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Os Erros de uma Geração que Não Lutou

A guerra vista pelos olhos dos jovens que foram obrigados ou convencidos a lutar e morrer nos campos de batalha já foi tema de várias publicações. Passando por Nada de Novo no Front, com a exposição dos dramas bélicos e a camaradagem na Primeira Guerra Mundial, ao absurdismo e ficção científica de Matadouro 5, e até mesmo por histórias de cunho mais aventuresco, como as obras de Sven Hassel, o ressentimento da juventude frente à futilidade da guerra e à geração mais velha que os levou a guerrear foi bastante retratado. Um Artista do Mundo Flutuante, obra ganhadora do Whitbread Book of the Year Award, de Kazuo Ishiguro, não foge de premissa semelhante, mas, quanto à visão que apresenta da guerra, mostra um ponto de vista diferente: as impressões e sentimentos de uma geração que mandou seus filhos para a morte e sobreviveu. Nesse ponto, o autor não só está à altura de obras consagradas sobre guerra, como livros de Erich Maria Remarque e Kurt Vonnegut: os complementa.

Narrado em primeira pessoa pelo protagonista, o livro mostra dois anos da vida de Masuji Ono, um pintor velho, veterano e avô que vê a sua cidade e a juventude japonesa começarem a mudar à sua volta, deixando para trás os valores que regiam o país durante a Segunda Guerra. Durante os eventos triviais da vida pacata que leva em sua aposentadoria, Ono acaba relembrando seu passado; o desenvolvimento de seu “eu” artista enquanto um visitante do “Mundo Flutuante” – o universo noturno e fugaz dos bares e bairros de prazer, foco do estilo artístico Ukiyo-e –, bem como acabou se encaminhando para incutir em suas obras um espírito nacionalista e militarista, efetivamente produzindo propagandas de guerra que levaram seu filho – e muitos outros filhos – a perderem as vidas em campo de batalha.

O choque das gerações é um dos pontos principais da obra, sendo justamente o gatilho que faz com que Ono venha a rememorar o seu passado e autoavaliar as suas convicções. Sua filha mais nova já está muito além da idade adequada para casar, e de alguma forma ela e a irmã parecem compartilhar secretamente da opinião que o pai é o culpado pelos arranjos do último casamento terem dado errado. O personagem, que em sua narrativa se mostra calmo e ponderado, se ressente desse comportamento de suas filhas, no entanto, se coloca em uma série de pequenas investigações cotidianas para descobrir o motivo da família do antigo noivo de Noriko ter se recusado a dar seguimento aos procedimentos e em como pode garantir que as negociações mais atuais para o casamento da filha não sofram do mesmo destino.

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O personagem demora algum tempo para descobrir os motivos, mas durante sua narrativa é crescente a sua percepção de como os jovens da nova geração não lhe olham com bons olhos. Um tanto paranoico, ele ouve enquanto o ex-futuro genro fala de um empresário que contribuíra para os esforços de guerra e se suicidou para livrar os empregados da pressão e da mancha de seus atos. Sempre polido e pensativo, Masuji Ono tem dificuldade em entender de fato a indisposição que os jovens têm com seu passado e suas velhas crenças, atrelando esses contrastes a sua própria falta de atenção ou por haver interpretado mal o sentido de uma conversa.

E é justamente essa personalidade de Ono que configura um dos pontos altos da obra, até mesmo justificando sua existência. Em Um Artista do Mundo Flutuante não se vê um velho ranzinza acusando a juventude de ter tomado caminhos errados, ou, como é mostrado em Nada de Novo no Front, conspirando com todo um peso e pressão para fazer com que se lancem à guerra e saúdem a glória da nação. Na obra de Ishiguro, o protagonista tem consciência do papel que teve e uma delicadeza estranha ao pensar sobre a guerra. Nem em sua narrativa nem em sua personalidade é possível perceber qualquer dureza ou rigidez – suas ideias sobre as necessidades de expandir o país e de um imperialismo japonês vêm com a mesma leveza dos momentos em que comenta sobre suas visitas ao Mundo Flutuante. É com uma alegria melancólica que Ono pensa sobre o passado e sobre a guerra e vê a sociedade, sua cidade e a nova geração mudarem e tornarem-se hostis ao seu redor.

Mas, apesar do que o personagem quer fazer parecer em sua narrativa nem um pouco confiável, seu pensamento acerca suas próprias convicções e o reconhecimento das consequências de seus atos não são algo que foram previamente internalizados. Conforme explora o passado, frequenta o que restou do Bairro do Prazer, no único bar que não foi destruído e abandonado, e rememora os seus dias de glória, Ono vai pouco a pouco entendendo o porque de estar se sentindo hostilizado por suas filhas e pelos jovens que combateram na guerra passada, aprendendo no processo a aceitar, ou melhor, a enfrentar a culpa pelos seus atos e pelas pinturas que serviam de propaganda de guerra.

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De relance, talvez se possa ter a impressão de que uma história como a de Um Artista do Mundo Flutuante pudesse ser contada em qualquer país que participou mais ativamente da guerra. Contudo, a forma como Ono interage com a nova geração é essencialmente japonesa e caso o personagem fosse tratado pelos jovens de modo diferente da forma respeitosamente – e dissimuladamente – agressiva que eles utilizam, o crescimento do artista seria completamente diferente. Os diálogos e até as descrições dos modos e expressões dos personagens são nitidamente nipônicos e sem eles não só a história perderia muito de seu sabor, como não conseguiria se sustentar. Somente com a hostilidade velada que Ono percebe dos mais jovens, que pode ou não pode estar ali – e que é tão japonesa em seus modos –, torna-se possível a trama de Kazuo Ishiguro.

Um Artista do Mundo Flutuante é uma obra que vale o seu reconhecimento. Os diversos aspectos do livro se interconectam e dependem um do outro, mas podem ser observados e aproveitados em separado. Apesar do pós-guerra e do choque de Ono ao perceber estar sendo deixado para trás serem os grandes motes da história, ela ainda pode ser aproveitada pela proximidade com a cultura japonesa e por todo o mundo artístico e flutuante. Isso, claro, se o leitor estiver disposto a uma obra melancólica e ponderativa, com um eterno ritmo de algo que já passou.



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