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Seja porque seus executivos se perderam ou por pura megalomania, a Marvel Studios seguiu uma tônica azeda pós-Ultimato, limitando-se a fazer filmes puramente para cumprir agendas, sejam elas comerciais ou sociais. Tudo importava mais que os filmes: as cenas pós-créditos, as participações especiais, o balde obsceno, a dança para viralizar no TikTok, e por aí vai. A Casa das Ideias se afogou em uma onda autorreferencial sacal, enquanto atuava como um influencer que vive de pesquisar tendências de engajamento. Agora, a boa notícia é: Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (2025) parece marcar o fim dessa era ou, ao menos, mostra que a Marvel, quando quer, ainda consegue fazer um filme como um filme.
Quando se fala da qualidade dos filmes pós-Ultimato, as pessoas tendem a tirar Guardiões da Galáxia Vol. 3 (2023) da discussão, porque é praticamente um filme autoral do James Gunn. Fato é que, a coisa estava muito feia para o MCU como lógica de continuidade. Homem-Aranha: Sem Volta para Casa (2021), Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022) e Deadpool & Wolverine (2024) até foram bem-sucedidos financeiramente, mas todos seguindo a mesma lógica autorreferencial que não se sustentou a longo prazo.

A Marvel esqueceu o básico: se você paga caro para assistir a um filme, quer saber principalmente o que ele tem a dizer sobre seus personagens. A conexão com o universo compartilhado é, no máximo, um afago para fanboys e nunca deveria motivar a existência de uma produção. Thunderbolts* (2025), de forma medíocre, foi o primeiro dentro da lógica de continuidade do MCU a se esforçar para tentar sair dessa areia movediça, mas é Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (2025) que finalmente consegue.
Enquanto muitos filmes recentes do estúdio parecem ser feitos por pessoas que não queriam estar ali, o novo Quarteto Fantástico transborda carinho e cuidado. Cada decisão dos departamentos de arte, fotografia e maquiagem foi minuciosamente construída para honrar cada página de cada um dos principais autores dos quadrinhos da primeira família de super-heróis da Marvel. Como resultado dessa dedicação especial, há o golaço que é o visual retrofuturista, o qual é encantador e, ao mesmo tempo, funcional ao estabelecer o tom de fantasia.

Com licença para se embebedar no fantástico, o trabalho de roteiro é irretocável. É evidente que houve uma profunda pesquisa por parte da equipe, e, se é para tratar uma versão desses personagens como a definitiva no live-action, é esta. Os principais conceitos de ficção científica e fantasia de diferentes fases foram sintetizados em uma só obra, e isso era muito difícil de ser alcançado. Alguns vão tentar apontar conveniências na trama, mas, dentro do que era preciso ser feito para um filme do Quarteto funcionar, isso é tão minúsculo que chega a ser irrelevante.
Houve alguma animosidade na escalação do elenco, mas é um alívio poder dizer que eles também são dos principais responsáveis pelo filme funcionar. Vanessa Kirby e Pedro Pascal são completamente magnéticos. Pascal consegue incorporar muito bem o cientista pragmático que sacrifica o tempo da família na obsessão por tentar consertar tudo. O Coisa, de Ebon Moss-Bachrach, é de uma elegância ímpar, e o Johnny, de Joseph Quinn, apesar de eu não ter amado como os outros devido à sua postura naturalmente carrancuda, funciona na maior parte do tempo. O importante é que, juntos, eles são convincentes como família.

O staff que a Marvel Studios montou para Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (2025) é digno dos maiores elogios. Eles desenvolveram um carro muito potente. Só lamento pelo piloto, Matt Shakman, não ter tido braço para tirar o máximo desse potencial.
O trabalho de Matt Shakman como diretor é, frustrantemente, muito burocrático. Talvez por medo de errar, as escolhas de transições e ritmo são convencionais demais. A sequência da batalha final contra Galactus foi a que mais sofreu com a dificuldade do cineasta em moldar o ritmo do filme. Os eventos, desenvolvidos para gerar uma alta carga de drama, carecem de pausas e acentuações que, ou ele não identificou, ou não teve tempo de implementar.

Tempo talvez tenha sido um grande problema para a equipe. O roxo e azul do Galactus, por exemplo, é quase imperceptível de tão escuro que é o filtro aplicado para integrar o bonecão de computação gráfica nas locações reais. O vilão é, na maior parte do tempo, um gigante cinza. Isso é um claro indício de que o filme precisava de mais tempo para ser aperfeiçoado.
Embora tenha sido comparado a Sam Raimi pelo produtor Grant Curtis, Matt Shakman não tem, nem remotamente, a mesma habilidade que o diretor da trilogia clássica do Homem-Aranha em ser o maestro de um filme. As obras dos dois diretores, no entanto, se aproximam na abordagem confortavelmente inocente dos super-heróis.
A razão de ser do novo filme do Quarteto Fantástico é ter algo a falar sobre esses personagens aqui e agora, e isso, por si só, já é uma grande vitória.

“Não sabemos aonde os poderes vão levá-lo, mas aqui, agora, ele está conosco.” Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (2025) é o glorioso retorno da Marvel ao básico, ou a bússola que o estúdio precisa reencontrar para que o MCU continue valendo a pena. É um filme que reconhece a importância de uma história bem contada, da promoção da empatia pelos personagens e de proporcionar a sensação genuína de que, por trás da tela, há um toque de alma, não apenas de algoritmo. Afinal, se quem está ganhando dinheiro para fazer um filme não se importa com ele, por que eu, que vou pagar para assistir, teria que me importar?
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