
Desde que Batman vs Superman estreou em Março, um dos assuntos mais discutidos no mundo do cinema tem sido Zack Snyder.
Com o filme não sendo bem aceito pela crítica especializada e não alcançando a bilheteria esperada pela Warner Bros., o trabalho do diretor (que nunca foi unanimidade entre o público e os críticos) passou a ser ainda mais questionado.
Porém, o propósito aqui não é restringir a discussão sobre o trabalho de Snyder apenas ao Universo Estendido DC nos cinemas, mas sim, avaliar de forma geral toda sua carreira.
Sua estreia no cinema foi com Madrugada dos Mortos (2004), um remake do filme de mesmo nome de 1978 dirigido por George A. Romero. O longa foi bem aceito pela crítica e pelo público, sendo um dos poucos filmes do gênero à arrecadar mais de US$ 100 milhões em bilheteria internacionalmente.

No entanto, o primeiro grande sucesso de Snyder viria a acontecer em 2007, com o filme 300, uma adaptação da história em quadrinhos homônima escrita e ilustrada por Frank Miller. A produção trouxe uma adaptação bastante fiel em relação à história e à caracterização dos personagens, além de apresentar uma estética visual espetacular, uma marca registrada de Snyder até hoje. O resultado disso foi um enorme sucesso de bilheteria, arrecadando mais US$ 450 milhões.

Impressionada com o trabalho de Snyder em 300, a Warner o contratou para dirigir outro filme baseado em história em quadrinhos: Watchmen, uma adaptação da HQ homônima escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons. Aqui, temos o grande momento da carreira de Snyder, seu ‘’magnum opus’’. Seguindo quase a risca a história contada nos quadrinhos, o filme é considerado por muitos fãs a melhor adaptação já feita, e rendeu a Snyder o seu controverso apelido, tema da discussão principal desse artigo: visionário.
É indiscutível que Watchmen realmente é uma das melhores adaptações de quadrinhos já feitas e que, além de ter sido corajoso em adaptar uma obra tão complexa e conceituada, Snyder nos entrega uma fotografia simplesmente espetacular. Ainda assim, Watchmen acabou dividindo opiniões. Algumas críticas consideraram o trabalho como “corajoso e visualmente impressionante’’, enquanto outras apontavam o fato do filme ter uma estrutura narrativa muito complexa, o que dificultava o entendimento da história ao espectador ‘’não conhecedor’’ do material original, como um grande erro.

Polarização é a palavra que melhor descreve o resultado obtido em Watchmen. Na verdade, é a palavra que melhor descreve todo o trabalho de Snyder a partir de Watchmen, como veremos à seguir.
Em 2010, novamente dirigindo uma adaptação, Snyder trouxe A Lenda dos Guardiões, baseado nos livros infantis de mesmo nome. O resultado foi muito abaixo do esperado nas bilheterias, com o diretor sendo criticado por, apesar de apresentar visuais deslumbrantes, não conseguir trazer nem um pouco do verdadeiro potencial da história.

Em 2011, novamente um fracasso: Sucker Punch. Tendo Snyder como diretor, produtor e co-roteirista, este foi o primeiro trabalho dele baseado em um conceito original, mas o filme foi um fracasso em bilheteria, além de ser execrado pela crítica. Sucker Punch recebeu comentários como: “o mais chato, juntamente vagaroso, infantilmente crasso, adolescente, loucamente estúpido e calvinista que eu já vi.”

Mesmo após os dois fracassos, Snyder foi indicado por Christopher Nolan e consequentemente escolhido para dirigir Homem de Aço, o reboot do Superman nos cinemas.
Homem de Aço foi lançado em 2013 com a premissa de trazer uma nova roupagem ao universo do Superman. Apesar de ser elogiado por apresentar uma nova origem para o personagem, além de trazer um conceito moderno do universo do herói, adaptando-o para a nova geração de espectadores, o filme não foi tão bem aceito pela crítica, e também dividiu opiniões entre os fãs. Homem de Aço foi duramente criticado por apresentar uma visão um tanto quanto descaracterizada do herói, não mostrando o carisma e o heroísmo característicos do personagem nos quadrinhos, além de mostrar um Superman agindo sem se preocupar com as consequências de seus atos.

Mesmo com tal recepção, a Warner decidiu utilizar o filme como o ponto de partida para um novo universo da DC nos cinemas – que futuramente viria a ser chamado de Universo Estendido DC – e o escolhido para encabeçar este universo e dirigir Batman vs Superman foi Zack Snyder. Apesar dos erros apresentados anteriormente, a expectativa era grande. O visionário diretor que havia adaptado brilhantemente Watchmen e que havia tido a coragem de repaginar o universo do Superman, à frente de um dos projetos mais ambiciosos do cinema: trazer os dois maiores heróis da história pela primeira vez em um mesmo filme.
Snyder faria jus ao seu apelido de visionário ou se mostraria superestimado demais visto que seus últimos trabalhos haviam sido classificados como medianos? Hora da verdade.
24 de Março de 2016, Batman vs Superman estreia nos cinemas de todo o mundo e tem a maior bilheteria em estreia para um filme de super-heróis na história. Porém… novamente a polarização foi imediata. Algumas críticas excelentes, considerando o filme como um dos melhores do gênero de super-heróis, e muitas críticas terríveis. Snyder novamente crucificado por se preocupar demasiadamente com a estética visual e por querer abordar de forma épica e filosófica uma história que poderia ser adaptada de maneira bem mais objetiva, deixando de lados pontos cruciais para a obra, como ritmo no desenrolar do filme e uma caracterização fiel dos personagens.
Resultado disso? Uma bilheteria bem abaixo do esperado e discussões – como essa trazida no artigo – colocando em cheque a qualidade do diretor.
Justiça seja feita, o filme tem pontos – e muitos pontos – positivos. Um Superman bem mais próximo do ideal, com seu heroísmo retratado em cenas marcantes. Cenas que nos passavam a sensação de estar vendo páginas de uma HQ em live-action. Uma Mulher Maravilha que fez o cinema ficar de pé. Sequências fantásticas de ação e, apesar de muitos – e isso inclui à mim – considerarem o Batman de Ben Affleck como o melhor já feito para os cinemas, é justamente aqui que temos um dos erros mais grosseiros da obra: O Batman Mata. Um dos elementos mais marcantes da personalidade do herói nos quadrinhos totalmente deturpado. O ponto mais criticado pelos fãs, inclusive por mim. O homem morcego matando à sangue frio, pelo simples desejo de Snyder de conseguir cenas visualmente espetaculares. Um erro que pode passar batido pelos olhos leigos, mas é imperdoável pelos fãs do herói. Um erro que fez todos questionarem se o diretor realmente conhece os personagens com os quais ele está trabalhando e, questionamento esse, que só será respondido em Liga da Justiça.

Batman vs Superman – ao lado de Watchmen – é o meu filme favorito de super-heróis, mas não posso fechar meus olhos aos erros, e sim, apesar de muitas críticas terem sido exageradas, Snyder falhou exatamente onde esses erros foram apontados.
Filmes de super-heróis tem que ser feitos com o objetivo de abranger todos os públicos (Deadpool foge à regra, mas a premissa do filme e o universo dele já propunham que a produção traria uma história mais adulta), desde crianças até os velhos nerds que leram HQ’s durante à vida inteira. Watchmen é uma exceção justamente por seu material original ser uma história voltada ao público adulto. Faltou a Snyder, tanto chamado de visionário, ter a visão de que a abordagem trabalhada em Watchmen não funcionaria em Batman vs Superman.
Não me livrarei do erro também, pois até algum tempo atrás eu defendia a ideia de que Snyder estava certo em ter tentado abordar um filme de heróis de uma maneira diferente e mais adulta. Mas resolvi tirar a prova disso. Levei minha irmã de 12 anos – que não conhece de maneira aprofundada os universos de super-heróis – para assistir Batman vs Superman no cinema, e logo depois, Guerra Civil. Apesar dela ter gostado de Batman vs Superman, saiu do cinema sem entender nem metade do que havia acontecido no filme. Gostou pelas cenas de ação do final, e por estarem ali na tela os 3 maiores super-heróis da história, afinal, qual criança não é fã de Batman, Superman e Mulher Maravilha? Já Guerra Civil, ela amou. Conseguiu entender a história do filme, se divertir no cinema. E sim, foi depois disso que eu percebi o quão errada tinha sido a abordagem trazida por Snyder em Batman vs Superman.
Até que ponto esse lado visionário de Snyder tem sido utilizado de forma boa? Em algumas situações, um trabalho simples e bem feito tem um resultado melhor do que algo “inovador” que não é executado da melhor maneira. Batman vs Superman é a prova disso. A prova de que os exageros de Snyder de tentar conduzir histórias de uma forma épica, profunda e filosófica, que funcionaram tão bem em 300 e Watchmen, só funcionaram porque aqueles universos eram propensos à tais coisas. E convenhamos, filmes que, apesar de terem sido apresentados de uma forma brilhante e única – principalmente por seus visuais, algo com o qual o diretor sabe trabalhar com maestria – foram adaptados de materiais originais que já possuíam um roteiro bem desenvolvido.
Watchmen deixou Snyder mal acostumado, fazendo com que ele se enxergasse – e não só ele, mas também o público – como um diretor visionário, quando na verdade, como eu já havia dito, ele apenas adaptou de forma fiel uma grande história já pronta. Snyder se tornou um diretor superestimado à partir daí.
E desde então, tentar conduzir todos os filmes da mesma forma, foi o que o fez descer ladeira à baixo. Sucker Punch, A Lenda dos Guardiões, Homem de Aço, e até Batman vs Superman. Trabalhos visualmente incríveis, e com sequências grandiosas de ação, mas que não funcionam bem devido à incapacidade de Snyder de enxergar que roteiros e universos diferentes tem que ser trabalhados e executados de maneiras diferentes.
Apesar de todos os erros, Zack Snyder terá mais uma chance de mostrar o seu potencial e nos entregar um grande trabalho em Liga da Justiça Parte 1. A última chance na verdade, pois se engana quem acha que se o filme não for um dos maiores sucessos da história, ele continuará à frente do Universo Estendido DC. Se a expectativa e a pressão já eram grandes em Batman vs Superman, em Liga da Justiça será infinitamente maior. Não há mais espaço para Snyder errar. Não há mais espaço para um filme polarizado. Os fãs querem, e com razão, o maior filme de heróis da história, afinal, estamos falando da Liga da Justiça. É hora do diretor deixar de lado a soberba de sua fama como visionário e trabalhar de maneira mais simples e objetiva, mostrando os heróis em sua essência tais como eles são, trazendo um filme que abrange todos os tipos de público – afinal, super-heróis foram feitos para crianças, adolescentes, adultos, idosos… não há idade para ser fã de quadrinhos e de heróis, – e que faça jus à grandiosidade do Universo DC.

E respondendo à minha própria pergunta feita no título do artigo, após analisar todos os pontos positivos e negativos da carreira de Zack Snyder, a melhor resposta não seria visionário, ou superestimado, mas sim um visionário que se auto superestimou. Um diretor com ideias inovadoras, com coragem para aplicá-las em seus trabalhos, mas que peca, hora por não conseguir executá-las de uma boa forma, hora justamente ao se superestimar e optar por querer ser visionário ao invés de fazer o simples.
Eu ainda confio no trabalho de Zack Snyder, e acredito que o diretor tenha potencial para continuar à frente do Universo Estendido DC. Mas Liga da Justiça é sua última chance. A última chance de Snyder de mostrar sua qualidade, e a salvação para sua carreira como diretor não ir por água abaixo.






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