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Doutor Estranho foi adaptado para o cinema, mas sempre é tempo para ler várias obras do personagem e aprender mais sobre o Mestre das Artes Místicas. Porém, não há como negar um grave problema: há uma enorme escassez de material disponível do Doutor Estranho no Brasil. E o pior: Por muito tempo, o personagem deixou de ter títulos próprios, fazendo pequenas participações em eventos e crossovers. Só agora, na nova fase da Marvel, depois de mais de uma década, é que ele ganhou um novo título.

Mas não dá para culpar a Marvel por isso, afinal, Doutor Estranho é um personagem difícil. Ele não é mais um super-herói. O Doutor Estranho está acima do heroísmo, ele necessita que seus roteiros sejam verdadeiros exercícios de imaginação, visto que ele é capaz de enfrentar um enorme leque de inimigos: monstros, vampiros, cultos satânicos, demônios, lobisomens, super-vilões, criaturas da noite, criaturas extradimensionais e praticamente qualquer coisa que inventarem. Seguindo a série já iniciada por Murilo Oliveira, apresentamos o Guia de Leitura do Doutor Estranho

Antes de mais nada, devo explicar que este guia é bem diferente do padrão já estabelecido, assim, iremos começar abordando as 5 fases clássicas do personagem, que são encabeçadas por:


Bem, nós temos um novo personagem sendo desenvolvido para o título STRANGE TALES (apenas para preencher 5 páginas, chamado Doutor Estranho) Steve Ditko irá desenhá-lo. É meio que um tema sobre magia negra. A primeira história não é ótima, mas talvez possamos fazer algo com ele — foi ideia de Steve e eu achei que poderíamos dar uma chance, ainda assim, tivemos que apressar bastante a primeira história.

Stan Lee

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Em Julho de 1963, a dupla Stan Lee & Steve Ditko trouxe o Doutor Estranho para as páginas da Strange Tales #110, um arrogante e brilhante cirurgião que sofre um acidente e perde parte das funções motoras de suas mãos, acabando com sua carreira. Incapaz de operar novamente, ele recusa ser um assistente de outros cirurgiões e busca todo tipo de ajuda. É aí que ele descobre a cura, a paz interior e a magia através do Ancião, que acaba se tornando seu mestre. Stephen começa o seu treinamento mágico e caminha entre a linha do divino e o humano. (porém, esta origem só é contada em Strange Tales #115). A partir daí, a Marvel abriu as portas para novas realidades, as histórias do Doutor Estranho eram do tamanho da imaginação e habilidade da dupla, ou seja, ilimitadas. A primeira história do personagem está presente no volume #31 da coleção Os Heróis Mais Poderosos da Marvel, lançada pela editora Salvat, vale notar que é a primeira publicação do material no Brasil. A fase é bastante experimental, Stan Lee e Steve Ditko quiseram tentar algo fora do padrão dos super-heróis e mergulhar em algo diferente.

Eu devo ser o melhor… o maior!!! Ou então… nada!

Stephen Strange (após recusar ser assistente de cirurgião)

No começo, o Doutor Estranho tinha histórias curtas e fechadas, que ficavam no fim da revista. Geralmente, elas consistiam em simples batalhas entre o Stephen Strange e seu arqui-inimigo, o Barão Mordo. Entretanto, com o sucesso crescente do personagem, Strange embarcou em uma jornada épica para salvar o seu mentor, o Ancião, a história começou a ser contada de forma contínua a cada edição e a profundidade do roteiro foi aumentada de forma significativa. No mesmo passo, a arte de Steve Ditko ficou mais psicodélica, o que trouxe ainda mais complexidade ao personagem. 


Um truque interessante de Stan Lee foi soltar várias dicas de um grande vilão, Dormammu, muito antes do monstro aparecer de fato. O personagem era citado em várias edições, então, quando o demônio finalmente apareceu, os leitores ficaram empolgados. Ele não era apenas o vilão da edição, ele era “O Vilão“, regente de um mundo de pesadelos, capaz de causar danos irreparáveis à nossa realidade. O primeiro encontro é contado na edição #126 da Strange Tales e a aventura termina no número seguinte. Aqui, vemos Stephen Strange viajando até a dimensão do vilão para evitar que ele quebre nossa realidade, no fim da história, Stephen recebe o seu icônico Manto da Levitação


O segundo encontro de Stephen Strange com o vilão é contado no encadernado “Doutor Estranho: Uma Terra Sem Nome, Um Tempo Sem Fim” (clique aqui para ver o review),  que reúne as histórias contidas na revista Strange Tales #130 até 146.  A história é considerada por muitos como a primeira “Graphic Novel” americana. O arco é notável por sua extensão e visão, cheio de cenas surpreendentes, reviravoltas impressionantes  euma belíssima arte. Stephen é perseguido ao redor do globo por Dormammu e seu lacaio, o Barão Mordo. O herói precisa encontrar uma entidade cósmica conhecida como “Eternidade” e escapar de seus inimigos, visto que ele está despojado de seus poderes, cego e acorrentado. Basicamente, ele tem que superar todos os limites para poder sair vitorioso. 

Na época, Stan Lee estava deixando alguns títulos como roteirista, assim, ele escreveu as edições  #138 até #142, deixando Roy Thomas com o  #143 até #144 e Dennis O’Neil com  #145 até #146. Porém, um novo roteirista precisava assumir as histórias do doutor. E Stan Lee também determinou que entrasse um novo artista, começa a fase de:



Em Maio de 1968, a revista Strange Tales foi cancelada no número #168, o que deu um título próprio para o Doutor Estranho, porém, apesar de ser uma nova revista, sua numeração continuou de onde a Strange Tales tinha parado, assim, a primeira revista era a “Doctor Strange #169“. Roy Thomas assumiu o título ao lado do artista Gene Colan.

A escolha do artista foi bem importante, visto que ninguém conseguia trazer o estilo psicodélico apresentando por Steve Ditko, então, Colan fez algo próprio: ele era um artista que era mestre em usar tons sombrios, um artista do puro horror. Logo, ele criou as mais assustadoras entidades demoníacas já vistas nas histórias do Estranho. Thomas aproveitou bem isso e levou a lenda do Doutor Estranho para um novo patamar.


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Um dos pontos altos está em “Doctor Strange #177“, em que Stephen Strange enfrenta um culto de satanistas, tal fato foi motivado pela preocupação da época sobre este tipo de atividade nos EUA. Um fato interessante aqui é que Stephen Strange chegou a usar uma máscara (veja na capa ao lado), que dava a ele uma aparência de fantasma ou espectro, mas foram feitas outras melhorias: Stephen possuía um visual mais oriental, que pode ser visto na fase anterior, o novo design removeu boa parte desses elementos e deixou o mago mais parecido com aquele que conhecemos. Ele passou a usar um traje mais aerodinâmico, com calças mais apertadas e botas. A capa da edição se tornou um clássico imediato. A Marvel chegou a fazer um pôster, que foi bastante vendido na época. Para causar a mudança, Roy Thomas conseguiu uma justificativa: O vilão Asmodeus assumiu a identidade de Stephen na Terra e prendeu o Doutor e sua aprendiz, Clea, em outra dimensão. Para escapar, ele precisava se transformar, visto que as leis da metafísica impediam que dois corpos iguais ocupassem a mesma dimensão. Porém, a verdadeira causa da mudança era o número baixo de vendas da revista, o uniforme novo durou das edições #177 até #183

“Eu fiquei bem possessivo com o Doutor Estranho. Não era um grande sucesso de vendas, estávamos vendendo em torno de 40% de um lote de 400,000 impressões. Mas na época que cancelaram, você precisava vender muito mais.

– Roy Thomas”

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Em 1971, com o cancelamento da revista do Doutor Estranho, suas aventuras continuaram nas páginas de Marvel Feature #1, onde vimos o nascimento de “Os Defensores“, um grupo de heróis estranho, mas interessante. A ideia da equipe veio de Roy Thomas, originalmente, ele gostaria de criar uma equipe com o Hulk, Namor e Surfista Prateado, porém, Stan Lee tinha pedido que o personagem ficasse sob seu uso exclusivo, aconselhando Roy Thomas a usar o Doutor Estranho no lugar. O roteirista acabou gostando da mudança, visto que Hulk e Namor tinha uma personalidade de anti-heróis, assim, ele considerou que Stephen Strange seria o elo que manteria a equipe unida. Thomas também deixou claro que “Os Defensores” era uma equipe que só se mantinha junta enquanto houvesse uma ameaça em comum para os heróis (diferente dos Vingadores), os três se odiavam e não tinham interesse nenhum de ficarem juntos. Vale dizer que em 2002 a minissérie “A Ordem” trouxe uma reunião da equipe clássica dos Defensores (que foi criada por Roy Thomas) em que Stephen Strange usou o uniforme com máscara (falado acima). O caso se repetiu em 2009, em “Hulk #10”, onde vemos uma nova reunião dos Defensores para enfrentar o Hulk Vermelho (história de Jeph Loeb e Ed McGuiness). 

Roy thomas escreveu as histórias dos Defensores da Marvel Feature #1 até a #3, que venderam bem acima do normal, o que fez com que Stan Lee aprovasse um título próprio para a equipe, porém, sob a tutela de um novo roteirista:


Quando encontrei Stephen Strange nos Defensores, eu o escrevia basicamente como um super-herói que atirava raios pelas palmas de suas mãos. Quando eu peguei sua série solo, eu decidi aprender um pouco sobre magia de verdade – e isso me levou a ter um interesse contínuo no assunto.

Steve Eglehart

Ao assumir o título dos Defensores, a primeira medida de Steve Eglehart foi pedir a Stan Lee que o Surfista Prateado fosse um personagem ocasional, acreditando no sucesso do título, Lee permitiu que seu querido personagem aparecesse nas histórias. Eglehart ainda decidiu colocar a Valquíria no grupo. Durante as sete edições que escreveu, o roteirista teve a ajuda do artista Sal Buscema, que conseguiu criar painéis que só beneficiaram a narrativa. As aventuras eram empolgantes, mas o Doutor Estranho não tinha o mesmo brilho que antes, de toda forma, isso fez com que a Marvel decidisse dar uma nova chance para o mago.

Assim, em 1972, após a Marvel introduzir a Marvel Premiere, uma nova revista que reuniria histórias de personagens que tinham perdido títulos próprios, o Doutor Estranho se tornou o principal atrativo do título. Ao lado de Frank Brunner, Steve Eglehart levou Stephen Strange para jornadas metafísicas, expandindo os limites do Universo Místico da Marvel. Inicialmente, o roteirista é inspirado pelos mitos de Cthulhu, obra de H.P. Lovecraft, praticamente adaptando as histórias para os quadrinhos, inserindo o Doutor Estranho nelas. A entrada de Frank Brunner se tornou algo ótimo para o personagem, visto que o artista passou a colaborar com os roteiros.  Assim, se inicia a fase mais “estranha” e mística do personagem, aproveitando muito do psicodelismo e espiritualismo da Nova Era (um movimento iniciado nos anos 70).


O ápice desta fase está em “Doutor: Estranho: Uma Estranha Realidade“, que reúne as histórias contidas em Marvel Premiere #9 até #14 e Doctor Strange #1 até #5 e será publicada pela Coleção de Graphic Novels da Salvat. Aqui, após a morte de seu mentor, o Ancião, o Doutor Estranho herda o título de Mago Supremo e é forçado a combater um bruxo que consegue viajar no tempo e veio do futuro com a intenção de absorver toda a magia que já existiu, o plano é se tornar um deus. Armado com o Olho de Agamotto e o Manto da Levitação, Stephen Strange combate o bruxo, provando que merece o título que acabou de receber. Esta é uma das mais amadas histórias do Doutor Estranho, visto que ela lida com assuntos como mortalidade e criacionismo. A dupla demonstrou bastante coragem ao fazer com que Sise-Neg recriasse o Universo Marvel. A comparação com os contos bíblicos é inevitável: Sise-Neg, a nova divindade mística, constrói um paraíso para os primeiros dois humanos da terra e o protege de uma serpente parecida com Shuma-Gorath (personagem que também foi criado por Eglehart), até que acaba destruindo todo o Universo Marvel como foi feito com Sodoma e Gomorra para depois reconstruí-lo. A história foi tão controversa que Stan Lee queria que a dupla escrevesse uma carta de retratação. Porém, ao invés disso, a dupla criou uma carta falsa em que um suposto pastor elogiava a história pela sua criatividade.

A fase de Eglehart se mostrou bastante importante para o personagem, pois é a partir daqui que Stephen Strange é visto mais como um personagem místico do que como um super-herói. Apesar de Eglehart não mergulhar no ocultismo como Alan Moore fez em “Promethea” ou Grant Morrison fez em “Os Invisíveis”, é inegável o esforço do roteirista para criar este tipo de atmosfera para o personagem.


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A fase também foi responsável por devolver um título mensal próprio para o Doutor Estranho, que começou com a arte de Frank Brunner. Além de Steve Ditko, ninguém foi capaz de criar algo tão surreal, sombrio e sinistro como Brunner. Porém, por ficar sobrecarregado com os prazos da Marvel, Brunner deixa o título e a partir da Doctor Strange #6, Gene Colan volta ao título, o que foi um desafio ainda maior para Eglehart, visto que Brunner ajudava nos roteiros da revista, enquanto Colan apenas criava a arte. Ainda assim, a série continuou sendo bastante intensa. Vemos a Eternidade chegar na edição #10 para contar ao Doutor Estranho que o mundo irá acabar. Enquanto isso, o Barão Mordo, que foi reduzido a um maluco após ver o nascimento do universo, pode não ser tão frágil quanto parece. O Doutor enfrenta uma luta cósmica para salvar o mundo, uma história que não pode deixar de ser lida por quem gosta de sagas cósmicas. O título continuou sendo mensal até a edição #13 (que fecha a aventura cósmica, além de ser o último título mais bem vendido do personagem, na época). A partir da edição #14, o título se tornou bimestral, fazendo com que as vendas caíssem e a Marvel demitisse o roteirista após a edição #18. Dali para frente, o título passou pelas mãos de escritores menos conhecidos, que voltaram a retratar Stephen Strange como mais um super-herói, apresentando histórias realmente dispensáveis. Isso só mudaria alguns anos depois. Com a entrada de:


Eu não achei tempo até ser demitido de “Os Vingadores”, foi ali que eu disse: ‘Para o inferno com isso tudo, eu vou me debruçar no roteiro e dar à Marvel a maldita melhor história do Doutor Estranho que eles já viram!’ 

Roger Stern (ao decidir escrever “Triunfo e Tormento”)

Nos anos 80, Roger Stern criou algumas das fases mais importantes para o Capitão América, Vingadores e Doutor Estranho. Para o Mago, sua entrada (que na verdade ocorreu em 1978) foi realmente especial, pois ele traria uma nova vida para o personagem. Uma curiosidade é que Roger Stern deveria assumir o título ao lado do lendário artista/roteirista Frank Miller. Porém, por razões desconhecidas, Miller nunca chegou a trabalhar no título e o roteirista acabou trabalhando com uma verdadeira seleção de artistas: Marshall Rogers, Tom Sutton, Alan Kupperberg, Kerry Gammil, Brent Anderson, Paul Smith, Michael Golden, Kevin Nowlan, Dan Green, Steve Leialoha, Bret Blevins, Sal Buscema e Gene Colan. Apesar de amar o personagem, diversas vezes ele deixou claro que a troca de artistas foi um problema…

Doutor Estranho é um personagem maravilhoso, eu não entendo o motivo de outros roteiristas terem problemas em escrever histórias dele. Eu gostei bastante da minha fase com o personagem, apesar da constante troca de artistas. É uma série que eu voltaria a escrever, se tivesse um artista e um editor certo.

– Roger Stern

Roger Stern conseguiu misturar o cósmico com o pessoal. Ele aproveitou tudo que foi criado anteriormente para o Doutor Estranho para desenvolver novas aventuras, mas também se concentrou em desenvolver melhor o personagem, retratando Stephen Strange, acima de tudo, como um humano. Aqui temos uma grande expansão do elenco de personagens do Estranho. É nesta fase que estão algumas das melhores e mais conhecidas histórias do personagem.


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A primeira que deve ter um atenção especial é a que reúne as edições Doctor Strange #48 até #53 (infelizmente, foram lançadas apenas pela editora Abril aqui no Brasil, há vários anos), Roger Stern e Marshall Rogers introduzem uma nova parceira para o Doutor: Morgana Blessing. Ela possui um potencial para o sobrenatural e fica intrigada com Stephen Strange, enquanto ela tenta se aproximar dele, acaba se envolvendo em uma jornada épica que é marcada pelo retorno do Barão Mordo (dessa vez, na forma de um gato). Agora, Stephen e Morgana precisam viajar no tempo para evitar que Dormammu escape da Dimensão das Trevas, no caminho, eles acabam encontrando Nick Fury e o Comando Selvagem e também acabam testemunhando o primeiro encontro do Quarteto Fantástico com o Rama-Tut. Algo interessante aqui é que este encontro tinha sido apresentado em uma edição antiga do Quartento Fantástico, Stern aproveitou e fez os leitores assistirem a batalha de uma perspectiva diferente (algum tempo depois, Steve Eglehart fez com que os Vingadores da Costa Oeste visitassem o mesmo evento, desta vez, encontrando Stephen Strange por lá e chegamos a ter 3 grupos de viajantes do tempo em um mesmo evento).  A história acabou desenvolvendo um novo relacionamento para Stephen Strange, Stern percebeu que a aprendiz do mago poderia ser uma amante.


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Em ‘Doctor Strange #58-62‘, temos ‘A Fórmula Montesi’, que serve como epílogo para A Tumba do Drácula, uma verdadeira guerra que envolveu o Doutor Estranho, Os Vingadores e Blade contra o Drácula e sua legião de vampiros. A história é centrada na Fórmula Montesi, um feitiço antigo que poderia destruir todos os vampiros da Terra. Nesta obra, o trabalho de Gene Colan se torna imprescindível, pois só ele poderia retratar tão bem os vampiros. Além das edições já citadas, ela reúne as edição #44 de Tumba do Drácula e a edição #14 de Doctor Strange (aproveitando uma história iniciada por Eglehart e Gene Colan). 


Merece destaque a história “A Dimensão das Trevas”, que reúne as edições #68 até #74 e foi publicada no Brasil na edição #31 da Coleção “Os Heróis Mais Poderosos da Marvel” pela editora Salvat. Uma rebelião está acontecendo na Dimensão das Trevas e ela é liderada pela antiga aprendiz (e namorada) do Doutor Estranho, Clea. Paul Smith faz um de seus melhores trabalhos ao desenhar a Dimensão das Trevas, ele consegue recapturar o mundo imaginado por Steve Ditko (lá dos anos 60), que agora é governado por Umar, a irmã de Dormammu. A nova governante está convencida de que a rebelião é uma ideia do Mago SupremoA vantagem aqui é que Stern consegue informar o leitor de tudo que está acontecendo, evitando a necessidade de ler décadas de histórias.

O roteirista também consegue fazer com que a magia seja apenas mais uma arma no arsenal dos personagens, sem que ela precise ser a resposta para tudo. Toda a história é centrada em seus personagens, não nos seus superpoderes. Outro detalhe importante é a força que ele dá para Clea, uma personagem que realmente cresce perante os olhos do leitor. Também vale ressaltar a presença do Cavaleiro Negro e de Beyonder, na época, a história serviu como tie-in do evento “Guerras Secretas 2”.


Durante sua fase à frente do Doutor Estranho, Stern teve várias ideias para graphic novels, porém, ele levou 7 anos para fazer aquela que ele considera sua melhor história do personagem: “Doutor Estranho e Doutor Destino: Triunfo e Tormento”. Uma história sombria e trágica estrelada por dois dos mais poderosos magos da Terra. Nela, vemos a arte do jovem Mike Mignola, bem antes de criar o famoso Hellboy. Tudo começa quando o mais antigo mago do mundo, Genghis, chama todos os usuários de magia para decidir quem se tornará o Mago Supremo. Os dois únicos a vencerem todos os desafios são o Doutor Estranho e Doutor Destino, é claro que o herói acaba vencendo o vilão, mas o prêmio é ajudar Destino em uma tarefa à sua escolha. E a tarefa é ajudar o vilão a libertar sua mãe no inferno.

O que aprendemos a seguir é algo realmente fascinante. Temos uma amostra de como Destino era antes de usar a máscara e quais foram as motivações que o fizeram seguir pelo caminho que conhecemos. Destino não é um vilão qualquer, talvez ele seja um dos mais interessantes personagens do Universo Marvel, pois, apesar de tudo que ele faz, sua essência tem um pouco de heroísmo: a mãe dele era uma cigana e feiticeira que fez um pacto com um demônio com o intuito de retirar um tirano do poder. O seu pai era um curandeiro, um homem gentil, mas que acabou morrendo enquanto Victor era jovem. Assim, Von Doom se dedicou ao estudo das artes místicas e da ciência, enquanto fortalecia sua mente e corpo. Anos depois, ele voltou para Latvéria e tomou o poder, passando a governar com mão de ferro, mas ainda assim, todos o amam. Ele trouxe paz para seu reino, mas não era capaz de trazer paz para seu coração, visto que o seu verdadeiro objetivo era liberar sua mãe das garras do demônio e agora ele tem a chance de fazer isso ao lado do Doutor Estranho.

A forma como a história se desenrola é magnífica. Os visuais do inferno são incríveis, afinal, saíram das mãos e cabeça de Mike Mignola, um homem que nasceu para desenhar demônios. O resultado de tudo é uma obra incrível que consegue chegar aos limites das trevas e da magia do Universo Marvel. Uma história feita com um grande cuidado e habilidade. Realmente indispensável. Você pode adquirir o título, clicando aqui.


O sucessor de Stern foi Peter Gillis, que teve a responsabilidade de terminar o trabalho iniciado por Roger Stern na revista do Doutor Estranho, que foi cancelada logo em seguida. A partir daí, o Doutor Estranho passou a aparecer nas histórias da dupla Manto e Adaga. Tudo continuou assim até que houve o relançamento da revista Strange Tales, em que Gillis escreveu novas histórias solo para o herói. Influenciado pelo “Heavy Metal”, sua fase é marcada por tornar o personagem mais sombrio de uma forma boa e, ao mesmo tempo, doentia. 

Em Don’t Pay the Ferryman, que reúne as edições #75 até #81 de Doctor Strange, Stephen está cheio de dúvidas. Após falhar em proteger um amigo e vários pacientes, ele começa a imaginar se é a pessoa certa para ser o Mago Supremo. Então, quando uma alienígena ataca o Doutor Estranho, com o intuito de roubar o seu título, Stephen deve lutar para proteger seu nome, amigos e o Universo contra a ameaça de Urthona. A primeira edição (a #75) foi criada por Roger Stern, porém, Peter Gillis continuou a saga pelos títulos seguintes. O destaque aqui fica por conta da arte, o estilo de seu uniforme e a arte usada para traduzir seus poderes místicos é incrível. Entretanto, o roteiro é apenas competente, afinal, é uma tarefa difícil assumir algo iniciado por Stern e manter o nível. O encadernado é divertido, mas não chega a cativar o leitor. A história acaba e a revista do Estranho é cancelada. Este material foi compilado em forma de um encadernado recentemente nos Estados Unidos, o que faz com que seja bem provável que ele chegue aqui no Brasil até o fim do ano. Porém, seria ideal que a Panini lançasse a fase de Roger Stern antes, para que o leitor possa entender tudo o que houve antes. Ah, o título da saga é baseado no ditado: “Não pague o barqueiro até chegar ao outro lado”. E isto é algo para se manter em mente durante a leitura.


Após o cancelamento da revista do Doutor Estranho e sua temporada junto de Manto & Adaga, a revista Strange Tales é relançada, assim, Gillis teve que reapresentar o personagem para um novo público, logo, ele enche a história de referências e recordatórios, o que facilita para quem está iniciando. Ele chega a lidar com muito do ocultismo, mas esta fase é marcada por um grande evento na vida de Stephen: após sacrificar boa parte dos seus poderes e vários talismãs e amuletos em uma recente batalha com um vilão. Agora ele deve enfrentar as consequências, pois suas ações podem ter aberto o nosso mundo para a entrada de forças sombrias. Para piorar, Stephen começa a entrar no caminho da magia negra, ele não possui mais o Olho de Agamotto e nem usar os feitiços que ele sempre usou. Ele precisa recomeçar sua carreira, se reencontrar, e descobrir quais são seus propósitos. Apesar de algumas edições terminarem de forma brusca, os leitores podem ter certeza de que esta é uma história bastante impressionante, divertida e com uma conclusão satisfatória. Artisticamente, ela possui o roteiro padrão dos anos 80, marcando o fim da era Jim Shooter na Marvel e o começo da época de Tom DeFalco. Vale a leitura!


Em 1988, Roy Thomas voltou ao título do Doutor Estranho, ao lado de sua esposa, Dan Thomas. seguindo um caminho mais tradicional. Após algumas tentativas de modernizar o visual do personagem, incluindo a ideia de colocar um tapa-olho e cabelos espetados no herói, Thomas decidiu seguir com o clássico Stephen Strange (a mudança foi apenas visual). Uma decisão acertada, pois, enquanto a maioria das revistas tomavam caminhos estranhos no começo dos anos 90, Roy Thomas tomou como base sua primeira fase com Gene Colan. 

O título mais importante é “The Faust Gambit” (que reúne as histórias publicadas em “Doctor Strange, Sorcerer Supreme #5 até #8″), onde o Barão Mordo retorna ainda mais poderoso. Agora, depois de um trato com Mephisto e Satannish, o vilão vem atrás do Mago Supremo. Ainda assim, o Doutor Estranho tinha poder suficiente para vencê-lo, porém, o Barão consegue aprisionar sua alma dentro de uma pequena esfera. Agora, apriosionado, como o herói poderá salvar o mundo do plano louco de Mordo? A história é intrigante e traz vários elementos do Universo Marvel, ecoando várias histórias da continuidade do herói. Aqui também conhecemos Mephista, a filha de Mephisto, que tem uma queda pelo Doutor Estranho, o que causa uma tremenda decepção para seu pai.  

A fase foi bastante importante porque a era de Peter Gillis tinha enfraquecido bastante o herói, visto que foram removidos vários de seus poderes e itens místicos, assim, Roy Thomas decidiu tirar o Doutor Estranho do abismo em que o personagem se encontrava e isso foi feito em grande estilo. 


Depois das eras citadas acima, tivemos as fases de David Quinn e a fase abortada de Warren Ellis, porém, elas não tiveram importância para o mito do personagem. Assim, as principais histórias foram publicadas na forma de minisséries ou graphic novels. Seguem abaixo alguns títulos interessantes:


Em “Doutor Estranho: O Juramento“, Brian K. Vaughn (roteirista de Saga e Y: O Último Homem) e Marcos Matin definem bem o Doutor Estranho na era moderna. Eles exploraram o personagem como um homem, como um mago e como um amigo. A história mostra a desesperada busca de Stephen Strange por uma cura para salvar o seu amigo, Wong, de um câncer no cérebro. Aqui também temos a presença da Enfermeira Noturna (que aqui age como uma médica de super-heróis), interesse amoroso de Stephen Strange. A história é repleta de humor, mistério e teorias da conspiração, em que vemos um Stephen Strange agindo mais como um Sherlock Holmes (que nem o ator que irá interpretá-lo) e Wong como um Watson.

Se você leu e gostou desta história, vale a pena dar uma olhada nas fases de Steve Eglehart e Roger Stern, que trazem vários elementos usados aqui. A história foi publicada na Coleção Oficial de Graphic Novels da Marvel e também pela Panini. Você pode adquirir a edição, clicando aqui.


Em “Doutor Estranho: Shamballa”, o roteirista J.M. DeMatteis (que trabalhou com os defensores nos anos 80) traz uma história brilhante ao lado do artista Dan Green. Ela brinca com os pontos fortes do personagem. É uma história em que Stephen Strange embarca em uma odisseia para iluminar a humanidade. A tarefa foi dada pelos Senhores de Shamballa, porém, ao descobrir o segredo deles, Stephen se encontra em um dilema incrível. 

A história explora muito o misticismo e seu fim traz uma reflexão filosófica e reveladora. A arte de Dan Green apenas enriquece o material. Ela também traz uma narrativa bastante diferente, visto que não temos nenhum vilão com um esquema nefasto, por favor, não deixe este material passar. A leitura será bastante agradável e você se tornará um verdadeiro fã do Doutor Estranho. Você pode comprar, clicando aqui.


Em uma minissérie produzida por Keith Giffen, J. M. DeMatteis e Kevin Maguire, chamada de “Defensores: Indenfensáveis” temos a formação clássica dos Defensores (composta por Hulk, Namor, Doutor Estranho e Surfista Prateado) enfrentando Dormammu e Umar (um feiticeiro que veio de outra dimensão e que deseja conquistar nosso planeta). Os heróis são os únicos capazes de parar os vilões, o grande problema é que eles passam mais tempo discutindo (por se odiarem) do que enfrentando ameaças. A história é divertidíssima e cheia de humor. Caso você não tenha ficado atraído ainda, ela apresenta uma boa narrativa, ação, momentos dramáticos e consegue fazer um bom equilíbrio disso tudo. Você dará boas gargalhadas com os diálogos entre Namor e Bruce Banner.

Ela foi publicada na Coleção Os Heróis Mais Poderosos da Marvel. A Panini também já publicou o material na forma de uma minissérie em 2006, porém, dificilmente você encontrará neste formato.


Por fim, a Graphic Novel recomendada para quem quer saber mais do Doutor Estranho é “Estranho” (sim, apenas este nome), roteirizada por J. Michael Straczynski, que em 2004, reescreveu a origem do Doutor Estranho. Porém, ela é um pouco diferente da que conhecemos. Ao invés de um acidente de carro, Stephen sofre um acidente enquanto esquiava. Assim, tal como em sua origem canônica, ele sai em uma jornada em busca da cura para suas mãos. Porém aqui, ao invés do Ancião, ele encontra Wong. Sim, é o Wong que cura Stephen. 

A arte é um verdadeiro show, superando o roteiro. A história se torna importante para ter uma releitura moderna da origem do Mago Supremo. E não há como negar que J. Michael Straczynski sabe como escrever um bom diálogo nas mais diversas situações.

Talvez esta história seja publicada este ano por aqui. Digamos que ela seja opcional, visto que não traz nada para o mito canônico do personagem, mas é uma boa história para se ter na coleção.


Por ficar anos sem título próprio, tivemos que acompanhar as participações de Stephen Strange em sagas alheias e eventos da Marvel. Praticamente, ele passou anos sendo visto apenas nas páginas de “Novos Vingadores”. Confira abaixo:


Trilogia do Infinito

Na saga de Jim Starlin e Ron Lim, o Doutor Estranho tem uma das mais significativas tie-ins (ao lado do Surfista Prateado. Você não precisa ler isso para entender o Desafio Infinito, mas as HQs do Estranho irão adicionar um gosto a mais na história. Além disso, vemos o Mago Supremo enfrentar o Doutor Destino na Dimensão das Trevas.


Novos Vingadores: Illuminati

Brian Michael Bendis traz Stephen Strange como um dos mais bem intencionados membros do grupo Illuminati, porém, o personagem é cheio de falhas. De uma forma estranha, isso faz com que ele seja um dos membros mais interessantes e também temos algumas das melhores histórias do Doutor entre 2000 e 2007. Você deve ler esta saga antes de Novos Vingadores e Invasão Secreta.


Hulk contra o Mundo

Seguindo o envolvimento de Stephen com a organização Illuminatti, vemos o Doutor Estranho ter um papel importante aqui. As decisões questionáveis de Stephen geram uma das melhores cenas de ação do evento e também ajudam a confirmar que o Mago Supremo tem graves problemas de ética. Este tema é bastante explorado em “Guerras Secretas” (publicada em 2015). Leia esta HQ antes de “A Busca Pelo Mago Supremo“. Você pode adquirir o título, clicando aqui.


Novos Vingadores: A Era Bendis

Entre 2004 e 2010, o Universo Marvel foi praticamente dirigido pelos Novos Vingadores de Brian Michael Bendis e o Doutor Estranho é um dos protagonistas após os eventos de “Guerra Civil”.

Se você quiser ler esta fase, aconselho que comece em “Vingadores: A Queda“, “Dinastia M“, passe para “Guerra Civil“, leia “Novos Vingadores: Guerra Civil“, depois vá para “Invasão Secreta” e por fim, “Vingadores: Invasão Secreta“.

Assim, você chegará em “Novos Vingadores: A Busca pelo Mago Supremo“, você só deve ler este arco após ter lido Illuminati e Hulk Contra o Mundo, pois só assim, você entenderá tudo que fez com que chegássemos às consequências apresentadas neste encadernado. Boa parte desses materiais foi lançada na coleção Panini Deluxe, você pode ver a lista completa, clicando aqui.


Novos Vingadores de Jonathan Hickman

Doutor Estranho continua seu envolvimento com os Illuminati durante a fase “Nova Marvel”. Jonathan Hickman dedica parte da história para o comprometimento de Stephen Strange com o uso das Artes das Trevas, o que abre espaço para o envolvimento do personagem em “Guerras Secretas”. A Panini está republicando este material na forma de encadernados. A torcida é que eles lancem “Novos Vingadores – Anual #1“, que é uma história inteira do Doutor Estranho. Você pode adquirir o primeiro título, clicando aqui.


Guerras Secretas

Finalmente chegamos aqui, o evento que gerou a nova fase da Marvel. Doutor Estranho tem um papel muito grande neste evento, porém, não daremos spoilers por enquanto. O importante é que a partir das consequências do evento, vemos o Doutor Estranho ganhar um novo título, pelas mãos de:


“Demos um machado a ele, desta forma, ele será capaz de mergulhar em diferentes tipos de luta. É uma forma de ele dar um novo passo, adicionar outra peça ao seu arsenal, por assim dizer. E também para vê-lo enfrentar diferentes situações, sujar as mãos de uma forma que nunca vimos antes”

– Jason Aaron

Após as novas “Guerras Secretas“, a Marvel passou a relançar seus títulos e criar novas séries. Depois de tantos anos, o Doutor Estranho ganhou um título próprio, que foi incentivado pela adaptação cinematográfica que será lançada em Novembro. A equipe escolhida é formada por Jason Aaron (que fez um tremendo sucesso à frente de Thor) e Chris Bachalo. De acordo com Aaron, sua intenção é que, durante esta nova fase do personagem, o uso da magia tenha repercussões e custos.

Eu acredito que está é a única regra da magia que sempre conhecemos: tudo que ele faz, tem um preço.

– Jason Aaron

Assim como na fase de Roger Stern, a intenção de Aaron é focar no humano que é Stephen Strange, voltando a desenvolver o personagem para uma novo público. Além das diversas responsabilidades, o autor também inseriu mais humor no personagem, algo que Bendis soube aproveitar bem nos novos encontros com o Homem de Ferro. Além do machado já citado, Stephen também usa outras armas, como arco e escudos. Até agora, as novas histórias renderam apenas um encadernado, mas que foi aclamado pela crítica e pelo público.

Lançado em Maio de 2016, o encadernado “The Way of the Weird” compila “Doctor Strange” do #1 até #5, que conta uma história em que os Magos Supremos de todas as dimensões estão sendo perseguidos e assassinados por um tipo de Inquisição Tecnológica, chamada de “Empirikul”, a ideia é destruir a magia onde quer que ela exista. O próximo alvo é Stephen Strange.

A sequência de abertura é incrível. A grande sacada é que a HQ consegue atrair até quem nunca leu nada do Estranho, visto que Aaron introduz ao leitor todos os importantes aspectos do mundo de Stephen: o Sanctum Sanctorum, Wong, o Bar Sem Portas, a dieta de Stephen e até introduz uma nova personagem: Zelma. A história mistura comédia, aventura e muita imaginação.  

É uma leitura incrível e certamente um ótimo começo de uma nova era para o Doutor Estranho. 



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