infinitas Terras, a necessidade de recontar a origem dos principais personagens da DC surgia como uma maneira de atrair novos leitores, bem como de rebootar um universo que já se encontrava confuso e cansado. Entre muitas histórias desta nova fase, “Ano Um” se destaca por conseguir, além de abordar muito bem a origem do homem morcego, nos mostrar um paralelo entre como Batman e o até então Tenente Gordon lidam com o crime em Gotham. Publicada em 1987, a história é escrita por Frank Miller e ilustrada por David Mazzucchelli, contando com 4 edições. Aqui no Brasil, a obra é publicada pela editora Panini.

Logo nas primeiras páginas do quadrinho, somos apresentados a duas realidades muito distintas, e que serão cruciais para entendermos a dualidade de pensamentos entre os dois personagens principais. De um lado vemos Jim Gordon, tenente da polícia e já bem ambientado com os constantes problemas que uma cidade pode enfrentar. De outro, temos o jovem Bruce Wayne, o herdeiro de uma enorme fortuna que resolveu voltar à Gotham depois de 12 anos fora. Gordon, que está esperando um filho com sua esposa Bárbara, vê na cidade um péssimo local para constituir uma família, e acaba inicialmente se submetendo a situações degradantes para manter o emprego e garantir uma boa condição de vida.

Podemos dizer que a diferença na mentalidade de Bruce e Gordon se dá, primeiramente, no foco inicial de cada um. Bruce ainda mantém uma imaturidade, um afastamento dos reais problemas e das reais causas de degradação em Gotham. Por ter sido criado em uma realidade muito diferente da maioria esmagadora dos demais habitantes (e das pessoas em geral), o jovem acaba por ter um parâmetro extremamente amplo do que considera como “inimigo”, não conseguindo enxergar que a sordidez da cidade se dá, principalmente, pela corrupção enraizada nos mais diversos sistemas. Como exemplo, podemos citar o pensamento que Bruce teve ao pegar o avião em direção a cidade: achar que, pegando o trem, estaria mais próximo do inimigo.

Gordon, por sua vez, se encontra cada vez mais inserido no dia-a-dia corrupto da polícia. Seu parceiro, Flass, além de se comportar de forma assustadoramente violenta e abusar do seu poder, vê que Jim jamais compactuaria com suas ações deturpadas. É interessante ver como Gordon, mesmo sabendo o quão difícil vai ser lutar contra a decadência da polícia e aqueles que a perpetuam, segue tentando fazer a coisa certa.
Uma ótima cena que demonstra claramente o espírito de justiça de Gordon se dá quando, ao ser encurralado pelos capangas de Flass, se defende e tenta dar o seu melhor mesmo cercado por um grupo de homens. Ele sabe que, se sair de dentro do sistema, não irá conseguir mudá-lo. Para corroborar com seu ímpeto de justiça, Jim percebe que, por ensejar o desejo de ser silenciado e desmotivado, deve estar causando um incomodo significativo àqueles que busca combater.

Mesmo tendo sérias críticas ao comportamento que Gordon tem com sua esposa, e com a jamais justificável traição que comete ao se envolver com Essen (fatos que pretendo abordar em outro texto), preciso admitir os pontos positivos que Miller traça na construção do personagem. Pra mim, o tenente é uma ótima representação, no sentido profissional, de uma pessoa que, mesmo frustrada com o caminho que a sociedade tomou, ainda tem esperança de conseguir fazer o seu melhor e mudar, mesmo que pouco, o que enxerga como errado.

Com o decorrer das páginas, começamos a ver um Bruce mais maduro, bem como o nascimento da identidade do Batman. Ao perceber que o crime em Gotham não está apenas em pequenos delinquentes, o morcego parte então ao encontro daqueles que, em decorrência do poder e do medo, corrompem toda uma ideologia. Mesmo com métodos e abordagens diferentes, conseguimos ver o caminho de Bruce e Gordon começando a se entrelaçar. O objetivo dos dois é o mesmo: fazer com que a cidade não seja mais um local de violência, crime e corrupção; o que os distingue é justamente a forma como enxergam os responsáveis pelas intensas mazelas.
Em uma comparação meramente ilustrativa, podemos dizer que Gordon e Bruce são correspondentes ao Matt Murdock e o Demolidor. Enquanto um luta e tenta fazer a justiça pelos caminhos da lei, o outro segue a estrada da “justiça com as próprias mãos”, nos fazendo refletir que nem sempre o certo se dá por meios legais.

Além de um ótimo ponto de partida para quem deseja começar a ler quadrinhos, “Ano Um” também é uma ótima história para quem já conhece o personagem. O roteiro de Miller nos prende e nos faz acompanhar de perto os primeiros passos do herói, cumprindo com maestria o desafio de recontar a origem de um dos personagens mais famosos das HQs. Em conjunto, a arte de Mazzucchelli nos insere de cabeça na realidade “suja” de Gotham, nos passando uma atmosfera densa e lúgubre. Vale ressaltar que o quadrinho ganhou uma ótima adaptação em animação no ano de 2011, produzida por Bruce Timm e co-dirigida por Lauren Montgomery e Sam Liu.






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