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Você pode até não gostar de Batman (2022), mas, se souber do que está falando, não há como negar que nenhum outro filme em live-action falou mais sobre o mito e o símbolo do Homem-Morcego que o de Matt Reeves.

E, quando falo em abordar o mito, não me refiro a coisas básicas, como a morte dos pais de Bruce Wayne ou seu juramento para com Gotham, mas aos elementos específicos que constituem o Batman não como um vigilante ou um anti-herói, mas um detetive, um super-herói clássico.

Ainda acredito que O Cavaleiro das Trevas (2008) é um filme melhor que Batman (2022), mas o clássico de Christopher Nolan é menos sobre o Homem-Morcego e mais sobre a obsessão como um veneno para a vida dos homens. É praticamente um pastiche de Fogo Contra Fogo (1995). Um excelente pastiche, mas ainda assim um pastiche.

Tenho muita segurança para afirmar que Batman (2022) é o filme em live-action definitivo do Homem-Morcego — embora não seja o melhor —, e listo meus argumentos neste artigo.

O resgate do símbolo

Robert Pattinson como o Batman
Reprodução/DC Studios

Nos anos 80, Frank Miller trouxe para o Batman uma abordagem mais violenta, que dialogava com os filmes de ação e a contracultura da década de 70. Isso causou uma verdadeira revolução nos quadrinhos e na própria mitologia do Homem-Morcego.

Não há nada de errado na visão que Frank Miller tem sobre o Batman, mas tratá-la como definitiva é como se, daqui a algumas décadas, as pessoas passassem a dizer que o Homem-Morcego definitivo é o Absolute Batman, de Scott Snyder e Nick Dragotta.

O grande problema, entretanto, está em quem consumiu a visão do Miller e só conseguiu ler as figuras. Para essas pessoas, o Batman passou a ser um simples espancador de criminosos. Um vigilante que simboliza o pior das atitudes humanas. Um exemplo de que a justiça pelas próprias mãos, agindo como juiz, júri e executor, é o melhor caminho.

Ora, gente. O Batman não ganhou o título de “maior detetive do mundo” agindo como um policial, um juiz ou um soldado. Ele é um detetive! Ele investiga casos, rende criminosos e deixa a polícia fazer o seu trabalho.

Ao contrário do que se discutiu há alguns anos, não é qualquer pessoa que pode ser o Batman. A figura do herói só existe pelos limites que Bruce Wayne impõe à escuridão que reside dentro dele.

Percebendo isso em sua extensa pesquisa, Matt Reeves decidiu mergulhar nos pilares do personagem, ao mesmo tempo em que pegava o Batman do lugar onde a cultura pop o colocou na década passada, para devolvê-lo para onde jamais deveria ter saído.

Como o cineasta fez isso? Fazendo do Charada um reflexo sombrio das atitudes violentas de um Batman que agia por vingança nas sombras.

Tal qual o herói interpretado por Robert Pattinson, o personagem de Paul Dano queria curar Gotham, e via no Homem-Morcego não um rival, mas um parceiro. Foi ao perceber a influência negativa que causou em Gotham que o Batman entendeu o que precisava ser.

Ao mexer nisso, Matt Reeves poderia muito bem cair na armadilha de transformar o Batman no vilão da própria história. O diretor, no entanto, usa o questionamento moral aos métodos invasivos do herói como uma ferramenta para a evolução dele como personagem.

A má interpretação do símbolo do Batman fez muitas pessoas discordarem do final, onde o herói diz que precisa ser um sinal de esperança para as boas pessoas da cidade.

Final de Batman (2022) foi tirado diretamente de Batman: Ego, de Darwyn Cooke (Reprodução/DC Comics)

Aquela cena, no entanto, não poderia ter sido mais precisa. O verdadeiro Homem-Morcego é um farol para os habitantes de Gotham, não um símbolo do medo. Ele é a esperança de que há alguém por eles naquela cidade abandonada pelo destino.

Ao abrir o filme com o Batman espancando criminosos brutalmente como um aviso, e encerrar com o herói sendo estratégico em, ao invés de bater diretamente, desarmar e imobilizar os capangas do Charada, Matt Reeves mostra em tela uma grande evolução de um herói que está aprendendo a ser eficiente.

Ao encerrar com o Batman como um sinal de esperança e não de vingança, Reeves resgata o verdadeiro símbolo do Homem-Morcego e mantém a mitologia do detetive viva para as gerações futuras.

Realismo no mundo dos super-heróis não é um problema

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Com a velocidade das informações do mundo moderno, as pessoas vivem a tendência de sempre buscar respostas fáceis para as coisas. O problema é que cada discussão, por menor que seja, tem algum grau de complexidade que exige cuidado antes que qualquer conclusão seja tomada.

Tratando-se especificamente sobre o cinema de super-heróis, concluiu-se de um modo geral que “realismo” é ruim e a “fantasia” é tudo o que há. E não é bem por aí.

Cada obra tem a sua proposta, e o que realmente importa é que a história seja bem contada.

O mundo do Batman de Matt Reeves, por exemplo, é quase inteiramente parecido com o nosso. No entanto, reflete perfeitamente a essência da mitologia de Gotham dos quadrinhos. Se The Brave And Bold fizer o mesmo, mas de uma maneira diferente, quem ganha é o público.

Essa discussão existe, em grande parte, por causa dos filmes do Nolan, especificamente por causa de como Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012) caiu no conceito do público com o passar dos anos.

Francamente? O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012) não é ruim porque é realista, mas porque é quase inteiramente desprovido de inspiração. É um filme que soa ter sido feito a contragosto pelo Nolan. E aqui se aplica aquela máxima: se um diretor não se importa com o trabalho que está ganhando dinheiro para fazer, por que eu, que vou pagar para assistir, tenho que me importar?

*Todos os comentários presentes neste texto constituem a opinião do autor, e não do OVício como um todo.

Leia mais sobre o Batman

Batman (2022) de Matt Reeves está disponível no catálogo da HBO Max. O filme vai ganhar uma sequência em 30 de setembro de 2027, cuja produção está marcada para começar em abril.