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É quase um consenso entre os atores que interpretar um vilão caricato, como o Coringa, é um exercício que pode ser pura diversão. Você parte para um lugar lúdico, onde pode deixar que o mito tome conta da atuação. No entanto, a regra muda quando o antagonista não é tão óbvio. Gastão é um “vilão-vilão” em Cangaço Novo — e precisava ser, já que esta é uma história de homens e mulheres controversos lidando com alguém ainda pior que eles —, mas sua vilania não é escancarada para quem está fora do seu núcleo narrativo. Essa contradição cobrou um preço a Bruno Bellarmino, que vive hoje o grande momento de sua carreira graças à série do Prime Video.
Pelo O Vício, tive o prazer de bater um papo exclusivo com o Bruno sobre a anatomia desse personagem. Nessa conversa, mergulhamos nos insights do papel e descobrimos bastidores divertidos e profundos, tanto da produção quanto da trajetória do próprio ator.
“Nada a ver com o Gastão, não é, velho?”

Bem, é óbvio que o Bruno Bellarmino não é um vilão na vida real, mas há um verdadeiro choque quando observamos sua personalidade fora do personagem. O pernambucano de 44 anos, que já ostenta um currículo vasto interpretando brutamontes, tem, na verdade, a energia de um garoto empolgado. Nem preciso dizer que ele está vibrando com o sucesso estrondoso da 2ª temporada, que chegou a desbancar The Boys no Top 10 do Prime Video.
Desde que se mudou para São Paulo, Bruno tem fugido de sua natureza expansiva para mergulhar em papéis que desafiam sua própria moralidade, e foi daí que surgiu a chance de criar Gastão. “Ao longo desses 15 anos em São Paulo, venho representando personagens com camadas densas, profundas, de sensações humanas que às vezes as pessoas não querem expor“, confessou o ator. “Quero mostrar o ser humano em plena atividade, fazendo algo em que somente ele acredita.“
O acordo com a sombra

Gastão representa uma virada nos anos de trajetória de Bruno Bellarmino. É um personagem que atravessa um severo processo de degradação moral, camuflado sob a fachada de cidadão de bem. “Diferente de outros que trabalham com a violência física ou o medo, ele fez algo que, na minha concepção, eu jamais toleraria: o abuso de pessoas“, declarou.
O peso do papel se tornou ainda mais pessoal quando o ator descobriu, aos 40 anos e durante as gravações da 1ª temporada, que sua própria mãe havia sido vítima desse tipo de violência na infância. “Precisei fazer um acordo comigo mesmo para não censurá-lo nem limitá-lo, para despertar reações genuínas no público, mas fazer isso emocionalmente foi muito forte“, disse o ator.
Essa entrega foi tão visceral que o clima no set da 1ªtemporada — onde ele interagiu menos com o trio de protagonistas — ficou pesado. Bruno contou, entre risos e pausas reflexivas, que as colegas de elenco chegavam a desviar o olhar. “Eu percebia isso e ficava: Meu Deus, caramba, que coisa…“, relembrou. Mesmo assim, ele se deixou levar até o limite, pois entendeu que o monstro só faria sentido se ele saísse de sua própria zona de conforto moral.
Na 2ª temporada, essa tensão na atmosfera diminuiu consideravelmente, já que o elenco passou a conhecê-lo como o sujeito empolgado e atencioso que é — ou “gente boa“, como ele mesmo define. Com a proximidade e o convívio, o estranhamento inicial deu lugar ao afeto, e o demônio do personagem passou a ser um conflito puramente interno.
“Se eu não soubesse o que o Gastão faz na intimidade, eu tomaria uma cerveja fácil com ele.”

Por todo o Brasil, o que não falta são famílias inteiras dominando a política dos estados, com integrantes carismáticos que ostentam um poder hereditário impressionante. Se você é leitor frequente do O Vício, sabe que somos um portal com sede na Paraíba, e olha… eu poderia citar dezenas de clãs políticos de João Pessoa, Campina Grande e de todo o interior — mas como não quero correr o risco de levar um processo, melhor deixar quieto! — que guardam histórias exatamente assim: de verdadeiros lobos em pele de cordeiro.
O ponto é que Gastão Maleiro é um personagem assombrosamente real. E se tem um traço que o Bruno consegue imprimir e que torna esse papel único, é o fato de ele ser muito mais ameaçador quando está sorrindo, exibindo todos os dentes. É o disfarce perfeito! Para quem vê de fora, é pura simpatia; mas para quem conhece o íntimo do cara, aquele sorriso é um sinal claro de que o predador de almas está caçando.
Na maior parte do tempo, Gastão sabe exatamente o que está fazendo. O seu desprendimento comunitário nasce de uma maldade alimentada pela indiferença. Ele alcança suas ambições atropelando tudo e todos. Ele opera sob aquela lógica perversa de que o que o dinheiro e a pisa não resolvem, é porque foi pouco. “Eu acho que a segurança dele era ligada à ambição e ao poder que ele nutria. A insegurança vinha do medo de descobrirem o que ele fazia“, explicou Bruno. “Com as meninas, ele tinha muita insegurança, o que é louvável no sentido dramático, porque o que ele fazia era algo muito grave.“
Parte fundamental da construção do Gastão teve a ver com estabelecer essa dicotomia de identidade. Bruno precisava criar duas faces para que, com o tempo, elas se fundissem em uma só, espalhando o terror justamente por sua natureza controversa. Gastão é um predador nato, e o seu charme é o seu canto da sereia. “Precisávamos criar essa atmosfera de que ele é um cara comum da cidade, e isso exigiu tempo para descobrir essas nuances que não estão no roteiro.“, revelou o ator.
A esta altura, se você observar os comentários nas redes sociais, é fácil perceber que a preparação deu certo. Após assistir à série, torna-se muito simples reconhecer o seu próprio Gastão Maleiro. “Se eu chegar em Carnaúba dos Dantas agora, parece que é o próprio Gastão Maleiro chegando.“, brincou.
Deus e o Diabo na Terra do Sol

Não dá para um ator ser verdadeiramente honesto em sua interpretação sem sentir o personagem na pele. E, entre todas as crueldades que precisou encenar e o impacto do histórico de trauma da própria mãe, Bruno terminou as gravações da 2ª temporada com as cicatrizes de Gastão Maleiro expostas.
Houve um respiro de dois meses em Uberlândia, onde ele produziu o vindouro longa Voragem, mas aquela energia densa ainda insistia em acompanhá-lo. O verdadeiro arco de redenção do ator — quase como um acerto de contas com o destino — veio quando ele foi convidado para interpretar Jesus na Paixão de Cristo de Carnaúba dos Dantas, no Rio Grande do Norte.

Foi justamente nessa cidade que Bruno gravou grande parte de suas cenas como Gastão — incluindo o momento em que ele convoca a guerra contra a Irmandade das Três, o estopim do incêndio da igreja que tirou a vida do pai de Ubaldo. Voltar ao mesmo solo um tempo depois, mas agora para entregar uma mensagem de amor e sacrifício, foi um remédio potente. “No lugar onde fui o Satanás, me redimi sendo Jesus Cristo… Fazer Jesus me curou por completo. Foi uma jornada de cura no mesmo cenário“, confessou o ator.
“Como ator, posso ser um instrumento social, um portal para o mundo real.”

Longe dos holofotes, Bruno Bellarmino é um homem de raízes populares. O mainstream pode até ser sua plataforma atual, mas ele se enxerga, acima de tudo, como um portal para o mundo real. Para o astro, existe uma urgência em contar histórias que combatam o feminicídio e a misoginia — temas que ele gostaria de levar para a tela em seus próximos passos.
O papel dos sonhos, no entanto, está em um lugar muito mais íntimo. Bruno quer honrar a classe trabalhadora na pele de um caminhoneiro, resgatando a nostalgia doce das viagens de infância que fez com o tio a bordo de um Volvo N10. Ele quer sentir a empolgação do desbravamento das estradas mais uma vez e traduzir esse sentimento sob sua ótica para o público. Como ele mesmo reflete: “Gosto de imaginar que, como ator, posso ser um instrumento social… Não por hierarquia ou privilégio, mas por propósito.“
Ao fim da conversa, o sorridente, nada ameaçador e empolgado Bruno Bellarmino deixa transparecer a imagem encantadora de um artista que não tem medo de se quebrar em mil pedaços para que o público possa, enfim, se enxergar por inteiro.
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Perguntas e respostas

Você tem um vasto currículo de papéis de alta exigência física e emocional. Foi até Jesus agora na Paixão de Cristo. Mas dá pra dizer que Gastão foi o personagem que mais exigiu de seu corpo e mente? Foi o mais difícil da sua carreira?
Sem sombra de dúvidas, eu coloco o Gastão Maleiro como o mais maduro da minha carreira. Ao longo desses 15 anos em São Paulo, venho representando personagens com camadas densas, profundas, de sensações humanas que às vezes as pessoas não querem expor. Sabe? Mostrar o ser humano em plena atividade, fazendo algo em que somente ele acredita. O Gastão mexeu muito comigo porque, diferente de outros que trabalham com a violência física ou o medo, ele fez algo que, na minha concepção, eu jamais toleraria: o abuso de pessoas.
Minha mãe sofreu um ato de violência quando era criança e eu só soube disso quando tinha 40 anos, justamente enquanto filmava Cangaço Novo. Quando contei a ela sobre o personagem, ela me revelou esse episódio. Naquele dia, mudei totalmente minha concepção de pesquisa. Precisei fazer um acordo comigo mesmo para não censurá-lo nem limitá-lo, para despertar reações genuínas no público, mas fazer isso foi emocionalmente foi muito forte.
Vou te dar uma curiosidade: a Alice (Carvalho, a Dinorah) e a Dilvânia — a Thainá (Duarte) meio que desviavam quando me viam (no set da 1ª temporada).
A energia tava pesada, não é?
Isso aconteceu muito na 1ª temporada com as mulheres do Cangaço Novo. Na 2ª, nem tanto, porque a galera já me conhecia, sabia que eu era gente boa e tal. Mas na primeira, a sensação era forte. Eu percebia isso e ficava: ‘Meu Deus, caramba, que coisa…’.
Mas eu me deixei levar, porque gosto muito do processo de pesquisa e de ensaio. Gosto de gastar tempo ali, porque é onde amadureço um traço de personalidade que não é meu — mas que, se eu me desviasse do meu moralismo, com certeza abraçaria.
Tem uma série em exibição na HBO Max, Pela Metade, de Richard Gadd — que, inclusive, está visualmente parecido com o seu papel em Supermax. Ela é sobre a masculinidade quebrada e a insegurança como raizes da violência. No seu estudo para o Gastão, você o percebeu como um homem inseguro, para além da relação com o pai?
Eu vi o cartaz ontem e pensei: ‘Irmão, esse cara tá parecido com alguém’. Olhei bem e parecia uma foto do meu personagem, Luizão (de Supermax).

Sobre o Gastão: Eu não acredito que ele estava inseguro com o pai. Eu acho que a segurança dele era ligada à ambição e ao poder que ele nutria. A insegurança vinha do medo de descobrirem o que ele fazia. Com o pai, ele já estava perdendo esse laço de filho e se tornando um funcionário, e o cara muda de vez quando quer ser o patrão, não quem recebe ordens. O pai dele é muito mais narcisista que o próprio Gastão; o cara humilhava o filho na frente dos outros homens. Eu via essa relação com a segurança masculina e essas inseguranças. Com as meninas, ele tinha muita insegurança também, o que é louvável no sentido dramático, porque o que ele fazia era algo muito grave.
O papel de Gastão deixou alguma cicatriz emocional ou física em você?
Logo que terminei o Cangaço Novo em dezembro, fui filmar o filme Voragem em Uberlândia e depois recebi o convite para fazer Jesus Cristo na Paixão de Cristo de Carnaúba dos Dantas. Curiosamente, foi no mesmo lugar onde filmei as cenas do Gastão convocando as pessoas para a guerra contra a Irmandade das Três. No lugar onde fui o “Satanás”, me redimi sendo Jesus Cristo. Até março do ano seguinte, eu estava muito fragilizado pela carga emocional do Gastão, mas fazer Jesus me curou por completo. Foi uma jornada de cura no mesmo cenário.
A preparação para a 2ª temporada teve um hiato em relação à primeira. Para você, voltar a esse personagem foi desafiador? Tem algum bastidor da preparação que você possa revelar?
Na 2ª temporada, tivemos um tempo muito maior de preparação e ensaio porque a demanda e a proporção das cenas seriam muito mais intensas. O embate é mais direto e há um jogo de sedução que o Gastão exerce. Ele precisa seduzir as pessoas para entrarem na sua trama maléfica. Eu queria dosar essa malícia no discurso. Sendo honesto: se eu não soubesse o que o Gastão faz na intimidade, eu tomaria uma cerveja fácil com ele. Ele é carismático, ‘gente boa’, nascido e criado ali. Precisávamos criar essa atmosfera de que ele é um cara comum da cidade, e isso exigiu tempo para descobrir essas nuances que não estão no roteiro.
A minha intenção era que o público percebesse que esse personagem realmente existe; que todos nós já o vimos por aí. E sendo bem honesto, irmão: se eu chegar em Carnaúba dos Dantas agora, parece que é o próprio Gastão Maleiro chegando.
Se você fosse convidado para ser o cabeça de um projeto, qual história você sentiria urgência de contar para o Brasil de hoje?
Com certeza sobre a alta taxa de feminicídio no Brasil. Essa misoginia, essa onda ‘red pill’ e o ódio às mulheres. Eu treino jiu-jitsu e, na minha academia, graças a Deus ninguém pensa assim, mas sei que estou em uma bolha. Lá fora está muito intenso. Como tenho um público muito heterossexual, queria muito falar sobre isso. Queria ter a chance de mostrar uma jornada de redenção.
O Bruno Bellarmino tem algum papel dos sonhos guardado?
Eu tinha um tio que era carreteiro. Quando eu tinha 15 anos, dei uma volta pelo Brasil com ele em um caminhão Volvo N10. Foi fascinante descobrir o país assim. Morro de vontade de interpretar um caminhoneiro. Gosto muito de representar a classe trabalhadora. Venho de periferia e de projetos sociais; hoje faço parte do mainstream, mas não perco esse sentimento de força da comunidade.
Antigamente, quando meu pai e minha mãe trabalhavam, quem cuidava de mim eram os pais dos meus amigos no bairro. Entende, irmão? Se os seus pais estivessem trabalhando, eu e você estaríamos juntos. Por isso, gosto de imaginar que, como ator, posso ser um instrumento social, um portal para o mundo real.
Eu sou apenas a representação de várias facetas humanas, mas gosto de pensar que tenho uma função social. Não por hierarquia ou privilégio, mas por propósito.
Nada a ver com o Gastão, não é, velho? (risos).
*As respostas foram editadas para uma melhor fluidez na leitura.






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