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Em “Batman: O Retorno”, o personagem-título é mais destacado em cena do que no bom “Batman: O Filme”, mas ele ainda está longe de ser o protagonista da história: temos, em vez disso, os esquisitões Pinguim e Mulher-Gato como personalidades centrais. A interessante escolha faz parte de um leque de liberdades criativas do diretor Tim Burton que, impulsionado pelo lançamento do espetacular e emocionante “Edward Mãos de Tesoura”, decidiu elevar os elementos estabelecidos no longa anterior à sua máxima potência; e conseguiu, pois a continuação consegue ser ainda melhor do que “Batman: O Filme”.

A identidade do cineasta pode ser sentida ainda na cena de abertura, na qual acompanhamos, com uma deslumbrante música de Danny Elfman ao fundo, a trágica história de origem do Pinguim: abandonado pela própria família por conta de sua terrível aparência, ele vaga solitário nos esgotos de Gotham, onde ganhará traços ainda mais singulares e grotescos. Tais maneiras são, é claro, representadas com confiança por Danny DeVito. Caracterizado do jeito mais adequado possível, ele entrega uma nova perspectiva sobre seu caráter nervoso e autoritário, visto outras vezes no cinema, e é muito inteligente ao revelar um coração humano e incompreendido em meio ao exterior sujo e asqueroso. Retornando à lógica da abertura, é curioso como ela reflete os eventos que se sucedem nas duas horas seguintes: por ser um espetáculo visual e narrativo, a melancólica cena é um triunfo artístico inegável que comprova como a singeleza e a praticidade podem ser uma gostosa combinação quando combinadas com classe e autenticidade. De modo curioso, toda esta descrição também serve para falar de “Batman: O Retorno” em geral.

Neste universo onírico de horrores, o caos – até mesmo para o Pinguim – é espalhado pela Mulher-Gato. Retratada por Michelle Pfeiffer em grande fase, ela é a idealização de tudo o que uma musa de Tim Burton deve representar: é rastejante, suas profundas olheiras indicam uma psicose avançada e, embora não seja exatamente uma vilã, suas feições tendem à pseudo-vilania ou malevolência por estilo, como gosto de chamar. 

Burton pode não ter percebido, mas seu próprio Batman também é um pseudo-vilão. Com seu porte impenetrável, ele faz coisas macabras como incinerar um dos capangas do Pinguim e explodir outro deles com uma dinamite, naquele que é um dos momentos mais estranhos do longa-metragem. É engraçado quando você pensa que, se todas estas coisas tivessem acontecido no século XXI, os fóruns on-line e redes sociais estariam repletos de críticas e comentários exagerados que, por sua vez, gerariam discussões que não chegariam em lugar nenhum. Já o que há para dizer sobre Michael Keaton é que ele continua ótimo e está mais à vontade no papel do que no longa anterior.

O epílogo de todas estas liberdades tomadas é uma obra subestimada e única em seu subgênero. A estilização extrema de Tim Burton é o principal ingrediente desta mistura triunfante, mas também um dos motivos pelos quais “Batman: O Retorno” se tornou um amargo fracasso financeiro: o público adulto não parecia disposto a levar seus filhos para assistir uma aventura tão obscura, e o estúdio mais tarde descobriu que as crianças também não queriam ter brinquedos de figuras tão macabras em suas casas. O resultado foi o afastamento de Burton da direção de “Batman: Eternamente”, que ficou com o “então promissor” Joel Schumacher. A franquia do Homem-Morcego sofreu por alguns anos como todos vocês sabem, mas em compensação o diretor despontou de vez e se tornou um dos nomes mais requisitados da década de 90. Presumo que, no fim de tudo, ele não se arrependa de nada – e nem deveria mesmo.



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