Comentários

Lá estava eu, à madrugada, assistindo Batman e Coringa duelando no alto de uma catedral. De repente, Coringa tenta escapar em um helicóptero, mas o Homem-Morcego o prende em uma gárgula: o cabo, porém, não consegue sustentar o vilão, que cai em direção à morte certeira. A cena, que compreensivelmente não envelheceu muito bem, é uma das primeiras que chegam à minha mente quando penso em super-heróis, pois “Batman: O Filme”, de 1989, é o primeiro título do subgênero que assisti em minha vida.

Mais de uma década depois dessa experiência e passados quase trinta anos desde o lançamento do longa-metragem nos cinemas, encontro ressalvas na história: o roteiro de Sam Hamm e Warren Skaaren, apesar de original, é morno e jamais eleva o nível do conflito entre Batman e Coringa como promete. Também é decepcionante a maneira como o texto divide espaço entre os personagens, desperdiçando o potencial da história de origem do herói-título enquanto investe, de maneira incompreensível, em personagens insuportáveis como Vicki Vale e Alexander Knox.

Felizmente, por outro lado, temos uma direção inspirada de um Tim Burton em boa forma que, ao estilizar o conto ao seu gosto gótico-expressionista, acaba entregando uma obra que permanece atraente perante à passagem dos anos. Perceba, por exemplo, a destreza do cineasta e do designer de produção Anton Furst (premiado com o Oscar por seu trabalho) em compor Gotham, uma cidade de aparência triste e impetuosa e que, com seus muitos corredores apertados e prédios altos, transmite uma sensação única de claustrofobia e opressão. Aliás, é surpreendente a maneira como os estilos de Burton e do compositor Danny Elfman compactuam, tendo este último criado o tema mais icônico do Batman em todos os tempos: eles são simplesmente melhores juntos.

Os anfitriões deste parque de diversões para malucos são os carismáticos Michael Keaton e Jack Nicholson. O primeiro, massacrado quando escalado como Homem-Morcego, assume uma postura mais sóbria do que estava acostumado, sendo particularmente bem-sucedido ao fazer uma convincente transição entre Batman e Bruce Wayne, apesar de muito apagado. O segundo, premiado astro da época, responde bem às expectativas ao adicionar um pouco de sua própria personalidade egocêntrica ao Coringa, e não é surpreendente que ele ofusque todo o resto do elenco. Embora seja uma pena que o longa jamais entregue o máximo de si por estar preso às limitadas possibilidades do roteiro, ainda é um entretenimento açucarado acompanhar as competências técnicas do ótimo “Batman: O Filme” e refletir sobre como elas mudaram a maneira como o cinema de grande escala era produzido.



Comentários