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Um reinado cinza: pessoas estão trancafiadas em prédios. Elas se devoram por castas melhores. Um novo rei é coroado. Estamos em uma selva, mas de concreto e aço, erguida sobre aparências, onde o poder se amarra à conta bancária e ao status. Um avião cai; apenas dois sobrevivem. Agora, na selva original, a meritocracia é real e o prêmio não é uma promoção, mas a própria vida. Em Socorro! (2026), o icônico Sam Raimi consagra o ambiente como um agente autoritário diante da frágil e egoísta natureza humana.

Crítica de Socorro!
Reprodução/20th Century Studios

Inverter papéis de conforto e questionar a eficiência humana diante da sobrevivência extrema é a base do cinema apocalíptico que Raimi ajudou a consagrar. Mas, desta vez, não falamos de zumbis. Não há alienígenas, feras, kaijus ou supervilões; há apenas humanos e seu desespero por sobrevivência — e isso basta para criar uma história sobre monstros.

Seria fácil e confortável abraçar o maniqueísmo e pintar um heroísmo puritano a partir do texto de Damian Shannon e Mark Swift. Raimi, no entanto, foge dessa armadilha. Esta é, sim, uma trama de vingança do proletariado, mas as acentuações dramáticas fazem questão de deixar claro: não há santos aqui. E nem poderia haver, uma vez que a essência do filme está em uma afirmação sombria: se vire, ninguém vai vir por você.

Crítica de Socorro!
Reprodução/20th Century Studios

O diretor filma como quem caça. Quando não está abraçando sua assinatura estilística — com planos-detalhe expressivos —, a câmera varia entre os momentos de predador e presa. É um jeito eficiente de manter o espectador em alerta. Linda vai matar Bradley? Bradley vai se livrar de Linda? Em termos de tensão, é como se estivéssemos diante de uma adaptação mais violenta de Amigos Penosos, o famoso episódio do Pica-Pau da frase: “Acho que meu amigo tentou me comer.

Crítica de Socorro!
Reprodução/20th Century Studios

Rachel McAdams e Dylan O’Brien estão radiantes porque abraçam a proposta niilista sem soar indiferentes. Cada um, em seu ambiente de domínio, demonstra uma paz singular diante dos próprios demônios. Quando estão fora, obviamente, as inseguranças gritam. Novamente, o ambiente surge como um elemento fundamental; o que define Linda como protagonista é justamente o foco em sua transformação de uma viúva introvertida para uma fera livre na natureza.

Crítica de Socorro!
Reprodução/20th Century Studios

Socorro! apresenta faces fascinantes. Desde o ataque à falsa meritocracia — prometida pelo capitalismo como um prêmio ao esforço, quando os verdadeiros premiados são herdeiros e seus aliados — até quando fala sobre o patriarcado e o controle sobre a verdade. A faceta mais potente do longa, no entanto, é a que questiona o sentido dos ritos sociais ao evidenciar a pequenez humana diante do todo. O filme reflete sobre como nossa relação com a natureza é de adaptação, e não de controle.

Assim como os animais, os humanos aqui se devoram. Talvez não literalmente, como fazem as outras feras, mas o longa, com sua ótica predatória, grita constantemente que o sucesso no capitalismo depende da ausência de freios morais para tomar o lugar do outro. É uma mensagem cruel, que se torna aterrorizante justamente por não estar distante da nossa realidade.

Crítica de Socorro!
Reprodução/20th Century Studios

Em suma, Socorro! é um grande filme sobre o capitalismo. Talvez seja a obra que melhor exponha a raça humana e seus instintos diante do castelo de aparências que as castas de poder ergueram ao redor de si. De forma visceral e divertida, Sam Raimi inverte os papéis e projeta a meritocracia na prática apenas para deixar claro: ela não existe ou, na melhor das hipóteses, não funciona.

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Nota 9


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